Mundo de ficçãoIniciar sessãoExiste uma diferença clara entre observar uma situação com distanciamento profissional e se ver emocionalmente envolvido a ponto de cada detalhe parecer mais significativo do que deveria, e durante muito tempo eu me orgulhei da minha capacidade de permanecer no primeiro estado, mantendo tudo sob controle, analisando cada variável com precisão e tomando decisões baseadas exclusivamente em fatos, sem permitir que qualquer tipo de interferência emocional comprometesse aquilo que eu sempre considerei essencial para o exercício da minha profissão, mas nos últimos dias, essa linha que antes parecia tão bem definida começou a se tornar cada vez mais difusa, como se algo estivesse lentamente apagando os limites que eu levei anos para construir.
Eu tentei ignorar isso no início, atribuindo a sensação a fatores externos como o cansaço acumulado, a mudança recente de cidade ou até mesmo a rotina intensa da emergência, mas a verdade é que nenhuma dessas explicações se sustentava completamente quando eu analisava com honestidade o que realmente estava acontecendo, porque tudo convergia para um único ponto, um único nome, uma única presença que, contra qualquer lógica que eu estivesse disposto a aceitar, havia se tornado impossível de ignorar.
Celeste.
O problema não era apenas o fato de ela estar presente com frequência, trabalhando no mesmo ambiente, cruzando meu caminho nos momentos mais inesperados, mas sim a forma como cada interação com ela parecia carregar um peso maior do que deveria, como se existisse algo além das palavras trocadas, algo que não era dito, mas que ainda assim influenciava cada reação, cada olhar, cada silêncio compartilhado.
Depois do que aconteceu mais cedo, depois de vê-la naquela maca tentando manter uma aparência de controle enquanto claramente lutava contra a própria vulnerabilidade, algo dentro de mim mudou de maneira que eu não consegui simplesmente ignorar ou racionalizar, porque não se tratava apenas de preocupação profissional, e negar isso seria um insulto à minha própria capacidade de perceber o que estava diante de mim.
Eu a vi sair do corredor há pouco, com aquela postura firme que ela insiste em manter, como se fosse possível enganar o próprio corpo e as próprias emoções apenas sustentando uma aparência de normalidade, e por mais que eu respeite essa força, existe uma parte de mim que não consegue deixar de questionar até que ponto isso é realmente necessário, até que ponto carregar tudo sozinha é uma escolha ou apenas uma consequência de algo que ela ainda não conseguiu superar.
E talvez seja exatamente isso que me prende.
Não apenas o que ela mostra.
Mas o que ela esconde.
Eu estou sentado na sala de descanso, com um copo de café já frio nas mãos, completamente esquecido, enquanto minha mente repassa cada detalhe recente com uma insistência que começa a se tornar irritante, porque pensar demais nunca foi um problema para mim, mas pensar sem chegar a uma conclusão clara é algo que eu simplesmente não tolero bem.
A lógica é simples.
Eu sei exatamente o que acontece quando você se envolve.
Eu sei o que significa criar expectativas, construir algo em cima de sentimentos que parecem sólidos no momento, mas que podem desmoronar de forma brutal quando menos se espera.
Eu já vivi isso.
Já perdi isso.
E não existe absolutamente nenhuma razão plausível para que eu me coloque na mesma posição novamente.
Ainda assim, aqui estou.
Pensando nela.
De novo.
Eu passo a mão pelo rosto, soltando um suspiro controlado enquanto me levanto, decidindo que ficar ali não vai resolver nada, porque quanto mais eu permaneço parado, mais espaço eu dou para pensamentos que deveriam ser descartados antes mesmo de se formarem completamente, e é exatamente por isso que eu faço o que sempre fiz em situações como essa.
Eu me movo.
Saio da sala, volto para o corredor, procuro algo que exija minha atenção, qualquer coisa que me obrigue a focar no que é concreto, no que pode ser resolvido com ação em vez de reflexão, mas mesmo enquanto caminho, mesmo enquanto interajo com outros profissionais e pacientes, existe uma parte de mim que permanece em alerta, como se estivesse esperando algo acontecer.
E não demora.
Eu a encontro novamente no final do corredor, conversando com uma colega, aparentemente tranquila, mas há algo na forma como ela se posiciona, na leve rigidez dos ombros, na maneira como mantém a expressão controlada, que me diz que aquela tranquilidade é apenas superficial, e eu reconheço isso porque já fiz exatamente a mesma coisa inúmeras vezes.
Eu deveria seguir em frente.
Ignorar.
Respeitar o espaço que ela claramente tenta manter.
Mas, mais uma vez, eu não faço isso.
Porque, em algum ponto que eu ainda não consegui identificar com precisão, essa situação deixou de ser simples o suficiente para ser resolvida com distância.
— Você deveria ir para casa — digo assim que me aproximo, interrompendo a conversa de forma direta, sem rodeios, como se aquela fosse a conclusão mais óbvia possível.
Ela me olha imediatamente, surpresa pela abordagem, mas a expressão rapidamente se fecha em algo mais controlado, mais defensivo.
— Eu já disse que estou bem — responde, com aquela firmeza que parece fazer parte dela.
— E eu já disse que estar aqui não prova isso — retruco, mantendo o tom estável, mas sem suavizar a intenção.
A colega ao lado dela percebe a tensão e se afasta discretamente, deixando claro que aquela não é uma conversa casual, e por um breve momento o silêncio se instala entre nós, carregado de algo que vai além de uma simples discordância.
— Você sempre precisa ter a última palavra? — ela pergunta, cruzando os braços.
— Só quando alguém insiste em ignorar algo importante — respondo, sem desviar o olhar.
Ela respira fundo, claramente tentando manter o controle da situação, e eu reconheço esse esforço, reconheço porque é exatamente o que eu faria no lugar dela, o que torna tudo ainda mais complicado.
— Isso não é com você — ela diz por fim, em um tom mais baixo, mas ainda firme.
E ali está.
O limite.
Claro.
Direto.
E completamente compreensível.
Mas, mesmo assim, não é suficiente para me fazer recuar completamente.
— Eu sei que não é — respondo, mantendo a voz controlada. — Mas isso não significa que eu não possa me importar.
Assim que as palavras saem, eu percebo o peso delas, percebo o quanto elas ultrapassam a linha que eu venho tentando manter desde o início, e por um segundo, quase espero uma reação imediata, alguma resposta que coloque aquilo de volta no lugar onde deveria estar.
Mas ela não responde de imediato.
Ela apenas me olha.
E dessa vez, não há defesa imediata.
Não há sarcasmo.
Não há tentativa de encerrar a conversa rapidamente.
Existe apenas um silêncio diferente.
Mais profundo.
Mais real.
— Você não deveria — ela diz finalmente, e a forma como fala deixa claro que não se trata de uma ordem, mas de um aviso.
Talvez para mim.
Talvez para ela mesma.
Eu sustento o olhar por alguns segundos, avaliando, entendendo mais do que ela provavelmente gostaria que eu entendesse, mas também reconhecendo que algumas coisas não podem ser resolvidas naquele momento, não daquele jeito.
— Talvez não — admito, sem tentar argumentar dessa vez.
O silêncio volta, mas agora carregado de algo que nenhum dos dois parece disposto a nomear, algo que cresce de forma silenciosa, ocupando um espaço que antes não existia, tornando cada interação mais intensa, mais significativa, mais difícil de ignorar.
E é nesse momento que eu percebo, com uma clareza que não pode mais ser negada, que isso já foi longe demais para simplesmente parar.
Não porque eu não queira.
Mas porque, pela primeira vez em muito tempo… eu não tenho certeza se conseguiria ir embora.







