Mundo ficciónIniciar sesiónSe o inferno tivesse um cheiro, não seria enxofre. Seria o perfume importado e enjoativo de Caleb.
Eu estava parada no topo da escada de mármore, sentindo o peso do vestido azul que minha mãe implorou para eu usar. Ele era justo, caro e marcava cada curva que eu preferia esconder sob um moletom largo. No final dos degraus, Caleb me esperava com as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria e um sorriso que não chegava aos olhos, mas que percorria meu corpo como se estivesse avaliando um gado no leilão. — Você está… aceitável, Jade — ele disse, estendendo a mão para mim. "Aceitável". O ego desse homem é uma entidade própria. — E você está cheirando a uma perfumaria francesa que explodiu, Caleb — respondi, ignorando a mão dele e descendo o último degrau sozinha. — O que foi? O estoque de dignidade acabou e você resolveu compensar com colônia? Ouvi o suspiro pesado do meu pai atrás de mim. Silas estava logo ali, observando cada interação como um falcão. Eu sabia que, se passasse do limite, o castigo viria depois, em forma de isolamento ou "reeducação". Caleb não se abalou. Pelo contrário, ele deu um passo para dentro do meu espaço pessoal. Ele é alto, forte de um jeito construído em academia, não na selva. Ele se inclinou, e eu senti sua respiração perto da minha orelha. — Eu gosto quando você mostra as garras, querida. Dá mais sabor à conquista. Um calafrio percorreu minha espinha, mas não era o tipo de calafrio que eu sentia nos meus sonhos. Não era eletricidade; era náusea. Era o tipo de arrepio que você sente quando vê uma barata passar perto do seu pé. — Vamos para o jardim — Silas ordenou, a voz de Alpha vibrando para garantir obediência. — Os preparativos para o banquete de noivado precisam ser discutidos ao ar livre, longe dos ouvidos das criadas. O "jardim" da mansão Lua Prateada é basicamente uma redoma de vidro. Flores perfeitamente podadas, fontes de água cristalina e câmeras de segurança em cada árvore. Nada ali é selvagem. Nada ali é real. Caleb segurou meu cotovelo enquanto caminhávamos. Seus dedos apertaram um pouco demais, uma demonstração silenciosa de poder. Eu olhei para a mão dele — as unhas bem feitas, a pele macia de quem nunca caçou para comer. Comparado ao homem do meu sonho, Caleb parecia uma caricatura. — Eu já escolhi o buffet — ele disse, enquanto caminhávamos pelos trilhos de pedra. — Carne de cervo maturada e vinhos que custam mais do que a sua matilha inteira produz em um mês. Quero que todos saibam que a Matilha de Ferro não está apenas comprando uma aliança, está investindo em excelência. — "Comprando" — repeti, dando uma risada seca. — Pelo menos você é honesto sobre a transação comercial, Caleb. Achei que ia tentar fingir que gosta de mim. Ele parou de andar e me virou para ele, me prensando contra uma estátua de mármore de uma loba uivando. A ironia daquela imagem não passou despercebida por mim. — Oh, eu gosto de você, Jade. Eu gosto muito — o olhar dele escureceu, e uma ponta de luxúria crua apareceu ali. — Eu vejo o jeito que seus quadris se movem. Eu vejo como você tenta me desafiar. Você acha que é fogo, mas eu sou o balde de água fria que vai te ensinar a ser uma Luna submissa. Ele levou a mão ao meu rosto, o polegar roçando meu lábio inferior. Eu fiquei imóvel. Meus instintos de loba estavam em alerta, mas meu coração estava morto. Não havia batida acelerada, não havia calor, não havia… nada. Era o vazio absoluto. — Sente isso? — ele sussurrou, a voz carregada de uma presunção irritante. — O seu corpo sabe que eu sou o seu futuro. Você está tremendo. — Estou tremendo de nojo, Caleb — sibilei, empurrando a mão dele com força. — Há uma diferença biológica que o seu cérebro de ervilha parece não captar. — Jade! — Silas gritou, aproximando-se com minha mãe a tiracolo. — Tenha modos! Caleb é seu parceiro prometido por contrato e, em breve, por sangue. — O sangue dela vai ser meu de qualquer jeito — Caleb disse, voltando à sua postura de cavalheiro arrogante. — Eu não me importo com a língua afiada dela agora, Silas. Eu sei que, na noite de núpcias, os gritos dela serão de um tom bem diferente. Minha mãe baixou o olhar, visivelmente desconfortável. Ela sabia o que o Caleb era. Ele tinha fama de ser "intenso" demais com suas amantes, de deixar marcas que não eram de acasalamento, mas de crueldade. E ela estava me entregando a ele com um laço de fita na cabeça. Passamos as duas horas seguintes discutindo detalhes que eu odiava. Flores brancas ou pratas? Lagosta ou cordeiro? Quem seriam os Alfas convidados? Eu me sentia como um fantasma assistindo ao planejamento do meu próprio funeral. A cada toque "acidental" de Caleb no meu ombro ou na minha cintura, eu sentia uma vontade avassaladora de vomitar. Era uma tortura sensorial. O desejo dele por mim era palpável, um cheiro pesado de cachorro no cio que impregnava o ar, mas não encontrava resposta em mim. Eu era um deserto para ele. Quando o sol começou a baixar e a reunião finalmente terminou, Caleb se aproximou para se despedir. Ele não foi pelo aperto de mão. Ele segurou minha nuca com uma força desnecessária e colou seus lábios nos meus. Foi um beijo técnico, invasivo e desesperado. Ele tentou forçar a língua, tentando despertar uma reação, qualquer uma. Eu apenas fechei os olhos e contei até dez, mantendo meu corpo rígido como um cadáver. Quando ele se afastou, tinha um brilho de triunfo no olhar, como se tivesse vencido uma batalha. — Até amanhã, minha Luna — ele rosnou baixo, lambendo os próprios lábios. Ele saiu, caminhando em direção ao seu SUV de luxo com a arrogância de quem possuía o mundo. Assim que ele sumiu de vista, eu corri para a fonte mais próxima e lavei minha boca até a pele arder. Eu esfreguei meus braços onde ele tinha tocado, sentindo uma sujeira que sabão nenhum tiraria. — Você precisa parar com essas provocações, Jade — meu pai apareceu atrás de mim, a voz sem um pingo de empatia. — Caleb é um homem poderoso. Se você continuar agindo como uma criança mimada, ele vai ser muito menos gentil depois do casamento. — Gentil? Ele me olha como se quisesse me desmontar para ver como eu funciono por dentro, pai. Você está me vendendo para um sociopata. — Estou garantindo o futuro da nossa linhagem! — ele gritou, e a pressão de sua aura de Alfa me fez cair de joelhos na grama. — Você vai se casar. Você vai dar a ele um herdeiro. E você vai agradecer por eu ter encontrado alguém que ainda te queira, mesmo você sendo uma fêmea sem marca aos vinte e um anos! Ele se virou e entrou na casa, me deixando ali, sozinha no escuro. A humilhação queimava mais que a pressão do Alpha. Eu olhei para as minhas mãos trêmulas na grama úmida. Onde estava a minha loba? Por que ela não me defendia? Por que eu me sentia tão vazia? Foi então que o cheiro voltou. Sândalo. Tempestade. O cheiro do homem do sonho. Não vinha da casa. Vinha do limite da floresta, além das luzes de segurança. Eu levantei a cabeça, os olhos buscando a escuridão. E lá, entre dois carvalhos antigos, eu vi. Não era um sonho. Dominic estava lá. Ele estava parado na sombra, os braços cruzados sobre o peito maciço. Mesmo à distância, eu senti o impacto. Diferente do toque de Caleb, que me deixava morta, a simples presença daquele homem a cinquenta metros de distância fazia meu sangue entrar em ebulição. Meu baixo ventre deu um nó. Meus mamilos endureceram contra a seda do vestido. Cada célula do meu corpo se inclinou na direção dele como se ele fosse o sol e eu estivesse morrendo congelada. Ele não disse nada. Apenas descruzou os braços e levou um dedo aos lábios, um gesto de silêncio. E então, com uma velocidade que nenhum lobo da minha matilha jamais teria, ele desapareceu na mata. Pela primeira vez em anos, eu senti um arrepio. E, pela primeira vez na vida, ele não tinha nada a ver com medo.






