Mundo de ficçãoIniciar sessãoELENA
Desde que desço do carro, um olhar que faz o meu corpo queimar me acompanha. É uma sensação quase física, como se eu pudesse sentir aquele olhar percorrendo cada centímetro do meu corpo, analisando, absorvendo. Não é invasivo. Mas é intenso. Intenso demais. Só quando entro no elevador é que me dou conta de quem se trata. Um homem incrivelmente lindo. Mas não é só isso. É a presença. A forma como ele ocupa o espaço. O olhar... firme, direto, quase desafiador. E eu, claro, agradeço mentalmente por ainda não ter tirado os meus óculos escuros. Porque, pela primeira vez desde que decidi voltar para esse lugar, eu me sinto... observada. E, de certa forma, afetada. O que é inaceitável. [...] Durante o meu impasse com o Lorenzo, eu sinto aquele olhar novamente. À minha esquerda. Fixo. Constante. Magnético. É como se ele estivesse tentando me decifrar. E isso me desconcerta. Mas eu não demonstro. Não posso. Eu não vim até aqui para me perder em distrações. Eu tenho um propósito. Um plano. E ainda não terminei. — Senhores, levando em consideração que temos uma nova sócia majoritária nesta empresa e que essa sócia detém trinta e quatro por cento das ações, eu sugiro que Lorenzo Marino seja destituído imediatamente do cargo de CEO da Fascino, visto que, de acordo com a política da empresa, esse cargo deve ser ocupado pelo sócio majoritário ou por alguém indicado por ele — falo, olhando cada acionista diretamente nos olhos. Firme. Segura. Inquestionável. Mas, quando meu olhar cruza com o dele... Eu titubeio. Por uma fração de segundo. E isso me irrita profundamente. Desvio rapidamente, focando no Lorenzo. Nesse, eu não hesito. Nesse, eu sustento o olhar com prazer. — O que diz, Sr. Presidente? — Não é como se ele pudesse opinar — o homem à minha esquerda responde antes de qualquer outro. Sua voz é grave, envolvente. — Como você mesma disse, trinta e quatro por cento é a maioria. E ele parece... se divertir. Mas, afinal... Quem é esse homem? Sou tirada dos meus pensamentos quando o Lorenzo começa a despejar seus argumentos vazios. — Na última eleição, eu fui o acionista mais votado para a presidência da empresa com cinco votos a um. Você não— — Estou curiosa para saber uma coisa — interrompo. — Quem foi esse um? Silêncio. Um segundo. Dois. — Eu — o homem responde, levantando uma das mãos, com um leve sorriso. Interessante. Muito interessante. — Quem é você? — pergunto, finalmente o encarando de verdade. — Matteo Médici. — Meu irmão — o Lorenzo completa, claramente contrariado. Meus olhos se arregalam levemente. Agora tudo começa a fazer sentido. Observo Matteo com mais atenção. Os traços não são tão semelhantes, mas há algo ali. Algo no olhar. Mas, ao mesmo tempo... ele parece completamente diferente. — Médici? — questiono. — Marino também não me agrada muito — ele responde, sorrindo de lado, fazendo uma leve careta. Eu quase sorrio. Quase. Talvez... só talvez... Eu tenha um aliado aqui. [...] A porta da sala se abre, e Alessia Rossi entra, caminhando diretamente até o Lorenzo com alguns papéis em mãos. Ela para. Observa. E franze o cenho ao perceber onde eu estou sentada. A cadeira. A cadeira dele. — Alessia Rossi, aproveitando que já está aqui, eu gostaria de comunicar que você precisa passar imediatamente no RH da empresa — digo, mantendo o olhar fixo no dela. — Você está demitida. Eu esperei por esse momento. E ele é ainda melhor do que imaginei. — O quê? — ela arregala os olhos. — Loren... Sr. Lorenzo, ela não pode— — Posso. E já fiz. Você só precisa passar lá para assinar — respondo, sem elevar o tom. Ela me lança um olhar carregado de ódio. Depois encara Lorenzo. Ele não diz nada. Não a defende. Não reage. E isso diz tudo. Sem alternativa, ela se vira e sai da sala, batendo o salto com força contra o chão. Quase esbarra em Giuseppe, meu motorista, que entra logo em seguida com o meu laptop. Perfeito timing. [...] A reunião se estende por mais de uma hora. O suficiente para o Lorenzo protestar cada decisão. O suficiente para eu esmagar cada argumento dele com calma. Com precisão. Com prazer. No final... Ele se senta. Ao meu lado. Derrotado. Não completamente. Mas o suficiente para perceber que perdeu o controle. Os acionistas começam a sair. Um por um. Até que a sala fica quase vazia. Menos nós dois. E ele. Matteo. Eu nem preciso olhar para saber que ele ainda está ali. Eu sinto. — Isso tudo foi dor de cotovelo por ter sido traída? — ele pergunta. Eu paro. Fecho o laptop lentamente. E levanto o olhar. — Você acha mesmo que eu faria tudo isso por causa de uma traição? — respondo, irritada. — Não sei. Eu não te conheço. — Então deveria parar de tirar conclusões precipitadas. Volto a olhar para a tela. Mas a irritação permanece. Forte. Viva. Ele termina o que está fazendo. E, antes de sair... Se aproxima. Demais. Se abaixa. Fica próximo o suficiente para que eu sinta o calor da sua respiração. — Você é muito bonita para deixar que sua vida gire em torno de um maledetto como o Lorenzo. Meu corpo reage. Contra a minha vontade. Mas minha mente... Minha mente continua afiada. — Esse maledetto faz atrocidades com as pessoas e sempre acaba saindo impune — digo, encarando-o diretamente. — Talvez um dos motivos que me fez vir até aqui e fazer tudo isso seja o mesmo que fez você não votar nele na eleição. Por um segundo, algo passa pelo olhar dele. Reconhecimento. Ou talvez... respeito. Eu não espero para descobrir. Fecho o laptop. Me levanto. E saio da sala. Sem olhar para trás. Mas sentindo. Sentindo cada segundo. Sentindo aquele olhar fixo nas minhas costas. Queimando. Marcando. E... Me fazendo querer olhar de volta.






