Cobrindo o rosto inchado e avermelhado, Lavínia saiu do salão, quase esbarrando nas três pessoas que acabavam de descer do carro.
Ela se escondeu em um canto e viu com os próprios olhos Pedro e Raíssa descendo do veículo, com Diego no meio, segurando alegremente a mão de cada um.
Os três pareciam íntimos como uma verdadeira família.
— Raíssa, você está se sentindo melhor?
Raíssa sorriu e acariciou a cabeça de Diego.
— Já estou bem melhor.
— Que ótimo! Então você pode brincar comigo de novo!
Diego, radiante, chutava pedrinhas no chão.
— A mamãe é antiquada e chata, como ela poderia me entender? Ainda bem que não apareceu hoje, senão ia ser um saco.
O sorriso de Raíssa se aprofundou; ela fingiu constrangimento.
— Você não pode falar assim da Lavínia.
Diego inflou as bochechas.
— Por que não? Ela é má, tem um coração perverso e ainda gosta de bancar a coitada. Nem uma taça de bebida quis beber por você. Quem dera que quem tivesse câncer fosse ela!
Lavínia ficou paralisada, como se tivesse sido atingida por um raio.
O resto das palavras ela já não conseguiu ouvir. Risadas vinham de dentro da casa, enquanto ela se afastava como um corpo sem alma.
Achou sua vida absurdamente triste, miserável a esse ponto.
A ponto de despertar ódio até no próprio filho!
Enquanto caminhava, as lágrimas não paravam de cair.
Como eles desejavam, quem tinha câncer era ela.
Depois que ela se fosse, Raíssa tomaria o seu lugar.
"Diego, você conseguiu o que queria!"
Ao voltar para casa, Lavínia esvaziou tudo o que lhe pertencia e acendeu um braseiro.
As fotos de casamento dela com Pedro, as fotos de família dos três, os presentes que ela dava todos os anos para pai e filho.
Lavínia jogou tudo no fogo.
Quando Pedro voltou e viu aquela cena, suas pupilas se contraíram.
Ignorando o calor, ele arrancou do fogo a foto dos três juntos.
Olhando para o pedaço de fotografia reduzido a cinzas, seus olhos ficaram vermelhos.
— Você enlouqueceu? Isso tudo são lembranças da nossa família! Por que você queimou tudo isso?
Diego também avançou, furioso.
— Esses bonecos são os meus favoritos! Por que você queimou eles?
Lavínia respondeu sem qualquer expressão.
— Você não tem os brinquedos que a Raíssa comprou para você? Esses bonecos você mesmo jogou no depósito. Se não fosse para queimar, para que serviam?
O rosto de Diego ficou vermelho de raiva.
Era verdade que ele adorava os presentes que Raíssa lhe dava, afinal, coisas novas sempre pareciam melhores, mas aqueles bonecos tinham sido todos costurados à mão por Lavínia...
Ele cerrou os punhos e empurrou Lavínia com força.
— Mamãe má! Eu te odeio!
Abraçando os bonecos, enxugou as lágrimas e correu para dentro da casa.
Lavínia foi empurrada ao chão; o braseiro virou, queimando o braço dela.
Pedro, porém, só estava preocupado com Diego e nem percebeu.
Quando voltou a si, falou com frieza:
— Diego não devia ter encostado em você, mas você também passou dos limites! Mesmo que estivesse fazendo birra, não precisava chegar a esse ponto.
— Você tem um dia para pegar os negativos e mandar restaurar. Caso contrário, no dia do casamento, não precisa aparecer!
Pedro saiu enfurecido.
Lavínia puxou levemente o canto dos lábios.
Isso também não foi uma oportunidade que Pedro aproveitou?
Assim, ela não iria ao casamento, facilitando para ele se casar com Raíssa.
Ainda bem que ela nunca teve a intenção de ir.
No dia em que Pedro se casasse com Raíssa, ela estaria embarcando no ferry rumo à ilha deserta.
Nos dias seguintes, a frieza de pai e filho tornou-se deliberada; mesmo quando se encontravam, o silêncio permanecia.
Lavínia não se importou nem um pouco; arrumou algumas roupas e ficou pronta para partir a qualquer momento.
Amanhã, ela finalmente deixaria aquele lugar.
Nesse momento, Raíssa enviou uma foto.
Lavínia abriu a imagem e, no instante seguinte, suas pupilas se dilataram.
Era a relíquia deixada pela única pessoa que sempre a amou: sua avó.
Ao lado da herança, havia um braseiro.
Ela ligou imediatamente.
— Raíssa, o que você pensa que está fazendo!
— Venha me encontrar. Quero fazer um acordo com você.
Lavínia saiu às pressas, mas, no meio do caminho, sofreu um golpe violento e caiu no chão.
Antes de perder a consciência, ouviu a voz de Raíssa:
— Amarra bem. Não deixa ela fugir.