CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 2 — BEN

Dormir deveria ser simples.

Fechar os olhos, apagar, descansar.

Mas para mim nunca foi.

Naquela noite, o sono veio em fragmentos, como sempre, interrompido por imagens que eu não conseguia controlar e por uma sensação constante de que algo dentro de mim nunca desligava completamente. Quando finalmente acordei, o quarto ainda estava escuro, mas minha mente já estava desperta há horas.

Fiquei olhando para o teto por um tempo, escutando o som distante do mar entrando pela janela mal vedada, deixando que aquele barulho constante preenchesse o silêncio que existia dentro de mim.

Era o meu primeiro dia.

E, pela primeira vez em muito tempo… eu não estava tentando fugir.

Levantei devagar, passando a mão pelo rosto, sentindo o peso de uma noite mal dormida, e caminhei até o banheiro pequeno demais, com o espelho ligeiramente manchado, refletindo uma versão minha que eu já conhecia bem demais.

Cansado.

Sempre.

Abri o chuveiro e deixei a água cair, primeiro fria demais, depois quente demais, até encontrar um ponto suportável, apoiando as mãos na parede enquanto tentava organizar os pensamentos.

Hospital novo.

Rotina nova.

Pessoas novas.

E, ainda assim… eu sabia que no fundo nada mudava de verdade.

Me vesti sem pressa, escolhendo roupas simples, práticas, tentando ignorar a leve tensão que insistia em aparecer, mesmo que eu não quisesse admitir. Peguei as chaves, o celular e saí, trancando a porta atrás de mim enquanto o sol começava a nascer de novo, pintando tudo com aquele mesmo tom suave que eu tinha ignorado no dia anterior.

Do lado de fora, o ar estava fresco, e por um segundo eu considerei repetir a caminhada pela praia.

Mas não fiz isso.

Não precisava.

Eu já sabia o que encontraria.

Entrei no carro e liguei o motor, mas antes de sair, meus olhos foram automaticamente para a unidade ao lado.

Os girassóis estavam ali.

E ela também.

Celeste estava de costas, regando as plantas com movimentos tranquilos, como se nada no mundo fosse urgente, como se o tempo funcionasse de um jeito diferente ao redor dela.

Fiquei observando por tempo demais.

Não era da minha conta.

Não deveria importar.

E ainda assim, importava.

Balancei a cabeça, irritado comigo mesmo, e dei partida no carro, saindo antes que ela se virasse.

Era melhor assim.

Muito melhor.

O trajeto até o hospital foi rápido, silencioso, e quando estacionei no Melbourne’s Bay View, aquela sensação conhecida voltou — não ansiedade, não exatamente… algo mais próximo de alerta constante.

Como se eu estivesse sempre esperando que algo desse errado.

Caminhei pelos corredores com passos firmes, absorvendo cada detalhe quase automaticamente — o cheiro característico de desinfetante, o som distante de monitores, vozes sobrepostas, macas sendo empurradas.

Aquilo… aquilo eu conhecia.

E, pela primeira vez no dia, me senti no controle.

— Você deve ser o novo residente.

A voz me fez virar.

Uma mulher, postura firme, olhar atento, me avaliava como se estivesse lendo cada detalhe meu em segundos.

— Ben Richardson — respondi.

— Dra. Wallace. Coordeno a Emergência.

Assenti.

Sem rodeios.

Gostei disso.

— Espero que goste de pressão — ela continuou. — Porque aqui, ou você aprende rápido… ou não fica.

— Não pretendo ir embora — respondi, antes mesmo de pensar.

Ela arqueou levemente a sobrancelha, como se tivesse ouvido aquilo muitas vezes.

— Vamos ver.

Não era um desafio.

Era um aviso.

E eu entendi.

O plantão começou sem cerimônia.

Casos entrando, saindo, decisões rápidas, pouco tempo para pensar e menos ainda para hesitar. Meu corpo entrou no ritmo como se nunca tivesse saído dali, reagindo automaticamente, analisando, resolvendo.

Era nisso que eu era bom.

Era nisso que eu me escondia.

Horas passaram sem que eu percebesse, até que, em um raro momento de pausa, me apoiei na bancada, pegando um copo de café que já estava frio demais.

E então ouvi.

— Você é o novo médico, não é?

Congelei por meio segundo.

Conhecia aquela voz.

Virei devagar.

Celeste.

Ela estava ali, vestida com o uniforme de enfermeira, os cabelos presos, o rosto levemente cansado, mas com aquele mesmo olhar atento da praia.

E, de repente, tudo fez sentido.

— Você trabalha aqui — falei, mais como constatação do que pergunta.

— Trabalho — ela respondeu, com um leve sorriso. — Faz um tempo já.

Assenti.

Claro que trabalha.

Fazia sentido demais.

— Não sabia que você era médico de verdade — ela continuou, cruzando os braços. — Pensei que era só um cara correndo na praia dando diagnósticos aleatórios.

Soltei um pequeno riso, sem conseguir evitar.

— E eu pensei que você só fazia yoga perigoso no meio do mar.

— Aquilo não conta — ela rebateu rapidamente. — Foi um acidente técnico.

— Sei.

Houve um pequeno silêncio.

Não desconfortável.

Mas… diferente.

— Você está bem? — perguntei, voltando ao assunto anterior sem pensar muito.

Ela percebeu.

Deu um meio sorriso.

— Estou.

Não parecia incomodada com a pergunta.

Mas também não parecia alguém que gostava de ser observada de perto.

Anotei isso mentalmente.

— E o bebê?

Ela levou a mão automaticamente à barriga, em um gesto quase instintivo.

— Continua aqui — respondeu, com leve humor. — O que já é um bom sinal.

Assenti.

Era.

— Qualquer coisa diferente, você me chama — falei, mais sério dessa vez.

Ela me olhou por um segundo a mais.

Como se estivesse avaliando alguma coisa.

— Você sempre é assim?

— Assim como?

— Como se fosse responsável por todo mundo.

Não respondi na hora.

Porque a resposta era simples demais.

Sim.

Sempre.

— É meu trabalho — falei, por fim.

Ela não pareceu totalmente convencida.

Mas também não insistiu.

— Bom… então acho que vou aproveitar — disse, com um leve sorriso. — Ter um médico particular morando ao lado não é nada mal.

Ignorei o comentário.

Ou tentei.

— Não conta com isso.

— Já estou contando.

E então ela saiu.

Simples assim.

E, mesmo depois que ela desapareceu pelo corredor, eu continuei ali, parado, com a sensação incômoda de que alguma coisa tinha mudado de novo.

E dessa vez… eu não sabia se queria impedir.

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