Lilly Deitei-me na cama ainda com o corpo quente do banho. A toalha secava meus cabelos úmidos sobre o travesseiro, e eu tentava não pensar demais. A suíte era bonita — ampla, silenciosa, com luzes em tons dourados e aquele perfume doce de flores recém-colhidas que os hotéis insistem em usar para parecerem românticos. Havia pétalas espalhadas na cama e duas taças sobre a mesa. Um cenário que gritava “lua de mel”, mas que, para mim, parecia mais uma encenação constrangedora.
Cruzei as pernas, encostando-me na cabeceira. O roupão de algodão cobria até os joelhos, e, mesmo assim, senti a pele arrepiar. Não era frio, era desconforto. Eu não fazia ideia do que fazer agora. Nem sabia por onde começar com James. Não o conhecia o suficiente para entender como funcionava a cabeça dele, o que esperava dessa situação... ou de mim. Tudo que tínhamos em comum era o mesmo caos: um casamento que não era nosso e uma família que parecia querer controlar tudo.
Pensei em propor um acordo. Algo simples, direto, sem riscos. Talvez fosse o jeito mais inteligente de lidar com alguém como ele — alguém que não parecia ter paciência para dramas, mas que também não era exatamente gentil. Um contrato de paz, por assim dizer.
A porta se abriu, interrompendo meus pensamentos. Ele voltou.
James entrou com o olhar distante, os ombros tensos, e a expressão cansada. Não disse nada. Apenas largou a chave sobre o balcão e seguiu para o banheiro, como se eu nem estivesse ali. Fiquei observando o reflexo dele no espelho, a forma como movia os músculos sob a camisa, o jeito impassível, quase frio.
O barulho da água começou a correr, abafado pelas paredes. Minutos depois, ele saiu com uma toalha enrolada na cintura. O vapor escapava junto com ele, e eu, sem querer, deixei o olhar se perder por um segundo a mais. Quando percebi, desviei o rosto imediatamente.
James notou e riu.
— Qual é, Lilly... vai dizer que nunca viu um homem sem camisa?
Mordi o lábio e tentei manter o tom firme.
— Eu não sou como as mulheres que você deve conhecer.
Ele arqueou uma sobrancelha, com aquele meio sorriso provocador.
— Então quer dizer que você nunca foi tocada... é isso?
Meu rosto queimou. O coração bateu rápido, mas eu me recusei a desviar o olhar dessa vez.
— Eu sempre me preservei para o meu futuro marido, James. — Falei com firmeza, mesmo que por dentro estivesse em chamas.
James me olhou em silêncio por alguns segundos. Havia algo diferente em seu olhar, como se tivesse sido pego de surpresa — talvez até respeitoso, embora disfarçasse.
— Não precisa se preocupar comigo, Lilly. — Disse, num tom mais leve. — Não sou o tipo que força ninguém a nada.
Respirei fundo. Era a deixa perfeita para o que eu queria dizer.
— Então talvez devêssemos fazer um acordo.
Ele pegou uma camisa na mala e vestiu, ainda sem olhar pra mim.
— Que tipo de acordo?
— Um acordo de convivência. — Falei com calma, mesmo sabendo que ele provavelmente acharia graça. — Definimos o que podemos e o que não podemos fazer. Assim as coisas ficam mais fáceis.
Ele se virou, cruzando os braços.
— Por exemplo?
— Por exemplo... não dormirmos juntos. Não nos tocarmos. E mantermos as aparências pelo tempo que for necessário. Um ano, é o bastante. O suficiente pra nossas famílias acreditarem que está tudo bem.
James deu uma risada curta, sem humor.
— Você quer um contrato de casamento... sem casamento?
— Exatamente.
— Não entendo... também seria assim com o Chris? — perguntou ele, me encarando.
— O próprio Chris sugeriu algo parecido antes de decidirmos nos casar.
— Espera... Como assim? Não teria um casamento de verdade, entre vocês?
— Isso.
Ele balançou a cabeça, visivelmente incrédulo.
— Você realmente leva isso a sério.
Antes que eu pudesse responder, ele suspirou e disse:
— Meu pai ligou. — mudou de assunto, inesperadamente.
— E o que ele disse?
— Que teve notícias do Chris.
— O que aconteceu? Por que ele não apareceu no casamento?
James passou a mão pelos cabelos, parecendo pesar as palavras.
— Chris sofreu um acidente a caminho da igreja. Por isso o celular estava desligado.
Fiquei sem ar por alguns segundos.
— O quê? Como ele está?
— Está desacordado. Teve uma cirurgia de emergência. Agora é esperar pra ver.
O mundo pareceu girar devagar. Fechei os olhos por um instante, tentando processar.
— Então... não devíamos voltar pra São Francisco?
— Meu pai me proibiu. — Ele falou, amargo. — Disse pra eu ficar até o fim da lua de mel, porque nada vai mudar o que aconteceu.
Olhei pra ele, confusa.
— Eu não queria estar casada, James. Mas também não queria que o Chris passasse por isso. Ele estava indo se casar comigo... Então, meio que é minha culpa.
Ele me observou por um instante, depois desviou o olhar.
— Não é sua culpa. Talvez o destino só tenha dado um empurrãozinho. Nenhum de vocês queria esse casamento.
As palavras dele doeram, mas eram verdade. Ainda assim, sussurrei:
— Você sabia disso? Que o Chris não queria?
James deu um meio sorriso, irônico.
— Não faço fofoca, Lilly. Detesto intrigas.
— Mas ele te disse alguma coisa?
Ele deu de ombros, com aquele jeito despreocupado que me irritava e me intrigava ao mesmo tempo.
— Só o suficiente pra eu entender que ele fazia o que meu pai mandava. Chris nunca soube dizer não pra ele.
O silêncio que veio depois foi pesado. Eu olhei para o chão, pensando em tudo o que havia desmoronado em poucas horas. Casamento, promessas, planos. Agora, estava ali, em um quarto de hotel com o irmão do homem que deveria ter sido meu marido. E, de repente, eu percebi: nada seria simples dali em diante. Nem o acordo. Nem ele. Nem eu.
— E o acordo? Você aceita? — perguntei, encarando-o.
— Para que nossa família acredita que estamos juntos, precisamos dormir na mesma cama, Lilly. E não se preocupe, não tocarei em você. Prometo.
— James, eu não me sinto confortável... — falei, tentando esconder a tensão — Nunca dormi com ninguém.
— Entendo. Eu realmente entendo. — ele suspirou fundo. — Posso dormir em outro lugar. O sofá parece confortável.
Eu olhei para o sofá, que de confortável não tinha nada. James era alto, e provavelmente não teria espaço suficiente para ele.
— Eu fico com o sofá. — falei.
Ele arqueou a sombrancelha.
— Tem certeza?
— Se você não fosse tão alto... ficaria com ele, James. Então se safou dessa. — dei um sorriso forçado, que não o convenceu de nada.
Enquanto eu improvisava uma cama no sofá, percebi o olhar de James em mim. e o seu cheiro recém-saído do banho.
— Por que aceitou se casar com o Chris se você não queria? — perguntou ele.
Demorei alguns segundos para entender o que exatamente ele queria saber, já que o casamento era um acordo entre nossas famílias. E que nunca foi um relacionamento, que começa como tantos, com um namoro, depois noivado, algo mais romântico e fiel. Nunca foi nada disso,
— Como posso responder? — falei, balançando a cabeça levemente. — Eu não queria casar. Não agora. Não estava nos meus planos. Mas... meus pais já planejavam isso com sua família. Assim como o Chris, eu também nunca soube dizer
não a eles.
James assentiu, pensativo. Parecia tentar entender meu ponto de vista, ou o dele. Talvez quisesse compreender para onde estávamos indo, mas na verdade, estávamos mais perdidos do que nunca.