Depois que Inês veio jantar em nossa casa, as coisas começaram a ficar cada vez mais estranhas.
Álvaro saía do trabalho duas horas mais cedo todos os dias. Ele não fazia isso para voltar para casa, mas sim para levar Inês e a criança para passear.
Fotos dos três juntos começaram a aparecer nas redes sociais. Eles iam a parques de diversões, aquários e restaurantes familiares.
Nas fotos, o sorriso de Álvaro revelava uma suavidade e um relaxamento que eu nunca tinha visto antes.
No quinto dia, Álvaro voltou para casa segurando um documento. Ele jogou os papéis na mesa de centro e falou em um tom indiferente.
— Dê uma olhada e assine.
Eu peguei o documento e abri na primeira página.
[Acordo de Divórcio]
A página sobre a divisão de bens era muito clara. A cobertura duplex ficaria comigo, e eu receberia mais vinte milhões pagos trimestralmente.
Tudo era feito de forma limpa e direta, como se estivéssemos fechando um negócio.
Eu virei as páginas uma por uma. Não havia nenhuma cláusula sobre crianças. Obviamente, na cabeça dele, o bebê já não existia mais.
Peguei a caneta e assinei o meu nome.
Álvaro estava em frente à janela, de costas para mim. A linha dos seus ombros estava completamente tensa.
Ele não se virou para me ver assinar, mas eu podia sentir que ele estava esperando. Ele queria que eu chorasse, fizesse um escândalo e perguntasse o motivo daquilo tudo.
Eu coloquei o acordo assinado de volta na mesa e me levantei.
— Senhor Álvaro, quando você precisa que eu me mude?
Ele se virou com as sobrancelhas levemente franzidas, parecendo surpreso com a minha reação.
— Não há pressa.
Eu balancei a cabeça e caminhei em direção ao quarto de hóspedes. Após eu dar dois passos, ele me chamou de repente.
— Sabrina.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, e a sua voz soou um pouco rouca.
— Como está... a recuperação do seu corpo?
Eu baixei os olhos e respondi.
— Está muito bem.
— Que bom.
Havia um traço de alívio no tom de voz dele. Eu fechei a porta, encostei-me na madeira e coloquei a mão sobre o meu ventre.
Já faziam quatro meses. Eu usava roupas largas de ficar em casa e me cobria com cobertores, então ele não tinha notado nada. E também nunca prestaria atenção nisso.
Fomos finalizar os trâmites do divórcio no dia seguinte. Álvaro estava presente, mas Inês não. No entanto, a tela do celular dele acendeu três vezes, sempre com mensagens dela.
Ele respondia rapidamente, mantendo uma expressão suave no rosto.
Ao sairmos após finalizar tudo, Álvaro me chamou.
— O carro está estacionado no portão leste. Eu te levo de volta.
Eu balancei a cabeça negativamente.
— Não é necessário.
— Sabrina...
— Senhor Álvaro — eu o encarei, tentando manter a minha voz o mais estável possível. — Nós já estamos divorciados.
Ele ficou atordoado por um instante. Parecia que, apenas naquele momento, ele tinha percebido que aquilo era real.
Virei as costas e fui embora. Ao chegar ao cruzamento, olhei para trás uma última vez. Álvaro permanecia parado em frente ao tribunal, completamente imóvel.
Eu não sabia o que ele estava pensando, e também não queria saber. Em vez de voltar para casa, fui direto para o hospital.
Era o dia do ultrassom morfológico e eu não podia mais adiar o exame.
Dentro do consultório, o médico passou o aparelho na minha barriga. Logo, uma pessoinha encolhida apareceu na tela.
— O bebê é muito saudável. É uma menina.
Eu fiquei encarando a tela sem piscar. As minhas lágrimas caíram pesadamente, sem nenhum aviso prévio.
Assim que saí do hospital, liguei para Dionísia.
— Coloque aquela casa à venda por mim.
— Já tomou a sua decisão?
— Sim, acelere os papéis o máximo que puder. Eu vou sair desta cidade.
— Para onde você vai?
Eu pensei por um instante.
— Para a capital.
Dionísia ficou em silêncio antes de perguntar.
— Por que a capital?
— Fui aprovada para a pós-graduação na Universidade da Capital. A carta de admissão chegou na semana passada.
Eu me preparei para isso durante dois anos, e ninguém sabia de nada.
As pessoas só sabiam que eu era a esposa frágil que Álvaro sustentava em casa. Eu não trabalhava, não socializava e era silenciosa como um mero enfeite de decoração.
Afinal, ninguém se importava se um objeto de decoração lia livros ou não.
Dionísia deu uma risada do outro lado da linha, e dessa vez foi um sorriso verdadeiro.
— Sabrina, você é a mulher mais paciente que eu já vi na minha vida.
Dei a partida no carro e dirigi em direção à casa que logo deixaria de ser minha. Eu precisava voltar e arrumar a minha bagagem. Iria para um lugar onde Álvaro não existisse.
Ao chegar na porta de casa, vi um Maybach preto e familiar estacionado na vaga. Era o carro de Álvaro.
Segurei a minha bolsa e empurrei a porta. A luz do corredor estava acesa, e Álvaro estava sentado no sofá da sala de estar.
Havia uma fileira de objetos espalhados na mesa de centro bem na frente dele. O meu olhar pousou naquilo e o meu sangue gelou em um instante.
Eram todos os meus exames de ultrassom e a minha carta de admissão. Eu os havia escondido no fundo do armário do quarto de hóspedes. Desde a oitava até a décima sexta semana, não faltava nenhum papel.
Álvaro levantou a cabeça e olhou diretamente para mim. Os seus olhos estavam assustadoramente vermelhos, como os de uma fera encurralada e furiosa.
A voz dele saiu tão rouca que era quase inaudível.
— Sabrina, me diga agora... o que é isso?