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Capítulo 1
Noemi Narrando Meu nome é Noemi, tenho vinte anos e um salão pequeno perto da periferia de Salvador. Nada de luxo. Sou trancista. Uma cadeira de barbeiro já meio gasta, dois espelhos grandes que minha mãe comprou em uma feira antiga, um secador que esquenta mais do que devia e uma prateleira cheia de pentes, agulhas de trança e elásticos coloridos. Foi ali que minha vida começou a mudar. Foi ali que minha vida quase acabou também. Eu sempre fui chamada de baiana arretada. Não por ser valente sem motivo, mas porque a vida me ensinou cedo que, se eu não fosse forte, ninguém seria por mim. Sou uma mulher plus size, daquelas de corpo grande mesmo. Coxas grossas, quadril largo, barriga que nunca foi chapada, mas também não é uma barriga grande tenho cintura fina, e peito farto que sempre chamou atenção demais. Quando eu era mais nova, isso me incomodava. Escutava piadinhas na rua, comentários maldosos na escola. Mas minha mãe sempre dizia: — Minha filha, mulher bonita não é a que cabe no vestido. É a que faz o vestido caber nela. E eu acreditava nela. Minha mãe se chamava Dalva. Era uma mulher forte, dessas que acordava antes do sol nascer e ainda estava de pé quando todo mundo já tinha dormido. Foi ela quem abriu o salão onde eu trabalho hoje. Aprendeu a fazer trança sozinha, vendo revista velha, treinando em boneca de plástico até pegar prática. Ela dizia que cabelo era coroa, e que cada trança que fazia era uma forma de devolver dignidade para alguém. Mas a vida da minha mãe nunca foi fácil. Principalmente por causa do meu pai. Meu pai era o tipo de homem que a gente aprende a odiar antes mesmo de aprender a entender o que é ódio. Bebia demais, gritava demais, batia demais. Eu ainda lembro das noites em que ele chegava em casa com o cheiro forte de cachaça. A porta batia. O silêncio vinha logo depois. E então começava. — Mulher inútil! ele gritava. — Essa casa é minha! Minha mãe tentava manter a calma. Às vezes ela só ficava quieta, esperando a tempestade passar. Outras vezes tentava argumentar. Quase sempre terminava da mesma forma. Com ele batendo nela. Eu e minha irmã, Nelzinha, ficávamos escondidas no quarto. Eu abraçava ela forte enquanto ouvíamos o barulho dos t***s, dos móveis arrastando, dos gritos. Nelzinha sempre tremia. — Vai passar… — eu sussurrava. Mas nem sempre passava. Às vezes ele também batia em mim. Principalmente quando eu tentava defender minha mãe. Eu devia ter uns quinze anos quando isso começou a ficar pior. Meu corpo já era grande, minhas mãos já tinham força, e eu não conseguia mais ficar parada vendo aquilo. Uma noite eu empurrei ele. Foi a primeira vez. Ele me deu um tapa tão forte que eu caí no chão da cozinha. Mas naquele dia minha mãe fez algo que nunca tinha feito antes. Ela se colocou na frente dele. — Chega. A voz dela estava baixa, mas firme. — Você não toca mais nas minhas filhas. Meu pai riu. Aquele riso ainda me dá arrepio quando lembro. — Ou o quê? Minha mãe abriu a porta da frente. — Ou você sai dessa casa. Agora. Eu achei que ele ia bater nela. Achei que ia matar ela ali mesmo. Mas ele só pegou a jaqueta velha dele e uma mochila com poucas roupas, cuspiu no chão e saiu. — Vocês vão se arrepender. Essas foram as últimas palavras que ele disse dentro daquela casa. Naquela noite, eu achei que tudo tinha acabado. Achei que finalmente íamos ter paz. Eu estava errada. Algumas semanas depois.Acordei com o cheiro de alguma coisa queimando. Primeiro pensei que era algo queimando na cozinha. Depois veio a fumaça. Quando abri os olhos, o quarto estava cheio de fumaça. — Noemi! Minha mãe gritou. Eu levantei assustada. A casa estava pegando fogo. As chamas já estavam na sala. Minha mãe entrou correndo no quarto. — Pega sua irmã! Eu corri até a cama de Nelzinha. Ela estava chorando, confusa. — Levanta! A gente precisa sair! Eu segurei a mão dela e puxei. A fumaça queimava a garganta. A madeira estalava. Eu ainda lembro da imagem da minha mãe empurrando a gente para fora da casa. — Corre! Eu saí pela porta da frente com Nelzinha. Quando virei para trás, minha mãe ainda estava lá dentro. — Mãe! Eu tentei voltar. Mas o fogo explodiu pela janela. E alguém me segurou. Um vizinho. — Não entra! Eu gritei até minha voz acabar. Mas minha mãe nunca saiu de lá. Depois descobriram. Meu pai tinha voltado. Tinha jogado gasolina na casa. E ateado fogo. Ele nunca foi encontrado. Depois disso, o mundo ficou diferente. O salão da minha mãe foi a única coisa que sobrou no terreno. O fogo não alcançou aquela parte porque era separado da casa. E foi ali que eu decidi que não ia deixar a história da minha mãe morrer. Eu tinha dezesseis anos. Aprendi a fazer trança na marra. No começo minhas mãos tremiam. Mas logo eu peguei jeito. As mulheres da comunidade começaram a vir. Primeiro por pena. Depois porque gostavam do meu trabalho. Quando percebi, o salão já pagava nossa comida. Eu reconstruí a casa devagar. Tijolo por tijolo. Levou anos. Mas consegui. Cada uma tinha seu quarto agora. Eu trabalhava de manhã até a noite. Fazia trança nagô, box braids, twist, cortava cabelo masculino também. O salão vivia cheio. Enquanto isso, Nelzinha…só usava o dinheiro que eu fazia com os cabelos. Ela nunca quis aprender nada. — Isso não é pra mim, Noemi. Ela dizia sem nenhuma vergonha. Ela passava horas se arrumando, tirando foto, saindo com amigas. Eu não brigava. Achava que talvez ela só estivesse tentando esquecer o que a gente viveu. E então tinha Henrique. Ele apareceu na minha vida quando eu tinha dezoito anos. Era dono de uma padaria perto dali, herdada do pai que tinha morrido. Era mais velho, tinha vinte e nove anos, e parecia diferente dos homens que eu conhecia. Ele era educado. Calmo. Respeitoso. Começou indo no salão cortar cabelo. Depois passou a aparecer mais vezes. Um dia me chamou para sair. — Quero fazer direito, ele disse. E fez. Com o tempo, ele me pediu em namoro. Depois em noivado. Mas tinha algo estranho. Ele nunca queria ir longe demais comigo. Nunca. No começo eu achei bonito. — Eu respeito você, ele dizia. Mas às vezes eu sentia algo estranho no olhar dele. Uma distância. Uma coisa que eu não sabia explicar. Mesmo assim, eu acreditava que era amor. Até aquela noite. Eu tinha trabalhado o dia inteiro. Minhas mãos doíam de tanto trançar cabelo. Era tarde, mas o movimento tinha acabado mais cedo. Fechei o salão e caminhei até a casa. Estava cansada. Com fome. Quando entrei, estranhei o silêncio. A casa estava escura. Então ouvi. Primeiro um gemido baixo o ranger da cama batendo na parede e um gemido de prazer mais alto. Depois risadas. Depois palavras sussurradas. Meu coração apertou. O som vinha do quarto de Nelzinha. Eu caminhei devagar até a porta. Encostei o ouvido nela. E ouvi algo que fez meu estômago virar. — Eu te amo… A voz era masculina. Eu conhecia aquela voz. Minhas mãos começaram a tremer. A porta se abriu de repente. E lá estava ele. Henrique. Sem roupa . Dentro do quarto da minha irmã que tambem estava nua. O mundo girou na minha frente. Eu quase caí. Quando me viu veio falar comigo. Fiz questão de olhar para ela que estava atrás dele Nelzinha, se enrolou em um lençol, com um sorriso cheio de desprezo. — Ah… então você viu. A voz dela estava fria. Cruel. — Já era hora de descobrir, né? Meu coração quebrou ali. E eu ainda não sabia que aquilo era só o começo.






