A voz vinha do último ônibus. Apertei os olhos para enxergar através da cortina de chuva, mas mal conseguia distinguir uma figura encurvada na porta, acenando para mim.
Era nosso vizinho, Don Mateo Herrera.
Don Mateo não tinha filhos e era viúvo havia muitos anos. Sempre morou na entrada da cidade e, desde que eu me entendia por gente, me tratava como neta.
Quando mamãe me deixava sem comer como castigo, ele esperava que ela se distraísse para me passar alguma coisa pela porta dos fundos. Todo Natal, dava um presente a Anita e a mim, mas sempre escondia um mimo a mais dentro do meu.
Ele se apertou entre os outros passageiros para abrir um espacinho e gritou:
— Vem, Valentina! Sobe logo! A gente se aperta e cabe todo mundo!
Corri até o ônibus. Don Mateo já estendia a mão para me ajudar, e meus dedos estavam prestes a tocar os dele quando a voz de mamãe explodiu no ônibus da frente:
— Aquele velho é um sequestrador!
Ela abaixou a janela e pôs metade do corpo para fora, apontando para ele enquanto gritava:
— Ele quer levar minha filha embora! Não deixem que ela suba no ônibus de vocês!
Minha mão ficou suspensa no ar. Don Mateo levou alguns segundos para reagir. Aos setenta e dois anos, era conhecido por todos na cidade, e ninguém jamais o acusou de uma coisa daquelas.
— Teresa... O que você está dizendo? Há quantos anos sou vizinho da sua família? Seu falecido pai me tratava como amigo.
— Não me interessa quem você é! Você mora sozinho e se interessa demais por uma moça tão jovem. Quem sabe quais são suas verdadeiras intenções?
Os passageiros começaram a protestar.
— Você enlouqueceu, Teresa? Don Mateo viu você crescer!
— Como tem coragem de acusá-lo de uma coisa dessas?
Uma mulher se levantou e a enfrentou:
— É um furacão de categoria cinco! O vento vai arrancar aquele telhado num instante! Você quer mesmo que sua filha morra?
Indignado, Don Mateo apontou para mamãe com a mão trêmula.
— Eu trato Valentina bem porque me dói vê-la sofrer. Todos na cidade sabem como você a trata!
— Ela é minha filha! O jeito que eu a educo não é da sua conta! Minha filha vai estar mais segura na própria casa. — Mamãe disse sem vacilar.
De pé sob a chuva, olhei para o ônibus de mamãe. Papai ocupava o primeiro banco, junto à porta, com a mão apoiada no puxador.
Mamãe virou lentamente a cabeça e o encarou.
— Se você se atrever a abrir essa porta, amanhã mesmo vou embora com as duas meninas para a casa dos meus pais. Você nunca mais vai vê-las.
Os dedos de papai se soltaram do puxador, um a um. Ele virou o rosto e deixou de olhar para mim.
A chuva escorria pelos meus cabelos e entrava nos meus olhos. Eu já não sabia se o que descia pelo meu rosto era água ou outra coisa.
O motorista que coordenava o comboio desceu do primeiro ônibus, olhou para o céu e gritou, tenso:
— Último aviso! O núcleo mais violento do furacão chega dentro de uma hora! Se não sairmos agora, ninguém mais vai conseguir ir embora!
Ele correu de volta para o primeiro ônibus e começou a buzinar sem parar, pois a ponte na saída da cidade estava prestes a ficar bloqueada. Dois vizinhos obrigaram Don Mateo a voltar para o banco, mas ele se agarrou ao batente da porta e gritou para mim com todas as forças:
— Corra! Vá para a capela velha! Ela é de pedra e vai aguentar! Está me ouvindo? Corra para a capela!
Mamãe garantiu que eu me abrigaria lá. Sem tempo para continuar discutindo, e com o comboio inteiro em perigo, o motorista do último ônibus fechou a porta. Os motores deram a partida um após o outro.
Fiquei ali enquanto as lanternas traseiras desapareciam ao longe. Quando a última sumiu, Puerto Niebla ficou às escuras.
Virei e segui para o outro lado da cidade. Para chegar à capela velha de que Don Mateo falou, precisava atravessar toda a rua principal.
O vento era tão forte que eu não conseguia correr. A cada passo, precisava me agarrar às paredes. As telhas voavam por cima da minha cabeça e se espatifavam no chão. Uma rajada arrancou pela raiz a enorme sumaúma no meio da rua e a derrubou sobre a via, bloqueando completamente a passagem.
Não tive outra saída senão voltar para casa.
A casa já estava sem metade do telhado. A chuva entrava em torrentes, e o chão da sala estava coberto de água. Me encolhi no vão sob o fogão de tijolos, protegida por três paredes e uma laje de concreto que mal cobria minha cabeça.
A água entrou por baixo da porta e pelas rachaduras. Primeiro cobriu meus tornozelos; depois, as panturrilhas. Abracei os joelhos e me encolhi feito um novelo, tremendo até meus dentes começarem a bater.
Então, o celular no meu bolso tocou.