Capítulo 14: Entre Monstros e Muralhas ( Ágata)
O cheiro dele estava em todo lugar. Não era o cheiro sufocante de Ricardo — que misturava colônia de grife com o odor metálico de medo que ele gostava de extrair de mim. O cheiro de Miguel era diferente. Tinha notas de café fresco, couro velho e algo que eu só conseguia descrever como "vida real". Era um cheiro de quem pisava no chão, de quem enfrentava o sol, de quem não precisava de máscaras para ser temido.
Eu estava usando uma de suas camisetas. O tecido preto era pesado e caía sobre meu corpo como uma armadura improvisada, escondendo as marcas roxas que Ricardo havia deixado como autógrafos em minha pele. Cada vez que o pano roçava em meus ombros, eu me lembrava de onde estava: no topo do Morro do vulgo Pai. O lugar que, no asfalto, todos descreviam como o inferno, mas que, para mim, estava começando a parecer um purgatório muito acolhedor.
— Você está aérea de novo — a voz de Miguel me trouxe de volta.
Ele estava sentado à cabeceir