Mamãe colocou Anita no ônibus de evacuação. Depois se virou para mim e disse com toda a calma:
— Você fica. Quando o furacão passar, Anita vai aprender que precisa voltar cedo para casa.
Todos os moradores da cidade partiram. As telhas começaram a voar, uma após a outra.
"Mamãe, você queria me usar para dar uma lição a Anita. Mas, desta vez, quem servia de lição ia morrer de verdade. Está satisfeita?"
...
— Onde Anita se meteu? Um furacão devastador vai chegar esta noite!
Mamãe andava de um lado para o outro na sala. Lá fora, o céu estava assustadoramente negro, e o vento espalhava objetos pelo quintal, lançando-os contra as paredes num estrondo ensurdecedor.
Os alto-falantes da prefeitura repetiram o aviso pela terceira vez:
— Alerta vermelho! Evacuação total! Os ônibus de evacuação vão sair da entrada da cidade em vinte minutos!
Mamãe se virou bruscamente para mim, com os olhos faiscando de raiva.
— Vá procurar Anita agora mesmo!
Olhei pela janela. Aquilo já não parecia chuva, e sim uma cortina de água. As rajadas dobravam as bananeiras quase até o chão.
— Mãe, Anita disse que ia à casa de uma colega. Além disso, lá fora—
— Não quero saber na casa de quem ela está! Você vai encontrá-la agora mesmo e, se não conseguir, nem pense em voltar!
Mamãe me cortou na hora. Olhei instintivamente para papai, sentado num canto. Ele mexeu os lábios antes de criar coragem para falar.
— Está perigoso demais lá fora. Talvez fosse melhor esperar um pouco.
— Cale a boca! Se acontecer alguma coisa com Anita, você vai assumir a responsabilidade? — Mamãe disse sem ao menos se virar para ele.
Papai não disse mais nada.
Calcei minhas sandálias, cujas solas já estavam descoladas. Assim que abri a porta, uma rajada quase me derrubou. Avancei rente à parede, tateando o caminho a cada passo, enquanto a água da rua batia nos meus tornozelos.
Eu estava prestes a correr até a casa da colega de Anita, do outro lado da cidade, quando ouvi uma voz alegre atrás de mim.
— Nossa, que ventania! Isso é divertido demais!
Me virei e avistei Anita saindo correndo de uma viela, com o cabelo molhado grudado no rosto e uma expressão de entusiasmo.
Nem percebi quando mamãe chegou à porta. Ela abraçou Anita e a examinou da cabeça aos pés, angustiada e aliviada ao mesmo tempo.
— Até que enfim você chegou! Está toda molhada? Está com frio? Entre e troque de roupa antes que fique doente.
Eu continuava sob o aguaceiro, encharcada e tremendo com o vento. Mamãe nem sequer olhou para mim.
Naquele momento, chegou o comboio de ônibus de evacuação. Os faróis do primeiro veículo projetaram dois fachos de luz através da chuva, enquanto o alto-falante repetia sem parar:
— Todos os moradores devem embarcar imediatamente! Evacuação de emergência!
Mamãe envolveu Anita num cobertor e a acomodou no banco de trás do primeiro ônibus. Fui atrás das duas, mas, quando pus o pé no degrau, mamãe me afastou com um empurrão.
— O que você pensa que está fazendo? Conhece as regras. Anita ficou brincando até tarde e quase não conseguia voltar para casa. Você vai ficar aqui para ela entender o que é sentir medo.
Fiquei paralisada.
Dentro do ônibus, Anita se debruçou na janela e gritou, desesperada:
— Mãe, não! Se Valentina ficar, pode acontecer alguma coisa com ela! O furacão—
— Agora você está com medo? Por que não pensou nisso antes de sair para brincar? — Mamãe a interrompeu com dureza.
— Valentina está sendo castigada por sua culpa!
Anita se encolheu no banco enquanto as lágrimas escorriam por suas bochechas.
Uma vizinha não aguentou mais e interveio.
— Teresa, é um furacão de categoria cinco! Sua filha pode morrer! Aquela casa não vai resistir!
Mamãe nem se abalou. Voltou para dentro de casa e saiu com nosso cachorro, Canela, nos braços. Colocou ele no último banco livre e declarou, como se aquilo fosse a coisa mais razoável do mundo:
— Canela é um animal e não sabe se proteger. Preciso levá-lo. Você é uma pessoa; vai encontrar onde se abrigar.
Papai estava sentado na parte da frente. Quis dizer alguma coisa, mas bastou um olhar de mamãe para que ele virasse o rosto para a janela.
A porta se fechou. Pelo vidro coberto de chuva, vi Anita bater com as duas mãos. Seus lábios se moviam e ela gritava alguma coisa, mas o vento era forte demais para que eu a ouvisse. Mamãe segurou a cabeça dela e a impediu de continuar olhando para mim.
O motor ligou. O ônibus avançou alguns metros e parou para esperar o restante do comboio. Enquanto isso, as luzes de Puerto Niebla se apagaram uma a uma.
Fiquei sozinha no meio da rua, de pé sob a tempestade.
Então, alguém gritou da escuridão:
— Aqui tem lugar!