3- Uma Manhã de Mudanças

Valéria despertou cedo, antes mesmo de o sol iluminar completamente o quarto. Por alguns segundos, permaneceu imóvel, tentando reconhecer onde estava.

Então lembrou e virou o rosto lentamente.

Felipe ainda dormia ao seu lado, de bruços, com o lençol parcialmente enrolado nas pernas. A respiração tranquila contrastava com a intensidade da noite anterior. A luz suave da manhã destacava seus traços, tornando tudo ainda mais real.

Valéria o observou por um instante mais longo do que pretendia.

Depois se levantou.

Vestiu-se com cuidado, em silêncio, evitando qualquer movimento que pudesse acordá-lo. Quando terminou, lançou um último olhar na direção da cama.

A noite havia sido intensa, sem arrependimentos — mas não sem consequências.

Ela saiu.

De volta ao apartamento, tomou um banho rápido. A água quente ajudou a aliviar o corpo, mas não organizava completamente os pensamentos. Enquanto preparava o café, a lembrança de Gustavo voltou — inevitável.

Ainda incomodava, mas já não tinha o mesmo peso. O que aconteceu com Felipe não a preocupava, pelo menos não naquele momento. Ao olhar o relógio, viu que já passava das nove.

Tinha um ensaio com Gabriel, um de seus alunos mais dedicados, para a apresentação de aniversário da avó dele. Não podia se atrasar.

Sem pensar muito mais, pegou suas coisas e saiu.

No Studio Allegro, encontrou Gabriel já ao piano, concentrado. As mãos pequenas se moviam com cuidado pelas teclas.

Valéria sorriu ao vê-lo.

Aquela cena trouxe uma sensação inesperada de normalidade.

— Bom dia, Gabriel.

Ele parou de tocar imediatamente.

— Bom dia, professora! — respondeu, animado. — A senhora está bem?

— Estou, sim. E você? Pronto para o ensaio?

Gabriel assentiu, embora o leve nervosismo fosse evidente.

— Estou… só espero que minha avó goste.

Valéria se aproximou, ajustando algumas partituras sobre o piano.

— Ela vai gostar. Você se preparou muito bem. Agora é só confiar e deixar a música acontecer.

Ele respirou fundo, tentando absorver aquilo.

— Professora… a senhora vai à festa, né?

Valéria hesitou.

— Eu não sei, Gabriel. É um momento da sua família…

— Eu queria que a senhora fosse — ele interrompeu, sincero. — Eu vou me sentir mais confiante.

Ela o observou por um instante.

Aquele pedido não vinha de formalidade. Era importante para ele.

— Tudo bem — respondeu, por fim. — Eu vou.

O sorriso dele foi imediato.

— Obrigado! De verdade.

O ensaio seguiu com mais leveza. Valéria fez alguns ajustes, corrigiu detalhes, mas, no geral, Gabriel estava preparado.

Quando terminaram, ela se despediu e se preparava para sair quando a porta do estúdio se abriu novamente.

Ela nem precisou olhar duas vezes para reconhecer. Era Gustavo, e o corpo reagiu antes mesmo de qualquer pensamento.

— Gustavo…

Ele se aproximou rápido demais, segurando seu braço e a puxando de volta para dentro.

— O que você está fazendo? — a voz dela saiu firme, apesar da surpresa.

Gustavo não respondeu de imediato. O olhar percorreu o rosto dela, depois desceu lentamente até parar no pescoço.

A expressão mudou.

— O que é isso?

Valéria se soltou do aperto, incomodada.

— Do que você está falando?

Ele se aproximou um pouco mais, a voz baixa, carregada.

— Isso no seu pescoço… você estava com outra pessoa?

Por um segundo, o silêncio pesou entre eles.

Então Valéria riu, sem humor algum.

— Você está falando sério?

Cruzou os braços, sustentando o olhar dele.

— Quem me traiu foi você, Gustavo.

Ele passou a mão pelo rosto, claramente frustrado.

— Não acabou entre a gente.

— Acabou, sim.

— Eu só estava esperando o momento certo — insistiu. — Queria que fosse depois do casamento…

Valéria respirou fundo, tentando conter a irritação.

— Você estava com outra mulher.

A frase saiu simples. Direta.

Sem espaço para discussão.

— Eu vi.

Gustavo desviou o olhar por um instante, como se aquilo o atingisse de forma diferente.

— Eu achei que a gente ainda podia consertar.

— Não pode.

Ela deu um passo para trás.

— Você fez a sua escolha. Agora eu estou fazendo a minha.

O silêncio que veio depois foi mais definitivo do que qualquer palavra.

Gustavo parecia querer dizer algo, mas não disse.

— Eu só… não esperava que você seguisse em frente tão rápido.

Valéria inclinou levemente a cabeça.

— Talvez você devesse ter pensado nisso antes.

Dessa vez, ela não esperou resposta e saiu do estúdio sem olhar para trás. Do lado de fora, o ar parecia mais leve — não porque não doía mais, mas porque, pela primeira vez, ela não estava mais presa.

Pegou um táxi e voltou para o apartamento. Quando entrou, encontrou Lara na sala, sentada no sofá, com o celular na mão.

Ela levantou o olhar imediatamente.

— Val? Você sumiu ontem.

Valéria soltou a bolsa ao lado do sofá e passou a mão pelos cabelos, ainda tentando organizar os próprios pensamentos.

— Foi uma noite… diferente.

Lara arqueou uma sobrancelha, claramente interessada.

— Diferente como?

Valéria hesitou por um segundo. Não porque não soubesse o que dizer, mas porque colocar em palavras parecia mais concreto do que viver tinha sido.

— Eu fiquei com o Felipe.

O silêncio que veio em seguida foi curto, mas suficiente.

— O amigo do Rafael? — Lara perguntou, surpresa.

Valéria assentiu, desviando o olhar por um instante.

— Foi impulsivo.

Fez uma pequena pausa antes de completar:

— Mas necessário.

Lara a observou com mais atenção agora.

— E você está bem com isso?

Valéria pensou antes de responder. Pela primeira vez desde que tinha saído do hotel, parou de verdade para avaliar o que sentia.

Não havia arrependimento.

Mas também não era simples.

— Estou — disse, por fim.

E, dessa vez, parecia verdade.

Lara assentiu lentamente.

— Então tudo bem.

Houve um breve silêncio entre as duas.

— E agora? — perguntou Lara.

Valéria respirou fundo.

— Agora eu preciso me arrumar. Tenho uma festa para ir.

— Festa? — Lara franziu o cenho. — Depois de tudo isso?

Valéria deu um leve sorriso.

— Eu prometi que iria.

— Então vamos — disse Lara, levantando-se. — Você não vai chegar lá com essa cara de quem não dormiu direito.

Valéria soltou um pequeno riso, quase automático.

No quarto, Lara assumiu o controle, escolhendo peças e ajustando detalhes, enquanto Valéria apenas acompanhava, ainda um pouco distante.

Valéria levantou o olhar para o espelho e ficou alguns segundos observando o próprio reflexo.

— Você está linda — comentou Lara, encostada na porta.

Valéria sustentou o olhar por um instante, como se ainda se reconhecesse.

Não era só a aparência. Havia algo diferente nela, mais firme, mais consciente… talvez mais distante.

Pegou a bolsa, pronta para sair.

— Vai dar tudo certo — disse Lara, tentando confortá-la.

Valéria assentiu, sem responder.

Do lado de fora, chamou um táxi e seguiu até a mansão onde aconteceria o evento.

Durante o trajeto, manteve o olhar na janela, mas, dessa vez, não havia confusão — apenas uma sensação estranha de expectativa, como se algo ainda não resolvido estivesse prestes a surgir.

A mansão era imponente, cercada por um jardim iluminado e cuidadosamente mantido. Tudo ali transmitia sofisticação.

O coração acelerou levemente. Ela não sabia exatamente o motivo, mas tinha certeza de que não era apenas pela festa — havia algo ali, algo que ainda não conseguia nomear.

Endireitou a postura e seguiu em direção à entrada.

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