Mundo de ficçãoIniciar sessãoELENA
HÁ UM ANO ATRÁS Eu seguro aquela caneta como quem segura uma tábua de salvação. Meus dedos estão firmes, mas, por dentro, tudo vibra. Olho para o papel à minha frente — o documento do meu divórcio — com um nó na garganta. Mas não é tristeza. É emoção. É alívio. É liberdade. Eu enfim me livraria daquele casamento que representou os piores anos da minha vida. Assino sem demora. A tinta ainda parece fresca quando afasto a caneta, e então observo o Lorenzo. Ele segura a caneta por alguns segundos, em silêncio. Longos demais. O suficiente para fazer o meu coração acelerar. Por um instante, um único e cruel instante, penso que ele pode desistir. Que pode rasgar tudo. Que pode me prender de novo naquela vida. Minha respiração trava. Mas, então... ele assina. E, naquele exato momento, algo dentro de mim se solta. Sem dizer uma palavra, eu me levanto e saio daquele cartório sem olhar para trás. Se ele falou alguma coisa, eu não ouvi. E não me importo. Porque, enquanto caminho em direção à porta, um sorriso se forma no meu rosto. Um sorriso verdadeiro. Daqueles que eu não dava há muito tempo. Eu estou livre. [...] Chego ao apartamento da Giulianna, onde ficarei até me reorganizar, e sou recebida com o estouro de uma garrafa de espumante barato. O barulho ecoa pelo pequeno espaço, e, por um segundo, nós duas começamos a rir. Rir de nervoso. Rir de alívio. Rir de vitória. Estávamos fodidas demais para comprar o nosso champanhe favorito ou qualquer coisa mais cara. Mas, naquele momento, aquilo não importava. Nada importava mais. — O Lorenzo vai ter um troço quando descobrir que te deve dez milhões de euros — a Giu fala, com um sorriso vitorioso. — Ainda está saindo barato para o maledetto — respondo, levando o copo aos lábios. — Isso é só o início. Eu vou destruir o bastardo. O líquido desce queimando levemente pela garganta. Mas o gosto... O gosto é de liberdade. Depois de tudo o que vivi, aquilo parecia a bebida mais cara do mundo. [...] Após alguns goles, a Giu me ajuda a tirar todos os adereços que cobrem o meu corpo. Começamos pela calça de alfaiataria e pela camisa de linho, ambas em tamanhos muito maiores do que eu costumo usar. O tecido cai no chão. Leve. Falso. Assim como a imagem que eu construí. Logo, os enchimentos começam a ser retirados. Um por um. Dos braços. Do busto. Da cintura. Do quadril. Das nádegas. Até a altura dos joelhos. No total, mais de trinta quilos falsos. Eu me olho no espelho. E, pela primeira vez em muito tempo, eu me reconheço. Você pode estar se perguntando por que precisei fazer algo tão estúpido. A resposta é simples. Eu fui casada com um ser desprezível. E estava disposta a fazer o que fosse preciso para me livrar daquele casamento. O Lorenzo transformou a minha vida em um inferno. Do dia para a noite. Me trancava em casa. Me batia. Me traía. Me torturava psicologicamente. E o pior de tudo... Ele foi indiretamente responsável por eu ter perdido o meu bebê. E, sobre isso, ele nunca terá o meu perdão. Nunca. O maledetto é daquele tipo de pessoa que não se importa com quem você é por dentro. Ele quer aparência. Quer exibir. Quer colecionar mulheres como troféus. Curvas perfeitas. Sorrisos perfeitos. Vidas perfeitas. Infelizmente, eu descobri isso tarde. Mas não tarde demais. O suficiente para usar contra ele. [...] Os enchimentos foram ideia da mente fértil da Giulianna. Quando ela sugeriu aquilo, eu ri. Ri muito. Achei que era mais uma das suas piadas absurdas. Mas não era. Ela estava falando sério. E, quando percebi isso... eu sorri. Porque, pela primeira vez, eu via uma saída. Duas semanas depois, o plano começou a ser colocado em prática. Eu não podia aparecer com trinta quilos a mais do nada. Então fui aumentando gradualmente. A cada semana, um pouco mais. A cada olhar dele, um pouco mais de desprezo. A cada dia, mais distância. E funcionou. Funcionou melhor do que eu poderia imaginar. Ele parou de me tocar. Aliás, ele já não me tocava desde que engravidei. Mas, agora, nem fingia mais interesse. Parou de me levar a eventos. Parou de me exibir. Passou a me esconder. Como se eu fosse algo vergonhoso. E, ironicamente... Aquilo foi o que me salvou. [...] Mas eu não parei por aí. Se era aparência que ele valorizava... Era aparência que eu iria manipular. Passei a usar a maquiagem contra mim. Fiz um curso. Aprendi a criar marcas de expressão. Manchas. Olheiras. Testei várias vezes na frente do espelho. Ajustei detalhes. Errei. Refiz. Até que ficou perfeito. Até que nem eu mesma, em alguns momentos, conseguia enxergar quem eu realmente era por trás daquela máscara. [...] Com a caracterização pronta, iniciei a segunda etapa do plano. Ao invés de demonstrar que queria me divorciar... Eu implorava para que ele não me deixasse. Dizia que não conseguiria viver sem ele. Que precisava dele. Que o amava. Cada palavra... uma mentira. Cada lágrima... calculada. E ele acreditou. Claro que acreditou. Porque, no fundo, ele sempre quis isso. Controle. Dependência. Submissão. [...] Quando o Lorenzo finalmente me pediu o divórcio, a justificativa foi simples. Ele não queria ter sua imagem vinculada a uma mulher gorda que não se cuidava. Eu lembro de cada palavra. De cada olhar de desprezo. E, naquele momento... Aquilo foi melhor do que qualquer declaração de amor que ele já havia me feito. Porque, ali, eu tive a certeza. Nenhuma das declarações dele... foi real. Nunca foi. E, pela primeira vez em anos... Eu não senti dor. Eu senti vitória.






