Mas Raíssa podia ficar tranquila: Lavínia não diria a verdade.
Esperaria morrer e só então deixaria que Pedro e Diego descobrissem tudo.
O gosto do arrependimento, impossível de reparar, os acompanharia por toda a vida.
— Soube que vocês estavam aqui, então vim dar uma olhada.
O semblante calmo de Lavínia fez pai e filho suspirarem de alívio.
— Então você veio de outro setor?
— Sim.
Pedro relaxou, mas logo voltou a franzir a testa.
— Que doença você tem? Está até usando roupa de paciente.
Lavínia sorriu com ironia.
— Problema no estômago.
Assim que ela disse isso, Pedro e Diego se entreolharam, ambos com expressões nada boas.
Pedro sabia que Lavínia tinha problemas gástricos, mas nunca imaginara que chegariam ao ponto de exigir uma internação.
Nesse momento, Raíssa se aproximou, choramingando:
— Desculpa... a culpa é minha por ter te feito beber aquela taça. Se você não tivesse bebido, não estaria internada.
Assim que ela começou a chorar, o coração dos dois quase se desfez.
Pedro logo segurou Raíssa.
— Isso não tem nada a ver com você! Como ela iria parar no hospital só por beber uma taça? Isso é exagero demais!
— É isso mesmo! Não fica triste. A mamãe estar internada com certeza foi culpa dela mesma! Deve ter ficado sem comer de propósito, se estragado toda só para chamar a atenção minha e do papai!
Para consolar Raíssa, Diego dizia qualquer coisa.
Lavínia chegou a se perguntar como Diego havia se tornado assim.
Antes, ela o educara tão bem.
O rosto de Raíssa finalmente relaxou; ela levou a mão ao peito, dizendo que não se sentia bem.
Pai e filho a ajudaram imediatamente a voltar para o quarto.
Quando retornaram, Lavínia já havia ido embora.
Pedro não se importou muito.
Se Lavínia realmente tivesse algum problema sério, com certeza teria falado.
Uma mulher que chorava por qualquer ferimento não teria como suportar uma doença grave.
Se não disse nada, então não devia ser nada.
Além disso, Raíssa não tinha muito tempo; ele precisava passar mais tempo com ela.
Depois que Raíssa partisse, faria o possível para compensar Lavínia.
Lavínia voltou para casa levando alguns analgésicos.
Aquilo a ajudaria a sofrer menos.
Restavam apenas oito dias; ela não queria que nada desse errado no meio do caminho.
Para preservar as forças, passou a se permitir viver sem regras, dormindo até o meio-dia todos os dias.
Não precisava mais cozinhar para Diego, nem se preocupar com a escola dele, muito menos ficar angustiada esperando Pedro voltar bêbado dos compromissos sociais.
Descobriu que viver sozinha podia ser tranquilo.
Alguns dias depois, os pais ligaram de repente.
— Se você não tiver nada hoje, venha aqui. Vamos nos reunir.
Foi a primeira vez que os pais a procuraram desde que Raíssa fora diagnosticada com câncer.
Desde a última vez, quando acharam que ela só dizia mentiras, tinham até bloqueado o WhatsApp dela.
Lavínia olhou para o calendário.
Era dia 21.
Seu aniversário.
Ela aceitou. Passar o último aniversário com os pais também poderia ser um encerramento.
Mas, ao chegar à Mansão dos Ribeiro, não havia bolo nem presentes — apenas os olhares estranhos dos pais e um clima pesado.
Quando a viram chegar, os dois trocaram um olhar e apontaram para o sofá.
— Já que veio, pode sentar.
Lavínia se sentou. Sarah falou com uma expressão complicada:
— No dia 26, o Pedro vai fazer uma cerimônia de casamento para você, não é?
Antes que Lavínia pudesse entender, Sarah continuou:
— Deixe esse casamento para a Raíssa.
O corpo de Lavínia ficou rígido na mesma hora.
Sarah foi direta:
— Você sabe muito bem que a Raíssa gosta do Pedro, e que o Pedro e o Diego também gostam dela. O vínculo entre eles já supera o seu há muito tempo!
— Antes eu jamais teria interferido, mas a Raíssa está com câncer e não tem muito tempo. A ideia é realizar esse último desejo: um casamento com o Pedro, ainda que seja apenas simbólico.
Num instante, Lavínia sentiu o sangue ferver.
Ajudar Raíssa a realizar um desejo?
E ela, então?
Pedro era seu marido.
Aquele era o casamento dela.
E os próprios pais queriam que ela entregasse tudo de bandeja.
Não era ridículo?
— Vocês já pensaram em mim?
O rosto do pai, Bryan Ribeiro, ficou sombrio.
— O que deu em você? Vai morrer, é isso?
Lavínia puxou o canto dos lábios.
— Isso mesmo. Eu vou morrer.
O som do tapa ecoou pelo salão.
Lavínia levou a mão ao rosto; o canto da boca sangrava.
Bryan xingou, furioso:
— Teimosa e sem salvação! Como pude ter uma filha tão fria quanto você?
Sarah também estava tomada pela decepção.
— Como irmã, você consegue ser tão cruel? Nem o último desejo da Raíssa você quer cumprir. Se eu soubesse, nunca teria te dado à luz!
— Se não fosse por cuidar de você, a Raíssa não teria se perdido! Você só veio para arruinar a minha vida!
— Se você não aceitar, eu vou embora junto com a Raíssa! Assim não preciso mais olhar para você e sentir nojo!
Lavínia passou a língua pelo sangue no canto da boca.
— Não precisa ir embora com a Raíssa. Eu vou.
Para um lugar onde ninguém jamais a encontraria.
Se eles queriam ir para o céu, ela iria para o inferno sem hesitar.