Mundo de ficçãoIniciar sessãoISABEL LINORES
Eu estava sentada em uma poltrona dura, segurando a mão fria da minha mãe. O médico foi muito claro: o estresse e o choque do jantar quase causaram um infarto fatal. Ela precisava da cirurgia no coração o mais rápido possível, ou não resistiria. Olhei para o teto branco, sentindo um nó na garganta. Como eu ia pagar por isso? Meu salário apertado de enfermeira mal cobria nossas despesas básicas. A única saída que planejei sempre foi a herança do vovô. Mas, graças ao desgraçado do Simon e à víbora da minha meia-irmã, eu estava solteira a apenas dois meses do meu aniversário de vinte e cinco anos. Sem marido, sem herança. Sem herança, sem cirurgia. A porta do quarto se abriu. Millie, minha melhor amiga, entrou com o cabelo bagunçado e a bolsa caindo do ombro. — Cheguei! — ela sussurrou alto, correndo para me abraçar. — Juro que se eu ver o Simon na rua, passo com o meu carro por cima dele. Duas vezes! E depois dou ré! Dei um sorriso fraco, e desabei. Contei a ela tudo sobre a cirurgia, os custos absurdos e o maldito prazo da herança. — Estou perdida, Millie. Como vou arrumar um marido em dois meses? Colocar um anúncio no jornal? "Procura-se noivo urgente. Requisito básico: não dormir com minha irmã mais nova"? Millie estreitou os olhos e estalou os dedos. — Amiga, grandes problemas exigem soluções malucas. Você não precisa de um marido de verdade. Só precisa de um papel assinado, certo? — Sim... você está sugerindo que eu coloque o anúncio no jornal? — Vá a um clube noturno de luxo e alugue um acompanhante. Um marido de aluguel. — ela sorriu, muito orgulhosa da própria genialidade. — Um garoto de programa?! Você bebeu?! — Pense bem, Isabel — ela segurou meus ombros. — É uma simples transação de negócios. Ele assina o papel, vocês fingem por um ano, você pega a herança e paga a ele. Fim. Zero envolvimento emocional, zero risco de traição. É perfeito! Meu cérebro entrou em curto-circuito, mas o desespero gritava mais alto. Eu fiz as contas mentalmente. Tinha alguma economia guardada. Sabia que não era o suficiente para pagar o valor total de um acompanhante de luxo por um ano, mas... em dois meses, estando casada no papel, eu receberia a primeira metade da herança do vovô. Se eu desse a ele o que tinha agora, prometesse sustentá-lo e uma boa quantia em dois meses, qualquer homem aceitaria! Depois, era só manter o teatro por um ano para pegar o resto da herança. — Você tem razão. — É claro que tenho! Vai logo antes que você mude de ideia. — Millie me entregou minha bolsa e me empurrou em direção à porta. — Eu vou ficar aqui com a tia Zara, então não se preocupe. Fui para casa, imprimi um contrato de confidencialidade que baixei na internet e editei adicionando algumas cláusulas, enfiei na minha bolsa e peguei um táxi para a The Velvet, o clube noturno mais exclusivo e caro da cidade, onde ninguém que eu conheça frequentaria. A música eletrônica fazia o chão tremer. Luzes se moviam pelo lugar lotado de pessoas ricas. Respirei fundo para não perder a coragem, agarrei o braço de um garçom que passava correndo com uma bandeja de bebidas e gritei por cima da música: — Com licença! Eu preciso de um... de um acompanhante! Um homem! Numa sala VIP, por favor! O garçom, apressado, apenas apontou para uma porta dupla no corredor e saiu correndo para atender outra mesa. Ajeitei o vestido, ergui o queixo para fingir uma confiança que eu não tinha e empurrei a porta. A música barulhenta da boate sumiu instantaneamente ao fechar a porta. No centro da sala VIP, relaxado em um sofá de veludo escuro, havia um homem e encará-lo me fez esquecer como respirar por um segundo. Ele era incrivelmente lindo. Ombros largos, corpo em forma, cabelos escuros ligeiramente bagunçados e olhos cinzas que pareciam tempestades de inverno. Ele usava um terno que aparentava ser caro e tinha um copo de uísque na mão. "Bem..." pensei comigo mesma, engolindo em seco, "faz todo o sentido." Se ele não fosse lindo de morrer, como poderia se destacar como prostituto nesse lugar chique? Ninguém pagaria uma fortuna para ter um homem feio ao seu lado. Mas esse terno, hein... o clube devia investir pesado no "uniforme" de trabalho dele. Acho que aquele garçom maldito me indicou o mais caro! Enfim, não custa tentar, já cheguei até aqui. Caminhei até a mesa de centro. Abri minha bolsa, tirei o contrato amassado e o bati na mesa de vidro, bem na frente dele. — Quanto você cobra por um ano inteiro de serviço?






