4 - O Encontro Inesperado

Valéria chegou à mansão pouco depois do pôr do sol. A entrada iluminada destacava a arquitetura imponente. Ao descer do táxi, ela observou o jardim que cercava o lugar, bem cuidado e silencioso.

Ao entrar, foi envolvida pela atmosfera elegante. Música suave preenchia o ambiente, misturada ao som de conversas discretas. Por um instante, sentiu o nervosismo voltar — não pela festa, mas por algo que ainda não conseguia nomear.

— Professora Carvalho!

Gabriel surgiu entre os convidados e correu até ela, envolvendo-a em um abraço.

— Que bom que você veio!

Valéria sorriu, retribuindo.

— Eu não perderia a sua apresentação.

Ele a puxou pela mão, animado demais para conter a empolgação.

— Vem, quero te apresentar à minha família.

Valéria foi conduzida até um grupo mais reservado. A mãe de Gabriel, Sônia, e a avó, Helena, conversavam próximas a uma mesa decorada.

— Mãe, vó, essa é a minha professora — disse Gabriel, orgulhoso. — Foi ela que me ajudou.

Sônia sorriu com elegância.

— É um prazer conhecê-la. Gabriel fala muito bem de você.

— O prazer é meu.

Dona Helena se aproximou, calorosa.

— Muito obrigada por vir. Gabriel anda encantado com as aulas.

Valéria entregou o presente com um leve sorriso.

— Espero que goste.

Helena abriu a caixa com cuidado e se encantou imediatamente.

— É lindo.

O momento foi breve, mas suficiente.

Valéria se afastou alguns passos, buscando um pouco de ar.

Foi quando Gabriel voltou, puxando alguém pela mão.

— Tio Felipe, preciso te apresentar a professora Carvalho!

O tempo pareceu desacelerar.

Valéria virou-se e o reconheceu imediatamente. Era Felipe — cedo demais, inesperado demais. Ele também parou por um instante, mas se recompôs rápido.

— Senhorita Carvalho — disse, estendendo a mão, formal. — Prazer.

Valéria sustentou o olhar por um segundo antes de aceitar.

— Igualmente, senhor Cavalcante.

O toque foi breve, mas suficiente.

— A professora me ajudou muito — continuou Gabriel, sem perceber nada. — Você precisava ver como eu melhorei.

— Imagino — respondeu Felipe, ainda olhando para ela.

Havia algo ali, contido, mas evidente.

— Ele tem talento — disse Valéria, desviando o olhar. — Hoje vai ser ainda melhor.

Gabriel foi chamado para o palco e saiu animado, deixando os dois sozinhos por um instante.

O silêncio se instalou.

— Não imaginei que te encontraria aqui — disse Felipe, em tom baixo.

Valéria respirou fundo.

— Nem eu.

— Coincidência.

O tom era simples demais. Controlado demais.

Valéria desviou o olhar para o palco, onde Gabriel começava a tocar, mas a presença dele continuava ali, impossível de ignorar.

Quando a apresentação terminou, os aplausos ecoaram pelo salão.

Valéria parabenizou rapidamente a família e se afastou, precisando de um momento.

Após a apresentação, sentiu-se sufocada e decidiu se afastar. Caminhou pelo corredor, procurando o banheiro.

Mas não chegou.

— Valéria.

Ela parou.

Gustavo.

Virou-se devagar.

— O que você está fazendo aqui?

Ele se aproximou rápido demais e segurou seu braço.

— Quem te trouxe aqui? — insistiu, apertando com mais força.

— Gustavo, está doendo — disse ela, tentando se soltar.

— Me responde — ele avançou mais um passo, invadindo o espaço dela.

— Me solta. Agora.

Ele não soltou.

— Você estava com alguém, não estava?

— Isso não é da sua conta — retrucou, já sem paciência.

— É, sim — ele rebateu, a voz mais baixa, mais tensa. — Enquanto você ainda for—

— Solta ela.

A voz veio firme, sem elevar o tom — foi o bastante.

Gustavo virou o rosto lentamente.

Felipe estava a poucos passos, expressão fechada.

— Acho que você não entendeu — continuou ele, no mesmo tom controlado. — Eu disse pra soltar.

O silêncio pesou, e, por um segundo, Gustavo hesitou antes de soltar — não por vontade, mas porque entendeu exatamente com quem estava lidando.

— A gente conversa depois — murmurou Gustavo, frustrado. — Eu passo na sua casa.

— Não se atreva — disse Valéria, firme.

Gustavo lançou um último olhar antes de sair. Valéria respirou fundo, tentando se recompor, enquanto Felipe se aproximava em silêncio.

Ele segurou o braço dela — agora com cuidado — e a conduziu pelo corredor.

Direto para o banheiro.

A porta se fechou com um som seco.

Valéria puxou o braço imediatamente, criando distância.

— Você não tinha o direito de fazer isso — disse, firme.

Felipe a observou por um segundo, sem pressa.

— Ele estava te machucando.

— Eu saberia lidar.

— Não parecia.

O silêncio que se seguiu foi curto.

Valéria cruzou os braços.

— Continua sendo invasivo.

Felipe inclinou levemente a cabeça, analisando.

— Você também foi ontem.

O impacto foi imediato.

Valéria travou por um segundo, mas se recompôs.

— Aquilo foi diferente.

— Foi?

Ele deu um passo à frente, reduzindo a distância — não o suficiente para tocar, mas o suficiente para tirá-la do controle.

— Você me beijou sem saber quem eu era — continuou. — Entrou no meu carro, foi comigo até meu apartamento… e agora isso é “diferente”?

Era constatação, e isso a incomodava ainda mais. Valéria desviou o olhar, irritada.

— Eu não te devo explicação.

— Não pedi uma.

Felipe inclinou a cabeça de leve, como se concluísse o próprio raciocínio.

— Então você poderia só agradecer.

Valéria piscou, sem entender de imediato.

— Agradecer?

— Por de hoje — disse, direto. — E por de ontem também.

O silêncio caiu entre eles, e Valéria não respondeu; Felipe também não insistiu.

Deu um passo para trás, quebrando a proximidade.

— Você já está bem.

Tom neutro. Encerrando.

Ele abriu a porta.

— Pode voltar.

Sem olhar para trás.

Valéria permaneceu parada por um segundo, ainda tentando entender por que aquilo a incomodava mais do que deveria.

Então respirou fundo e saiu.

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