Capítulo 03

POV Serena

Saio apressada da mansão.

Entro no carro e fecho a porta com força.

Meu coração está acelerado.

Minha respiração, descompassada.

Meu corpo inteiro parece em erupção.

Que homem era aquele?

O jeito como me olhou…

Foi assustador.

Mas também…

Excitante.

Fecho os olhos por um segundo e balanço a cabeça.

Ainda bem que nunca mais vou vê-lo.

Não daria certo de qualquer forma.

Mas o menino…

Joseph precisa de carinho.

De atenção.

De alguém que o enxergue.

Ligo o carro e sigo para casa.

Mais tarde…

Abro a porta e congelo.

Oliver.

Minha boca seca imediatamente.

Fecho a porta atrás de mim devagar.

— Você não tem vergonha na cara?

Ele levanta as mãos em sinal de rendição.

— Calma. Eu só vim conversar.

Olho ao redor, tensa.

— Cadê a Olívia? Ela não te viu?

— Não. Foi para a escola com a Aurora.

Meu estômago se contrai.

— Está vigiando minha casa agora, Oliver? O que você quer? Já assinei o divórcio.

Ele dá alguns passos na minha direção.

— Não vim brigar. Quero ajudar com as despesas da nossa filha. Minha situação melhorou.

Solto uma risada curta, sem humor.

Ele nunca foi generoso.

— O que você está armando? Fala logo. Eu não caio nesse discurso bonito.

— Eu estou em uma empresa nova. Ganhando bem. Não quero problemas.

Cruzo os braços.

— Problemas? Está com medo de eu fazer um escândalo? Fica tranquilo. Eu não fiz isso nem quando você me abandonou com nossa filha nos braços.

Ele passa a mão pelo cabelo, irritado.

— Eu precisava ir, Serena. Nossa vida era uma miséria.

Dou um passo à frente.

— E a solução foi abandonar sua filha na miséria? Que atitude nobre. Quer um prêmio?

Ele bufa.

— Você não muda. Continua teimosa.

Aproximo-me ainda mais.

— Eu não vou te perdoar. Nunca. Agora sai da minha casa.

Ele caminha até a porta.

Antes de sair, coloca um cheque sobre a mesa.

— Isso paga pelo menos o colégio dela.

Olho para o papel.

Caminho até ele.

Rasgo o cheque em pedaços pequenos, deixando-os cair no chão.

— Eu não preciso da sua esmola. Some daqui.

Bato a porta com força.

O silêncio da casa me engole.

Meu peito aperta.

As lágrimas descem sem pedir permissão.

Como eu amei esse homem?

Ele nem perguntou como a filha está.

Nunca pergunta.

Só pensa nele.

Passo a mão no rosto, respirando fundo.

Eu vou dar a volta por cima, Oliver.

Você ainda vai se arrepender.

….

Horas mais tarde…

Olívia brincou tanto hoje que já está dormindo profundamente.

Aurora ainda não chegou.

Provavelmente está em alguma festa, como sempre.

Pego uma xícara de chá e me sento no sofá.

O silêncio da casa me abraça.

Eu preciso de um emprego.

Preciso voltar a estudar.

Concluir meu curso de Relações Internacionais.

Só assim vou construir algo melhor para Olívia.

E provar — principalmente para mim mesma — que não dependo de homem nenhum.

O celular apita.

Meu coração falha uma batida.

VEIL.

Abro o aplicativo.

A mensagem me arrepia.

Como se ele soubesse exatamente o momento em que estou mais frágil.

“Já teve medo de arriscar? De se sentir confrontada por alguém?”

Engulo seco.

Respondo:

“Todos os dias sou confrontada pela vida.

Mas não tenho medo de mergulhar no que desejo.”

Fico olhando para a tela.

Um sorriso discreto surge.

Encosto o corpo no sofá.

Outra mensagem aparece quase imediatamente.

“Me ensina a ser como você.

Quero mergulhar no que desejo…

mas algo mantém meus pés presos ao chão.”

Meu coração acelera.

Quem é você?

Mordo o lábio, pensativa.

Há algo estranho nessa conexão.

Como se, de alguma forma…

Ele me entendesse.

E isso é perigoso.

POV Enzo

Eu preciso encontrar aquela mulher.

A forma como me enfrentou.

Como não tentou me seduzir.

Como me olhou sem medo.

Ela não estava impressionada.

E isso… me desconcertou.

Deito na cama e encaro o teto.

Meu celular vibra.

Uma mensagem de texto.

Meu maxilar trava ao ler o nome.

Jessy.

Abro.

“Cherry, volto para Miami em duas semanas. Quero te ver… beijinhos. — Jessy.”

Cherry.

Fecho os olhos por um segundo.

Que audácia.

Ela desapareceu quando minha irmã morreu.

Quando minha vida virou um caos.

Quando eu precisei de alguém.

Terminou nosso noivado por mensagem.

E agora quer me ver?

Respiro fundo, controlando a irritação.

Jessy Bittencourt…

é melhor não me procurar.

Não quero nada que venha de você.

Bloqueio a tela.

Mas o silêncio do quarto pesa.

Então faço o que não deveria.

Abro o VEIL.

Entro na conversa com Luna.

Ridículo.

Um homem como eu, buscando conforto em uma desconhecida.

Mas ela…

Ela parece entender.

A última mensagem dela ainda ecoa:

“Mas não tenho medo de mergulhar no que desejo.”

Eu nunca mergulhei.

Sempre calculei.

Sempre controlei.

Sempre pensei nas consequências.

Talvez por isso eu esteja preso.

Uma nova mensagem surge na tela.

“Quem prende seus pés no chão é você mesmo, Iron.

Talvez seja preciso se soltar das próprias amarras…

e só depois pensar em mergulhar.”

Iron.

Um leve sorriso escapa.

Ela me chama assim desde o primeiro dia.

Forte.

Frio.

Indestrutível.

Mal sabe ela que estou longe disso.

Meu coração acelera.

Essa sensação…

Eu não sentia há meses.

Desde antes do acidente.

Encosto a cabeça no travesseiro.

O celular ainda sobre o peito.

Pensando na mulher da despensa.

Pensando na mulher do VEIL.

Sem saber que talvez…

Sejam a mesma.

O sono me vence.

Mas minha mente continua nela.

….

No dia seguinte…

Levanto cedo.

Depois de um treino pesado, meu corpo está exausto — mas minha mente não.

Entro no chuveiro.

A água quente escorre pelos meus ombros, relaxando os músculos.

Mas não relaxa meus pensamentos.

Luna.

As palavras dela continuam ecoando na minha cabeça.

"Talvez seja preciso se soltar das próprias amarras…"

Fecho os olhos.

Desde quando uma desconhecida tem esse efeito sobre mim?

Saio do banheiro, visto-me rapidamente e coloco o relógio no pulso.

Uma batida na porta.

Antes que eu responda, ela se abre.

Peter.

— Licença, meu amigo… bom dia!

Ergo uma sobrancelha.

— Sem atrasos? Que milagre é esse?

Ele se j**a na minha cama, rindo.

— Sem festas esses dias. Estou focado. Agora… assunto sério.

— Não tomei café ainda e você já vem com problema?

Ele sorri de um jeito suspeito.

— Descobri o nome da sua babá favorita.

Paro.

— Para com isso.

— É sério. O nome dela é Serena. Mora na parte baixa da cidade. Mãe de uma menina. Divide a casa com a prima.

Meu maxilar se contrai.

— Ela é mãe?

— Mãe solteira.

Silêncio.

Algo dentro de mim se move.

— E você descobriu isso como?

Ele dá de ombros.

— Tenho contatos.

Já não gosto do rumo dessa conversa.

— O que mais você fez, Peter?

Ele evita meu olhar por meio segundo.

— Pedi para o Lorenzo ir buscá-la.

Eu o encaro.

— Você fez o quê?

— Relaxa. Ele só vai explicar que você quer conversar.

Passo a mão pelo rosto, irritado.

— Você mandou um segurança até a casa dela? Sem avisar? Está tentando assustar a mulher?

Ele se levanta.

— Qual o problema? Ele é educado.

— O problema é que ela pode pensar em sequestro. Ou ameaça. Ou qualquer outra coisa.

Pego as chaves do carro na mesa.

— Você às vezes consegue ser brilhante nos negócios… e completamente burro no resto.

Ele ri.

— Vai fazer o quê?

— Consertar a sua burrice.

Caminho até a garagem. Ele vem atrás.

— Aonde você vai?

— Buscar ela antes que decida nunca mais pisar aqui.

Entro no carro.

O motor ronca baixo.

Peter envia o endereço para o meu celular.

Olho para a tela por um segundo.

Serena.

A mulher que não me temeu.

Engato a marcha.

E sigo em direção à casa dela.

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