NOSSO MILAGRE
NOSSO MILAGRE
Por: Estrela de Maria
CAPÍTULO 1

CAPÍTULO 1 — BEN 

Um novo dia.

Ou pelo menos era assim que deveria parecer.

Para mim, era só mais uma tentativa de fingir que recomeços realmente significavam alguma coisa.

Caminho pela areia úmida da praia com a cabeça baixa, os pés afundando a cada passo, enquanto meus pensamentos me puxam para um lugar onde eu nunca consigo ficar longe por muito tempo. O céu está bonito — eu sei disso sem nem precisar olhar direito — aquele tom rosado refletindo na água calma da Baía de Port Phillip, como se o mundo estivesse começando de novo.

Engraçado como tudo pode parecer novo… menos eu.

Daqui a algumas horas, eu começo no Melbourne’s Bay View. Emergência. Novo hospital, nova rotina, novas pessoas. Qualquer outro médico provavelmente estaria nervoso, talvez até animado.

Eu não.

Esse é o meu quarto emprego em menos de quatro anos.

Quatro anos desde que Jennifer morreu.

Ainda soa estranho colocar isso em palavras, mesmo que seja só dentro da minha cabeça. Como se, de alguma forma, pensar diferente pudesse mudar o que aconteceu.

Não muda.

Nunca muda.

O aniversário da morte dela está chegando de novo, e só de pensar nisso já sinto aquele peso familiar se instalando no peito, como se alguém estivesse apertando devagar, sem pressa, sabendo que não precisa correr porque eu não tenho para onde fugir.

Eu tento não pensar.

Falho, como sempre.

Porque não é só sobre perder ela.

É sobre tudo que veio junto.

A vida que a gente não viveu.

Os planos que ficaram pela metade.

O filho que eu nunca cheguei a conhecer.

Se tudo tivesse seguido o caminho certo, eu ainda estaria no Melbourne Central agora, construindo minha carreira, disputando uma vaga como consultor, reclamando de plantões longos e achando que isso era o pior que podia acontecer.

Mas não foi esse o caminho.

E depois de seis meses tentando continuar naquele hospital, andando pelos mesmos corredores, vendo os mesmos lugares onde a gente dividiu turnos, risadas, cansaço… eu entendi.

Não dava mais.

Nada ali era só trabalho.

Tudo era lembrança.

Sydney foi uma tentativa desesperada de fugir disso.

E, por um tempo, funcionou.

Ou pelo menos eu achei que funcionava.

Dezoito meses depois, eu já estava de novo com aquela sensação de que alguma coisa estava errada, como se eu estivesse vivendo a vida de outra pessoa. Troquei de hospital, mudei a rotina, tentei me convencer de que agora ia.

Não foi.

Nunca é.

Porque o problema nunca foi o lugar.

Sou eu.

Agora eu estou de volta a Melbourne.

Mas dessa vez, resolvi fazer diferente.

Escolhi a praia.

Talvez o barulho do mar ajude. Talvez o vento constante leve embora alguma coisa. Talvez olhar para algo tão grande quanto o oceano faça o que está dentro de mim parecer menor.

Talvez.

Aumento o ritmo da caminhada até virar uma corrida, deixando o corpo assumir o controle, porque quando eu estou cansado demais para pensar, as coisas ficam um pouco mais fáceis de suportar.

Quando diminuo a velocidade, já estou perto da casa.

A casa.

Mesmo de longe, ainda tem alguma coisa ali que me prende. Não é lógica. Não faz sentido. É velha, precisa de reforma, o jardim parece abandonado em alguns pontos… mas ainda assim, eu consigo olhar para aquele lugar e imaginar algo que não consigo imaginar em mais nada.

Um futuro.

E isso… isso é novo.

Dou um meio sorriso ao lembrar da placa que vi mais cedo.

Leilão em breve.

Talvez, dessa vez, alguma coisa dê certo.

Volto em direção à praia, mais atento ao que está ao meu redor, deixando o silêncio da manhã entrar um pouco mais na minha cabeça… até que eu vejo.

Ela.

Está dentro da água, na altura dos joelhos, completamente parada, com os braços erguidos para o céu como se estivesse tentando alcançar alguma coisa que eu não consigo ver.

Fico observando por alguns segundos.

Sério mesmo?

Respiro pelo nariz, quase revirando os olhos.

Yoga, meditação, energia do universo… esse tipo de coisa nunca funcionou comigo. Se funcionasse, eu já estaria curado há anos.

Mas ainda assim… tem alguma coisa nela.

A forma como ela não parece se importar com nada ao redor. Como se o mundo inteiro tivesse desaparecido e só existisse aquele momento.

Eu desvio o olhar.

Depois olho de novo.

E então tudo muda.

O corpo dela trava.

Não é sutil.

Ela se dobra no meio, como se algo tivesse puxado ela para baixo de repente, e fica ali por um segundo longo demais.

Eu paro na hora.

Isso não é exercício.

Volto a andar, mais rápido agora, observando enquanto ela tenta sair da água, claramente desconfortável, os passos meio descompassados.

Quando vejo a barriga, o entendimento vem na mesma hora.

Grávida.

Droga.

Acelero.

— Você está bem?

Minha voz sai firme, mas por dentro eu já estou avaliando mil possibilidades.

Ela demora a responder, respirando pesado, apoiando as mãos nas pernas.

Quando levanta o rosto, eu noto os olhos.

Chamam atenção.

— Ótima… — ela diz, mas claramente não está.

— Você está tendo uma contração?

Dou um passo mais perto.

— Eu sou médico. Ben.

— Celeste… — ela responde, puxando o ar com mais força. — E não… não é contração.

Eu não compro isso.

Nem por um segundo.

Ela leva a mão para a barriga de novo, e aí eu não penso duas vezes.

Me aproximo e encosto a mão no abdômen dela, sentindo a tensão leve ali.

Braxton-Hicks.

Ok.

Nada crítico.

Mas também não é “nada”.

Fico alguns segundos assim, até a contração passar completamente.

— Isso não foi só uma câimbra — digo.

Ela solta o ar devagar, relaxando.

— É só o bebê… ensaiando.

Assinto, mas continuo atento.

— Se isso ficar mais frequente—

— Eu sei — ela corta, com um meio sorriso cansado.

Fico em silêncio por um instante.

O mar volta a ser o único som.

— Bom… se você está bem…

Eu paro no meio da frase.

Dou um passo para trás.

— Qualquer coisa, você procura ajuda.

Ela assente.

Eu me viro e começo a me afastar.

Mas alguma coisa fica.

E isso me incomoda.

Porque eu não quero sentir nada.

Não de novo.

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