Mundo de ficçãoIniciar sessãoOlá, amores!
Tem um detalhe nesse capítulo que quero ver quem consegue pescar!
Comentem o que acharam, e quem perceber o detalhe, me conta! Vou revelar no próximo capítulo!
BJKS!
*****
Ela
As palavras da Luna humana se repetiam na minha cabeça. Eu queria ser indiferente, mais que isso, eu deveria ser indiferente a esses monstros, mas…
Quando saí do laboratório, após o expediente, meu coração não estava em paz. Bastava fechar os olhos para relembrar aquele par de olhos, espelhos do desespero.
Respirei fundo o ar noturno e segui para o alojamento. A cada passo, meus ombros pareciam cair com o peso da culpa. Não fazia sentido. Culpa por algo que não tinha relação comigo.
“Ele chama o seu nome.”
Por que aquele lobisomem me chamava, se ele mesmo mandou que eu me afastasse para não me machucar?— Carolina, espera!
Ah, não! Só o que me faltava era ter que encarar a filha dele de novo.
Apertei o passo, mesmo sabendo que seria em vão. Ela me alcançou sem demora e nem sequer precisou da velocidade lupina para isso.
Respirei fundo, de olhos fechados, enquanto ela parou bem na minha frente, barrando meu caminho.— Não vai escapar de mim, humana!
— Mila, estou cansada. Não me ameace mais, ok? Se pretende me matar, apenas mate e acabe logo com isso.
Os lábios dela tremeram, mas os olhos... os olhos dela tinham o brilho de determinação e desespero. Creio que minha fala a surpreendeu. Ela parecia perceber que não teria poder sobre mim com ameaças como fez ontem.
Quando pensei que ela me deixaria em paz, notei o seu olhar endurecer. Não era pranto. Era cálculo.
— Peça o que quiser! Eu pago!
— Eu não quero nada, Mila, só ficar em paz!
— Claro que quer! Todo mundo quer alguma coisa e você não é diferente! Sei que nos odeia por ter sido trazida para o meu mundo à força. Quer voltar para o seu mundo, não quer?
Pisquei duas vezes, olhando para o rosto sério dela.
Voltar para casa…
— Luna Esmeralda me contou que não é possível voltar para a minha antiga vida. — Disse, duvidando dela, mas com mais esperança do que queria deixar transparecer.
— Bem, isso é uma questão de ponto de vista. O importante é que posso conseguir te levar de volta para o seu mundo.
Eu podia ver, pelo brilho em seus olhos, que ela estava escondendo alguma coisa. Como um contrato em que as letras miúdas escondem algo essencial.
— Como faria isso?
— Tenho os meus métodos. Posso pagar um elfo para te levar escondida, será um segredo nosso. Tudo o que tem que fazer é manter o meu pai vivo. Use os seus truques, e te farei voltar para o seu mundo.
— Mantê-lo vivo por quanto tempo?
— O suficiente para que ele sobreviva à loucura do luto. Faça a natureza dele superar o luto, não me importam os meios que use!
Não tinha certeza se conseguiria mantê-lo vivo e são por muito tempo, mas não era como se eu tivesse muitas opções. Ela insistiria em apoiar quaisquer meios se eu simplesmente socasse tranquilizante nele?
Duvido.
O ponto é que eu queria voltar para casa, para a minha vida, meu pequeno apartamento no centro da cidade e minhas TVs por assinatura…
Minha vida era meio tediosa, percebi no milésimo de segundo que lembrei dela. Mas era minha. Ninguém tem o direito de me sequestrar!
— Combinado, Mila! Farei o possível para ajudar o seu pai. Em troca, me levará de volta para o meu mundo!
Mila exibiu um sorriso que não alcançava os olhos, e apertou minha mão do jeito estranho dos lobos, que segura a mão e o antebraço também.
Voltamos rapidamente ao laboratório para que eu pegasse o necessário.
— Venha, vou te levar para a cela onde o levaram. — A voz dela falhou por um segundo. — Acorrentaram ele para que não se machucasse mais e… — Ela cerrou os dentes. — E pra ele não matar ninguém. Inclusive você.
Ela parou de falar, respirou fundo e seguiu andando em silêncio. Eu achei mais prudente não fazer perguntas. Eu seria a última pessoa a atiçar um predador ferido com a metafórica “vara curta”.
Ela acenou para os guardas que vigiavam o portão duplo de metal. Eles acenaram de volta e abriram. Era um portão grosso, firme, que abriu com um rangido que, naquela noite escura, me remeteu a um filme de terror.
A donzela tola adentrando o castelo de Drácula…
Drácula é um vampiro da ficção, mas esse era o tom das minhas ações. Os corredores da prisão eram mal iluminados, mas lobisomens enxergam bem no escuro. As paredes eram de pedra úmida. Creio que o pavilhão da prisão foi feito dentro da montanha, perfurando uma gigantesca rocha.
A cada passo meu coração batia mais rápido, e eu não sabia se de medo ou… outra coisa. Mila chamou um dos guardas internos, que nos levou para outra área, mais isolada do pavilhão. Meus olhos seguiram direto para uma cela ao fundo.
Eu não conseguia ver nada, mas sabia…
Meu corpo sabia antes da minha cabeça.
Ele estava lá.
— O lobo não me reconheceu quando vim visitar… Ele está se perdendo para o vazio do luto. Vá. Não há perigo, ele está acorrentado… O prenderam para que não se machucasse mais.
Respirei fundo antes de indicar com a cabeça para o guarda abrir a cela.
— Grite se precisar. — O guarda murmurou. — Ninguém mais vai entrar a não ser que precise de ajuda.
A porta de ferro bateu atrás de mim.
A escuridão me engoliu inteira.
Primeiro o cheiro: cobre, suor, terra molhada e algo selvagem, masculino, que arrepiou cada pelo do meu corpo. Depois o som: ferro raspando em pedra. Lento. Ritmo de animal que sabe que a presa entrou na jaula.
— Eu trouxe... material pra... — Minha voz saiu num fio. Patética.
O silêncio me respondeu. Depois, ele.
— Demorou para chegar.
As palavras rosnadas, rouca de desuso, bateram no meu peito. Não era alívio. Era acusação e algo mais.
Meus olhos se acostumaram à escuridão à força. Ele estava no fundo da cela, braços esticados pelas correntes, cabeça baixa, cabelo desgrenhado caindo no rosto. Estava nu, ventre marcado pelos hematomas roxos e o peito ensanguentado, ferido. Não por inimigo. Por ele mesmo.
Suas garras perfuraram a área que protegia o coração e que estavam sangrando ainda.
Os pulsos grossos estavam presos por algemas de um metal escuro, ligados às correntes que sumiam na parede de rocha.
— Veio me ver morrer, humana? — Ele ergueu a cabeça devagar.
Nossos olhos se encontraram e eu travei.
O brilho de ouro derretido envolto por um círculo vermelho de loucura. Não eram de homem, mas de fera.
E me olhavam como se eu fosse a culpa e a cura.
Meu protocolo médico gritou "recua". Meu instinto de sobrevivência berrava para que desse a volta e saísse daquela cela.
Meu corpo deu um passo à frente.
Burrice.
Do que adianta QI elevado se o corpo não obedece ao cérebro?
— Vim… vim te ajudar… precisa de um curativo. — Ergui a maleta, minha mão tremendo tanto que quase derrubei. — Você vai sangrar até a morte ou infeccionar.
Ele riu. Baixo. Quebrado. O som que se espera ouvir do inferno quando a porta abre e o abismo te encara de volta.
— Um curativo. — Ele testou a palavra na língua, debochado, cruel. — A humana acha que um esparadrapo e um beijo curam a perda da alma?
Engoli em seco.
Era possível sentir a dor de alguém através de suas palavras?
Naquele momento, descobri que sim.
— Me deixa tentar. — Eu me odiei por suplicar.
Eu deveria ser indiferente… deveria…
Ele ficou em silêncio tanto tempo que o som da minha própria respiração ficou alto demais. Então se mexeu. As correntes fizeram aquele barulho medonho de ferro arrastando na pedra.
Um arrepio de puro terror subiu pela minha espinha.
— Chega mais perto então, humana. — A voz dele mudou. Ficou aveludada. Falsa. Um veneno doce. — Se tem tanta coragem, prova.
Eu devia correr. Gritar. Qualquer coisa.
Em vez disso, caminhei até ele.
O cheiro dele ficou insuportável. Dor, sangue, mato, orvalho, alfa… Abri a maleta com dedos desajeitados, peguei a gaze, fio cirúrgico, agulha e antisséptico. Minha mão pairou sobre o pior corte no peitoral dele, perto do coração.
Ele cavou tão fundo, que quase conseguiu o seu intento…
— Isso vai doer. — Sussurrei.
— Acha que não sei o que é dor? — Ele respondeu, os olhos fixos no meu rosto, não no ferimento.
Apertei o pano contra o corte. Não se mexeu. Nem um músculo. Mas o ar entre nós ficou elétrico. Quando terminei, lacrando o último pedaço de esparadrapo sobre a pele quente dele, ousei olhar pra cima.
Estava sorrindo… Não era bem um sorriso, não havia alegria nem gratidão…
E então riu. Uma risada psicótica, sem humor, que fez o sangue gelar na minha veia.
— Tão boazinha… — Sussurrou, e a voz era pura lascívia perigosa. — Tão preocupada em me curar. Devia ter me ouvido quando te disse que poderia te machucar.
Dei dois passos para trás, engoli em seco.
Estava me ameaçando?
Olhei para as correntes que o prendiam e respirei aliviada.
Meu alívio durou pouco.
Puxou as correntes, e foi quando percebi que estavam partidas.
— Achou mesmo que isso me segura, anjo?
CLANG.
As algemas, que eu jurava estarem presas na parede, caíram no chão de pedra feito lixo. Inteiras. Arrebentadas.
Meu coração parou.
Caminhou até mim, devagar. Um predador de quase dois metros de músculo, fúria e luto se desenrolando na minha frente.
As correntes não o seguraram.
Recuei dando um passo para trás.
Avançou.
Dei outro passo para trás.
Avançou de novo. O sorriso torto não saía do rosto.
Minhas costas bateram na pedra gelada, úmida. Sem saída.
Chegou perto. Perto demais. Colocou uma mão espalmada na parede, ao lado da minha cabeça, me encurralando. A outra segurou um cacho dos meus cabelos.
O peito dele quase encostava no meu. Seu hálito selvagem bateu no meu rosto. Os olhos de ouro me devoraram.
— Minha vez de cuidar de você agora. — Rosnou, a voz um trovão contido.
A mão desceu. Lenta. Torturante pelo meu ombro, roçou de leve na minha cintura, arrepiando tudo.
Eu não conseguia me mexer, estava paralisada como um coelhinho diante do lobo mau.
Inclinou a cabeça, o nariz quase encostando no meu pescoço, inalando fundo.
— Gosto do seu cheiro, humana — Sussurrou contra minha pele. — Cheira a medo, curiosidade e fêmea…
O nariz dele tocou a minha pele e fechei os olhos.







