Capítulo 3
Eu estava sentada sozinha do lado de fora do consultório de obstetrícia quando recebi uma ligação de Dionísia.

— Eu pedi para darem uma olhada naquela cobertura. O seu andar é o último e tem um terraço. O valor pode chegar a cerca de cinquenta e cinco milhões, mas é negociável.

Eu concordei com a avaliação.

Dionísia ficou em silêncio por dois segundos antes de perguntar:

— Sabrina, você abortou ou não a criança?

— Não.

— Ele sabe disso?

— Não sabe.

O som de um isqueiro surgiu do outro lado da linha. Dionísia puxou o ar profundamente.

— Você tem muita coragem.

Eu não disse nada em resposta.

Dionísia continuou perguntando sobre o assunto.

— E o que você planeja fazer? Vai esconder isso dele para sempre?

— Vou esconder até conseguir pegar tudo o que eu devo receber.

— E depois?

— Depois, eu pego a criança e vou embora desta cidade.

Dionísia soltou uma risada, mas não havia nenhum sinal de alegria no som.

— Tudo bem, eu vou ficar de olho no negócio da casa para você. Tome cuidado e não deixe que ele descubra.

Eu desliguei a chamada e fiquei encarando a tela do celular por um tempo. A minha mente acabou divagando.

Dionísia era a pessoa que vivia com mais clareza e lucidez no nosso círculo social.

A primeira vez que a vi, ela usava um vestido emprestado e sapatos de salto alto desgastados. Ela andava por uma festa segurando uma taça de champanhe, brindando com todos.

Todo mundo a tratava como uma piada. As madames a chamavam de "ônibus público" pelas costas. Os jovens ricos a chamavam de "senhora Dionísia" na sua frente, mas, escondidos, a chamavam de "prostituta gratuita".

Ela já tinha ouvido tudo isso, mas apenas sorria e deixava passar.

Naquela época, eu tinha acabado de ser introduzida nesse círculo por ela e era incrivelmente ingênua. Uma vez, eu não me contive e a questionei.

— Você não acha muito cansativo viver dessa maneira?

Ela se olhava no espelho enquanto passava batom, parando na metade. Sem virar a cabeça, ela me respondeu.

— Você acha que eu faço isso porque quero?

— Quando eu tinha dezesseis anos, a minha mãe teve insuficiência renal e o meu pai fugiu. Eu tive que arrumar três empregos, mas o dinheiro não pagava nem uma fração da hemodiálise.

— Um homem disse que me daria dois mil se eu jantasse com ele, e eu fui.

— Depois, dois mil viraram cinco, cinco viraram dez, e dez mil viraram um apartamento.

Ela abaixou o batom e se virou para mim. O seu olhar era tão puro que nem parecia estar dizendo aquelas coisas.

— Sabrina, viver bem já é uma tarefa difícil por si só. A dignidade não coloca comida na mesa.

Eu não acreditei nisso na época, pois achava que a minha situação era diferente da dela.

Eu tinha me casado com Álvaro. Eu possuía a segurança de um matrimônio e um status legal perante a sociedade.

Mas, com o tempo, acabei descobrindo a verdade. Aquele status legal não passava de um pedaço de papel que poderia ser rasgado a qualquer momento.

O meu bebê nem tinha nascido, mas ele já havia trazido para casa o filho de outra mulher.

Naquele instante, eu finalmente entendi a frase de Dionísia. O mundo não vai te tratar bem apenas porque você segue as regras.

O exame pré-natal terminou e estava tudo normal.

Assim que entrei em casa, a babá me puxou de lado com uma expressão desconfortável.

— Senhora, o senhor Álvaro pediu para avisar que teremos convidados para o jantar de hoje. A cozinha precisa preparar comida para dez pessoas.

— Que convidados?

A babá hesitou por um momento antes de responder em voz baixa.

— A senhorita Inês.

Eu quase deixei as chaves do carro caírem da minha mão.

— Ela vem sozinha?

— Parece que ela também trará alguns amigos.

Eu concordei com a cabeça e fui para a cozinha ajudar a preparar os ingredientes.

Inês chegou às sete horas da noite.

Ela estava mais magra do que há três anos. Vestia um vestido de caxemira creme, com os cabelos soltos e sem maquiagem.

No entanto, era exatamente essa aparência natural e sem adornos que a tornava deslumbrante aos olhos.

Álvaro foi pessoalmente até a porta para recebê-la.

Eu fiquei parada na porta da sala de jantar, segurando uma fruteira que tinha acabado de arrumar.

Quando Inês me viu, ela paralisou por um instante, mas logo deu um sorriso. Ela me chamou prontamente.

— Cunhada.

A expressão de Álvaro mudou de forma quase imperceptível. Apesar disso, ele não a corrigiu.

Na mesa de jantar, Inês sentou-se à direita de Álvaro, e o menino ficou à esquerda dela. Pareciam uma família de três pessoas.

Eu estava sentada na outra ponta da longa mesa. A comida na minha frente permaneceu quase intocada.

Um dos amigos de Inês percebeu e perguntou.

— Por que você não está comendo?

— O meu estômago não está muito bem. — Eu respondi.

Álvaro sequer levantou a cabeça.

Após a refeição, Inês se agachou para abraçar o garotinho e deu um beijo na testa dele.

O menino abraçou o pescoço da Inês. Em seguida, ele a chamou de "mamãe".

Eu me virei e entrei na cozinha. Liguei a torneira para que o som da água abafasse tudo. Inclusive o som do meu choro sufocado enquanto eu mordia as costas da minha própria mão.

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