Capítulo 2
Todos no nosso círculo social sabiam qual era a coisa que Álvaro mais odiava. Não era a traição e nem a mentira. Era ser abandonado.

Quando a mãe dele ficou grávida, o pai, Wagner, já estava noivo de outra mulher.

A mãe de Álvaro alugou sozinha um quarto de doze metros quadrados na periferia. Como não tinha dinheiro para leite em pó, ela o alimentava com água de arroz.

Quando ele completou cinco anos, a mãe o deixou na porta da casa de Wagner. Ela disse que iria comprar algo gostoso para ele comer.

Ele ficou parado ali por sete horas, esperando até o céu escurecer. Esperou até o segurança chamar a polícia e Wagner sair da casa.

A mãe dele nunca mais voltou. Ela pegou trezentos mil de Wagner, mudou-se para outra cidade, casou-se de novo e teve uma filha.

Ela construiu uma nova família, uma nova vida e teve uma nova criança. O filho antigo só precisava ser jogado na porta de alguém.

Wagner achava aquilo uma vergonha e não o queria. Foi graças a um parente mais velho, que disse "ele ainda é do nosso sangue", que o menino pôde ficar.

A madrasta não o batia nem o xingava. Ela simplesmente agia como se ele não existisse. Ele não recebia mesada, e quando iam tirar a foto de família, mandavam ele ir para o escritório fazer o dever de casa.

Aos quatorze anos, um colega de classe zombou dizendo "sua mãe não te quis". Em resposta, Álvaro quebrou o nariz do garoto.

Wagner foi à escola para resolver o problema. Na frente do diretor, ele apontou para o filho e disse que o menino era inútil como a mãe. Álvaro não deu um único pio.

A partir daquele momento, ele dedicou todo o seu tempo aos estudos e a ganhar dinheiro.

Aos dezoito anos, conseguiu uma bolsa de estudos integral para estudar no exterior. Ele voltou aos vinte e um e, em apenas três dias, comprou sessenta por cento das ações da empresa de Wagner.

Wagner ligou implorando por misericórdia. Álvaro, no entanto, disse apenas uma frase.

— Estou te devolvendo os trezentos mil que a minha mãe levou. Agora estamos quites.

Todas as pessoas diziam que Álvaro era um homem cruel. Mas eu não achava que era crueldade, e sim que era medo.

Ele tinha medo de se transformar de novo naquele garotinho que ficou esperando na porta por sete horas.

Por conta disso, ele afastava todas as pessoas para bem longe. E isso incluía a mim.

A única exceção era Inês. Ela foi a única que se aproximou dele por vontade própria e depois foi embora. Ela também era a única pessoa por quem ele estava disposto a esperar.

Ele esperou por ela durante três longos anos. E agora ela estava de volta, trazendo o filho dele.

Naquele momento, Álvaro olhava para o rosto do garotinho. O seu olhar era tão gentil que nem parecia ele mesmo.

— Ignácio, o papai nunca mais vai deixar ninguém te abandonar — ele disse.

O menino acenou com a cabeça e abraçou o pescoço dele com força.

Eu estava parada na porta da cozinha e ouvi aquelas palavras. E quanto a mim? E quanto à criança na minha barriga?

E quanto ao bebê que havia sido condenado à morte por ele antes mesmo de nascer?

Eu não fiz essas perguntas em voz alta. Apenas voltei para o quarto de hóspedes e fechei as cortinas. Fiquei sentada na escuridão por um bom tempo.

Depois, peguei o meu celular e enviei uma mensagem para Dionísia:

[Você pode encontrar alguém para avaliar aquela cobertura duplex para mim?]

Dionísia respondeu imediatamente:

[O que houve? Está pensando em vender?]

Eu respondi:

[Apenas faça a avaliação por enquanto, não tenho pressa.]

Ela me mandou um áudio em seguida:

— Mantenha ele sob controle primeiro!

Eu soltei o celular e acariciei a minha barriga. Já fazia quatro meses. Em breve, a gravidez ficaria visível e eu não conseguiria mais esconder.

Mas, antes que isso acontecesse, eu precisava colocar as mãos em tudo o que era meu por direito.

Naquela mesma noite, Álvaro bateu na porta do meu quarto, o que era muito raro. Ele estava parado na porta, segurando um cartão black.

— É um cartão para as despesas da casa. A senha é a data do seu aniversário.

Eu peguei o cartão das mãos dele.

— Obrigada, senhor Álvaro.

Ele franziu a testa visivelmente incomodado.

— Me chame pelo nome.

— ...Álvaro.

Ele pareceu suspirar de alívio, virou-se e foi embora.

Fechei a porta e olhei para baixo, encarando o cartão black. De repente, achei toda a situação extremamente ridícula.

Durante os nossos dois anos de casamento, a senha do cartão que ele me dava era sempre o aniversário de Inês.

Dessa vez, ele mudou para o meu. Não foi por se importar comigo, mas sim porque o aniversário de Inês seria reservado para outros cartões.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App