Mundo ficciónIniciar sesiónTamara, uma bolsista no curso de enfermagem em universidade particular no Rio de Janeiro, enfrenta desafios após a morte do irmão pelo envolvimento com o tráfico. Seguindo os passos do falecido irmão para sustentar a família, ela mergulha de cabeça no crime, e ao investigar a morte do irmão, se envolve com Sagat, gerente do tráfico na comunidade. E sem saber que ele é responsável pela tragédia, ela acaba se apaixonando por ele. A trama explora a complexidade emocional e aborda vingança, dilemas morais e um romance complexo em meio ao cenário sombrio no submundo do crime.
Leer másTalvez se eu começasse com uma "linda manhã onde eu acordaria com a luz do sol no meu rosto porque esqueci de fechar a janela ontem a noite", a minha história poderia parecer um pouco menos caótica. Mas a verdade é que, a minha realidade estava longe de ser menos. Tudo nela era "mais", e o universo não me poupava da intensidade dos acontecimentos.
Tudo começou quando o meu irmão foi encontrado morto numa das valas mais fundas da comunidade. Sem camisa, descalço, e com um tiro certeiro na cabeça. Essa foi a cena que eu presenciei quando precisei ir até lá para a minha ficha cair.Na época, eu ainda fazia o ensino médio e nem sonhava em fazer faculdade. Mas aí o meu irmão apareceu com um panfleto de uma universidade que estava abrindo um programa para bolsistas e insistiu que eu participasse da seleção porque não queria que eu acabasse como ele.Naquele dia, eu não havia entendido o que ele queria dizer. Mas a resposta veio logo depois das suas saídas durante a madrugada, do dinheiro surgindo como água, os presentes para mim e para a nossa mãe que ele trazia com frequência, as roupas novas e caras, e todo o material do meu curso na faculdade que era a única coisa que não fazia parte do programa e ele havia bancado todo o valor, fazendo uma surpresa para mim, logo depois de saber que eu fui aprovada.Do dia para a noite, nós estávamos vivendo em boas condições, e o que eu já sabia, e a nossa mãe não queria enxergar, mas estava bem evidente: o meu irmão havia entrado para o crime. Ele queria um futuro para mim, porque ele já não tinha mais um. E eu fiz isso por ele.No começo a nossa mãe não aceitou muito bem a história dele ter virado traficante, mas, qual mãe iria aceitar isso?! Eu também não estava bem com isso, mas ele parecia estar feliz fazendo o que nosso pai não fez. Cuidar da casa e das nossas necessidades, e ainda comparecer com o amor e o carinho que o marmanjo que nos colocou no mundo deixou de dar no dia em que saiu para o bar e nunca mais voltou. Ele estava sendo o homem da casa e o pai que eu nunca tive, e isso me fez perdoar o fato dele ter virado um soldado do morro.E mesmo sendo o oposto de um herói comum, ele era o meu herói preferido. Bom, até ele nos abandonar sem muitas explicações, como o nosso genitor havia feito.Semanas se passaram e nada. O Jonathan não respondia às minhas mensagens, não atendia as minhas ligações, e nem as ligações da nossa tia, a Katiane. E os meninos também não sabiam dele. Mas eu ainda tinha esperanças de encontrá-lo, ainda que morto, eu só queria o corpo para um enterro digno.E foi isso o que eu encontrei, o seu corpo sem vida, jogado em uma vala qualquer como um lixo.Eu queria entender o motivo. Queria saber o porque fizeram isso com ele, porque tudo parecia absurdo demais. Mas a única resposta que eu consegui foi que ele estava roubando do lucro da boca, o que não tinha me convencido, porque mesmo sendo bandido ele ainda era um cara honesto. E os dias em que ele havia sumido não batiam com as histórias que me contaram. Nada justificava, e isso me deixou com um vazio por dentro. Não só por ter perdido o primeiro homem da minha vida, mas por saber que estavam mentindo para mim.Com a morte dele, eu e a mãe tivemos que nos virar para dar conta de tudo. Ela voltou a trabalhar em casa de família no asfalto e eu continuei estudando, e quando consegui, comecei a trabalhar meio período em um mercadinho próximo a comunidade. Não era lá grande coisa, mas estava dando para cobrir as passagens para a faculdade e alguns materiais que eu estava precisando.Mas aí veio a pandemia, e como eu disse, o universo não era lá o meu grande fã, e eu acabei sendo dispensada como tantos outros, e com a minha mãe não foi diferente. Mas com o pouco que recebemos pelo tempo de trabalho, conseguimos passar alguns meses bem.Mas com o tempo que passamos em casa durante a pandemia, no fim da quarentena, descobri que minha mãe estava com diabetes tipo 1 e que precisavamos fazer o uso da insulina e de outros remédios antidiabéticos, e isso custou boa parte do dinheiro que tínhamos guardado, já que o que recebíamos no postinho não era o suficiente.Tudo que tínhamos estava se esvaindo aos poucos, ao ponto de passarmos necessidades. E tudo piorou quando crise durante a pandemia forçou a faculdade a ter que cortar gastos, e isso contou com o programa da minha bolsa no curso de enfermagem. O baque veio quando a reitora disse que eu teria que pagar todas as mensalidades do curso, desde o início do meu primeiro ano se eu quisesse continuar estudando na instituição, já que faltava tão pouco para eu concluir.E eu poderia ter desistido, trancado o curso, voltado a viver a minha realidade e procurar novamente um emprego digno... mas em um ato insano, eu tomei a mesma decisão que o meu irmão tomou a alguns anos atrás.TAMARA— Aconteceu que eu surtei, — comentei, sorrindo sem humor. — Eu surtei pra caramba! Deixando de encarar a vista, virei-me para o lado contrário, onde estava o bar, apoiando minhas costas na grade. — Aquela foi a primeira vez, desde os últimos anos, em que eu perdi totalmente o controle. Sentir o pânico tomar o controle de todo o meu corpo foi bizarro pra caralho. Se não fosse você ter me tirado de lá, eu não sei o que seria de mim ou da minha mãe... — Despejei tudo de uma vez, esperando alguma reação da parte dele. Mas o silêncio entre nós prevaleceu, me deixando desconfortável. — Agora que já sabe, não tem mais motivos para ficar. Eu não estou mais em apuros — fui irônica — eu vou ficar bem, mas agora preciso ver como está a dona Talita. Eu não disse obrigado. Isso era óbvio. Contar o que havia acontecido, demonstrar que era importante ele saber... aquela era a minha forma de agradecer. Eu não era muito boa com palavras, e não era a melhor pessoa para falar sobre os meus
TAMARA Os braços que me tiraram daquele caos ainda me rodeavam. Ele estava me levando para longe. Longe daquele caos, longe da minha mãe, longe daquela casa que mesmo depois de anos, ainda me fazia lembrar e reviver o luto do meu irmão dia após dia, remoendo o fato de que ele não voltaria mais. Meu coração ainda batia fortemente em um ritmo descompassado; me trazendo a sensação de que meu peito poderia se rasgar ao meio a qualquer momento. E mesmo indo para longe de tudo aquilo, eu ainda me sentia sufocada; como se alguém quisesse me fazer suplicar pelo ar que me faltava... — Calma, porra! — ele me apertou, descendo o beco estreito com pressa, enquanto me carregava em seus braços... — Respira! Eu vou te tirar daqui. — suspirou, me encarando por um segundo. — Eu não vou conseguir... — minha voz saiu arrastada, a respiração ainda ofegante. Eu odiava essa sensação, e odiava ainda mais não consegui deixá—la ir embora sozinha — me ajuda, por favor! Meu pedido soou como súplica, mas
MEXICANOColoquei a chave na ignição, jogando a bandoleira para trás trazendo o fuzil para a frente no modo porte e montei na moto acelerando em meio as ruas estreitas do morro, a fim de chegar mais rápido ao pegar os atalhos, mas o caminho parecia ficar ainda mais longe à medida que eu avançava entre as vielas.Era estranho, essa sensação era desconhecida para mim quando eu só estava esperando arrependimento. Eu não deveria estar desesperado para chegar, ou preocupado demais com alguém que eu tinha acabado de conhecer. Eu não era do tipo que tinha empatia por qualquer pessoa, mas aquele choro me comoveu o bastante para eu abandonar o plantão e sair sem ao menos olhar para trás.Mas quem eu queria enganar? Ela era uma das poucas pessoas que realmente tiveram um diálogo duradouro comigo sem que me achasse um grande filho da puta, e mesmo eu ignorando, isso mexeu comigo. Eu odiava ver uma mulher chorar.Atravessei uma última viela e passei para o outro lado da rua, parando em frente ao
TAMARATalvez enfermagem não fosse o meu curso. Talvez não fosse o que eu realmente queria. Eu gostava de ajudar, mas não tinha esse instinto. Não era algo que vinha ser automático...Ver a minha mãe caída no chão e não ter o reflexo de checar os seus sinais vitais ou qualquer outra coisa que eu pudesse fazer para ela recobrar consciência, me fez sentir incapaz de exercer as manobras básicas que aprendi no decorrer dos últimos anos na faculdade. Naquele momento era apenas eu, uma filha desesperada para socorrer a mãe que estava em uma situação delicada e que sequer sabia que ela sairia dela. Era apenas eu ligando para alguém que havia acabado de conhecer, para ajudar a levar minha mãe até o hospital mais próximo da comunidade, sem ao menos ter certeza de que receberia a ajuda que eu procurava e precisava. — Não somos amigos. Você entendeu, não é? — a voz soou sarcástica do outro lado da linha. Não rebati. Apenas a minha respiração estava sendo ouvida pela linha telefônica, e sem que










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