Era Anita.
— Você está bem? Onde está? — Perguntou ela entre soluços.
— Estou bem. — Respondi, cerrando os dentes para esconder o tremor na voz.
— Vocês já chegaram?
— Sim. Estamos em um hotel da cidade que está servindo de abrigo. Tem água quente, cobertores, e os funcionários prepararam comida.
Ela voltou a chorar.
— Estou com muito medo. O que você vai fazer sozinha em casa?
Um estrondo retumbou acima da minha cabeça. O vento arrancou de uma vez a metade do telhado que ainda restava, e a tempestade desabou sobre mim. Gritei quando a água açoitou meu rosto, e o celular quase escapou das minhas mãos.
— O que aconteceu? Que barulho foi esse?
— Nã... nada. O vento levou algumas telhas.
O sinal começou a falhar, e a voz de Anita chegava aos pedaços:
— Vo... cê... me ou... ve...?
Com apenas uma barrinha de sinal, ouvi Anita gritar outra vez, em meio ao choro:
— Mãe, a casa está desabando! Faz alguma coisa para salvar minha irmã!
Então ouvi a voz de mamãe:
— Se ela ainda consegue falar ao telefone, é porque está bem. Vive fazendo drama por qualquer coisa.
A água já cobria meus joelhos.
— Não é drama! Você não ouviu aquele barulho? Ela—
— O que pode acontecer com ela dentro da própria casa? Seu pai reforçou aquele fogão há dois anos. A estrutura é muito resistente. Se ela não aguenta um pouco de vento e chuva, como vai enfrentar o mundo quando crescer?
Do outro lado da linha, papai murmurou:
— Talvez a gente pudesse pedir a alguém para voltar e buscá-la.
— Cale a boca. — Retrucou mamãe, interrompendo-o no mesmo instante.
Depois falou com Anita:
— Chega. Manda ela desligar. Só está gastando os créditos do celular.
Continuei encolhida na água, sem dizer nada. Ela já chegava às minhas coxas, e a única barrinha de sinal aparecia e sumia.
Anita continuava chorando quando suplicou, com a voz entrecortada:
— Tenta subir para um lugar mais alto.
Ela mal terminou de falar, e ouvi a voz apressada de um funcionário do abrigo.
— Menina, com quem você está falando?
— Com a minha irmã. Ela está na nossa casa. Não levaram ela na evacuação. — Respondeu Anita, sufocada pelo choro.
— O quê? Ainda tem alguém naquela cidade? Onde estão seus pais? Essa menina pode morrer!
Do outro lado da linha, formou-se uma confusão. Várias pessoas falavam ao mesmo tempo. Algumas pediam que chamassem a equipe de resgate; outras queriam saber quantos moradores continuavam presos na cidade. A voz do funcionário se sobressaiu:
— Onde estão os pais dela? Tragam os dois aqui agora! Por que deixaram uma menor sozinha na área de risco?
Então ouvi mamãe dizer:
— Ela não vai morrer. Sempre foi muito resistente.
Um instante depois, mamãe arrancou o celular das mãos de Anita e encerrou a ligação. Mesmo sem sinal, abri o aplicativo de notas e, com os dedos dormentes, escrevi: "Por favor, não culpem a mamãe. Eu decidi ficar em casa. Se eu morrer, lembrem que ela só queria ensinar Anita a voltar cedo para casa. Ela não é uma pessoa ruim, a culpa é minha por ser tão inútil."
Depois guardei o celular no bolso. As palavras de mamãe se repetiam sem parar na minha cabeça.
A água subiu até minha cintura e, depois, até meu peito. O espaço sob o fogão diminuía cada vez mais. Me agarrei a uma coluna de tijolos e enfiei as unhas nas frestas entre eles.
Eu tremia de frio. A água e o vento eram gelados, e eu já não sentia meu corpo.
Lembrei de uma noite da minha infância. Anita saiu para brincar sem casaco e se resfriou. Mamãe me obrigou a ficar no quintal de pijama, em pleno inverno, e só me deixou entrar quando comecei a tremer sem controle e Anita desatou a chorar de medo. Na manhã seguinte, minha febre chegou aos 40 °C.
O frio daquela noite não era nada comparado ao que eu sentia naquele momento.
A água chegou ao meu pescoço. Meus dedos já não tinham força, e não consegui continuar agarrada à coluna. Mas aquilo não importava, eu já estava decidida a parar de lutar.
Mamãe dizia que eu era muito resistente. Mas, mamãe, acho que nunca fui tão resistente assim.
Naquele momento, eu não ouvia quase nada. Senti minha consciência se desprender lentamente do corpo. Pouco antes de apagar de vez, ouvi alguém gritar não muito longe dali:
— Ela está aqui!