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ELENA
HÁ CINCO ANOS ATRÁS — E a Miss Itália 2019 é...? — o apresentador do concurso faz uma breve pausa, criando o suspense que faz todo o auditório prender a respiração. — A MISS NÁPOLES, ELENA GIORDANO! — ele anuncia com entusiasmo, e, imediatamente, os aplausos da plateia ecoam pelo salão. Por um segundo, eu não me mexo. É como se o meu corpo precisasse de um instante a mais para entender que aquilo é real. Então, tudo acontece ao mesmo tempo. Sinto minhas pernas se moverem quase no automático enquanto caminho até o centro do palco. As luzes são fortes, os flashes estouram sem parar, e o som da plateia parece distante, como se eu estivesse submersa. Na lateral, próximo ao palco, estão a minha melhor amiga, Giulianna, minha mãe e alguns amigos de Nápoles — da escola e da agência de modelos. Eles estão completamente eufóricos. A Giu, claro, está dando alguns daqueles seus assovios super estridentes, completamente fora de controle. Minha mãe chora. E aquilo, mais do que qualquer coroa, é o que faz tudo valer a pena. Recebo a faixa e a coroa das mãos da Miss Itália 2018, sentindo o peso simbólico daquele momento muito maior do que qualquer coisa física. Quando o apresentador me entrega o microfone, eu faço um breve discurso — ou pelo menos tento. Minhas palavras saem embargadas, mas sinceras. Eu consegui. Assim que saio do palco, os flashes das fotos, todos ao mesmo tempo, chegam a me deixar com dificuldade de enxergar. É uma explosão de luz. Jornalistas me cercam rapidamente, fazendo perguntas uma atrás da outra, sem me dar tempo para respirar. — Como você se sente? — Esperava vencer? — Quais são seus planos agora? Eu respondo a todos com cordialidade, sorrindo, mesmo com a cabeça girando. Após acertar alguns detalhes dos meus próximos compromissos com o meu agente e com os organizadores do concurso, sigo para o terraço do hotel onde todas as Miss estão hospedadas. Lá, está acontecendo um evento organizado por patrocinadores do concurso para as participantes e alguns convidados. Agradeço mentalmente ao perceber que o evento é mais reservado. E, principalmente, que não há fotógrafos nem jornalistas. Pela primeira vez naquela noite, eu consigo respirar de verdade. Caminho até o bar e peço um drink. Meus ombros relaxam um pouco, e é só então que sinto a exaustão começar a pesar. Antes mesmo de olhar para o lado, percebo que alguém se aproxima. — Nunca achei um resultado de concurso de Miss tão justo e merecido quanto o de hoje — uma voz masculina diz, chamando a minha atenção. Viro o rosto lentamente. — Eu conheço você — digo, arqueando uma sobrancelha, enquanto o observo. Ele sorri de lado, confiante demais. — Eu sou um empresário bem conhecido na Itália. — Ah, lembrei — digo, levando o dedo indicador até o queixo, como se estivesse pensando. — Você estampou a capa de uma revista há alguns dias por ter batido o carro em um poste ao dirigir embriagado. O sorriso dele vacila por um segundo. — Aquilo foi um grande equívoco — ele responde, visivelmente desconcertado. — Concordo — o encaro. — Um equívoco... e uma grande irresponsabilidade. Os olhos dele brilham de um jeito curioso. Como se estivesse... intrigado. — Você não baixa a guarda? Antes que eu possa responder, meu agente me chama. Olho mais uma vez para o homem — Lorenzo Marino. Eu sei exatamente quem ele é. CEO da Fascino, uma das marcas mais famosas da Itália. Aceno de forma educada e me afasto. Minutos depois, a Giulianna aparece. Ela tinha ido deixar a minha mãe no quarto, já que ela preferiu ir descansar. — O que eu perdi? — ela pergunta, curiosa. — Você sabe que esse bofe é sem futuro, não é? — o Leonardo fala, me puxando pelo braço por alguns metros. A Giu vem logo atrás. — Claro que sei — reviro os olhos. — Acredite, eu não estava dando mole para ele. — De quem vocês estão falando? — a Giu pergunta, olhando de um para o outro. — Lorenzo Marino — o Léo responde, entortando a boca. — A Miss aqui estava dando mole para ele. — Eu não estava — sorrio, tentando encerrar o assunto. — Acho bom, amiga. Mas não foi o que pareceu quando eu cheguei — a Giu diz, me lançando um olhar desconfiado. Tenho vontade de beliscá-la. Agora o Léo vai ficar no meu ouvido por horas. O Leonardo, além de ser meu agente, é um ótimo amigo. Ele namora o Rafaelle, dono da agência de modelos onde trabalho desde os meus quatorze anos em Milão. Eles cuidam de mim como se fossem meus pais. O problema é que o Léo adora um sermão. E eu estou cansada demais para lidar com isso agora. — Léo, temos que ficar até que horas? — pergunto, suspirando. — Você precisa ficar pelo menos uma hora aqui, Miss Itália. Considere como o primeiro compromisso do seu reinado. Agora vem, vamos nos divertir. Eu e a Giu não vamos sair da sua cola... e não vamos deixar Lorenzo Marino se aproximar de você. — Você encasquetou com isso — endureço o semblante. Mesmo assim, deixo que eles me arrastem de volta para o meio do evento. Sorrio, converso, agradeço... faço tudo o que se espera de uma Miss. Mas, no fundo, tudo o que eu quero é deitar. Quando finalmente chego ao quarto, exausta, tiro os sapatos, solto o cabelo e entro direto no banho. A água quente escorre pelo meu corpo, levando embora parte do cansaço. Quando me deito na cama, sinto cada músculo reclamar. Mas a minha mente não desacelera. Penso na agenda cheia que terei naquele ano. Nos compromissos. Nas viagens. Nas oportunidades. Eu consegui comprar uma casa confortável para a minha mãe em Nápoles com o dinheiro que juntei como modelo. Mas não é suficiente. Eu quero mais. Quero que ela e a Chiara, minha irmãzinha de treze anos, tenham tudo do bom e do melhor. Quero segurança. Quero liberdade. E, acima de tudo, quero construir o meu próprio caminho. Eu sonho em ser estilista. Ter a minha própria marca. E é por isso que aceitei participar do concurso. E é por isso que vou agarrar cada oportunidade com unhas e dentes. Na manhã seguinte, acordo cedo. E a rotina começa. Maquiagem. Cabelo. Provas de roupa. Entrevistas. Programas de TV. Eventos. E, assim, os dias passam. Rápidos. Intensos. Sem pausas. Passam-se alguns dias sem que eu tenha notícias de Lorenzo Marino. Até que o encontro novamente. Em um desfile em que faço a abertura e o encerramento. Ele está lá. Observando. Como se já soubesse exatamente o que quer. E, contra qualquer bom senso... Que o Leonardo e a Giu nunca descubram... Eu acabo aceitando sair com ele.






