Foi então que o espaço ao redor mudou.
As paredes deixaram de existir.
A cidade também.
Agora era apenas escuridão. Uma escuridão que respirava.
Uma presença se formava no meio do nada.
Alta, silenciosa. Forte como uma estátua viva. Os contornos do cabelo se moviam como se flutuassem em água parada.
— Pa... pai? — sussurrou, com a voz entrecortada de choro e saliva.
Ela podia ouvir ele ali, como no dia em que fez a maior merda da sua vida, numa ligação forçada com o pai. Enquanto ela gaguejou “pai”, ele entendeu papai.
Mas não.
Nada respondeu. Ele estava morto, assim continuaria.
A sombra apenas observava.
— Papai... por favor, fala comigo... — ela apertou os olhos, sentindo uma dor aguda no peito: — Por favor… papai… agora eu te chamo de papai… pra sempre… por favor, papai…
Ela via seu contorno. A largura dos ombros. O jeito de ficar parado.
Mas não havia cheiro de colônia, nem calor de abraço.
Só a presença. E isso doía mais que a ausência.
Um chiado cortou o silêncio. Um som eletrôn