Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Serena
Todos dormem. E aqui estou eu, pensando e repensando se devo ou não mandar mensagem para um perfil anônimo. Ele não pode saber quem eu sou. E talvez aqui… eu possa ser quem eu quiser. Sem medos. Sem traumas. Sem inseguranças. Uma mensagem chega. “Já se sentiu perdida? Sem saber o que fazer… e como resolver coisas que parecem não ter solução?” Meu coração acelera. Minha boca seca. Eu me sinto exatamente assim agora. Que coincidência estranha. Respondo: “É como se tudo fosse um pesadelo. A gente quer acordar… mas precisa de ajuda.” Ele fica offline. Mordo o lábio, nervosa. Será que falei demais? Provavelmente. Coloco o celular na mesinha ao lado da cama. Preciso dormir. Amanhã acordo cedo. No dia seguinte O sol invade o quarto. Olho o relógio. Ainda tenho tempo. Olívia dorme tranquila. Ajeito a coberta sobre ela. Eu amo minha filha. Tudo o que faço é por ela. Tomo um banho rápido e visto uma roupa mais formal. Não posso parecer desleixada numa entrevista dessas. Arrumo o cabelo diante do espelho e respiro fundo. — Vamos lá. Envio uma mensagem para Aurora avisando que já estou saindo. Entro no meu carro antigo. Velho… mas foi a única coisa que consegui manter depois de Oliver. Ligo o motor e sigo em direção ao endereço. A região da orla é tomada por mansões. Então é verdade. São milionários. Estaciono perto do portão imenso. Um segurança autoriza minha entrada. Não sou a única candidata. Há outras mulheres aguardando na sala principal. Fico impressionada com o tamanho da casa. A sala é ampla, elegante. Quadros enormes, esculturas, móveis impecáveis. O luxo é silencioso… e intimidador. Uma moça se aproxima e sorri. — Prazer, meu nome é Jordan. — Serena. Prazer. — Está nervosa? Dizem que o chefe é bem grosseiro… — Como eu imaginava… — murmuro. — Mas é ele quem fará a entrevista? — Não. Parece que é a mãe dele. Uma senhora simpática. Outra jovem se aproxima, rindo. — Vocês não fazem ideia de onde estão, né? Nós duas a encaramos. — Essa é a casa de Enzo Valmont. Dono da maior concessionária de carros de luxo do país. E o bilionário mais cobiçado da região. Reviro os olhos internamente. Não faço ideia de quem seja. E também não me importo. Eu só preciso do emprego. Peço à funcionária para usar o banheiro. Sempre que fico nervosa, sinto vontade de ir. Ela indica o corredor. Enquanto caminho, escuto um choro baixo. Abafado. Não vem do banheiro. Vem da porta ao lado. Empurro devagar. É a despensa. Meu olhar encontra uma cena que aperta meu peito. Um menino encolhido no chão, abraçando as próprias pernas. Chorando em silêncio, como se tentasse desaparecer. Meu coração dói. Ele percebe minha presença e se assusta. — Sai daqui! Ninguém pode me ver chorando! Me abaixo até ficar na altura dele. — Calma… eu não vou contar a ninguém. Prometo. Ele limpa o rosto com pressa. — Quem é você? — Serena. Muito prazer. Estendo a mão. Ele não segura. — Deve ser mais uma apaixonada pelo meu tio… querendo ser minha babá. Quase sorrio. — Não tenho tempo para namoro, não. Só quero um emprego. Tenho uma filha da sua idade. O olhar desconfiado dele suaviza. — Ela é bonita como você? — Ainda mais bonita. Ele sorri de leve. — Ela pode ser minha amiga? Meu coração se aquece. Estou prestes a responder quando uma voz firme ecoa atrás de mim. — O que significa isso? Meu corpo enrijece. — Veio sequestrar meu sobrinho? Levanto devagar. E então eu o vejo. Alto. Imponente. Vestindo apenas uma bermuda de treino. O corpo marcado pelo esforço, a pele levemente suada, tatuagens desenhando os braços. Ele me encara como se pudesse atravessar minhas intenções. Quando nossos olhos se encontram… Algo explode dentro de mim. Não é medo. Não é apenas raiva. É uma corrente elétrica inesperada. E perigosa. Quem é esse homem… E por que meu coração está reagindo assim? POV Enzo Adormeci no escritório. Estava exausto. O celular ainda está sobre meu peito. Acabei não respondendo à mulher do aplicativo. Devo ter parecido rude. Mas pouco importa. Isso é loucura mesmo. Levanto e vou direto para o quarto. Entro no chuveiro e deixo a água fria cair sobre meu corpo. Preciso acordar. Depois desço para a academia. Treinar tem me mantido estável. Mais calmo diante de tudo que aconteceu. Perder minha irmã e meu cunhado não abalou apenas minha mãe e Joseph. Me abalou também. Minha mãe está cuidando das entrevistas para a nova babá. Espero que alguma fique dessa vez. Joseph é difícil. Mas é só uma criança tentando sobreviver ao próprio luto. Mais tarde… Vou até a cozinha pegar água. Tiro a camisa e a jogo sobre o ombro. Enquanto caminho pelo corredor, ouço uma voz feminina na despensa. Ela não pertence a esta casa. Me aproximo. Escuto a voz de Joseph. Intimidade demais. Meu corpo fica tenso. Tenho recebido ameaças há dias. Não posso facilitar. Empurro a porta com força. — Quem é você? O que está tentando fazer? Ela se vira lentamente. E o ar parece desaparecer. Rosto delicado. Cabelos dourados. Olhos que não abaixam diante dos meus. Meu peito dispara. Que mulher é essa? Engulo seco. Postura. Controle. Ela se aproxima e estende a mão. — Meu nome é Serena. Estou aqui para a entrevista de babá, senhor. E não estou sequestrando ninguém. Seu tom é firme. Eu não aperto sua mão. — A entrevista é na sala. Com minha mãe. Não com uma criança. Ela fecha a mão devagar. Respira fundo. — Eu sei. — Ela mantém o queixo erguido. — Só estava ajudando. — Ajudando como? Ela hesita por um segundo. Mas não olha para Joseph. — Isso não importa. Meu maxilar trava. — Importa sim. Você está dentro da minha casa. Ela cruza os braços. — Eu não estava fazendo nada de errado. — Então explique. Ela respira fundo. — Eu ajudei ele com uma coisa simples. Só isso. Olho para Joseph. — É verdade? — Sim, tio Enzo. Ela só me ajudou. Volto a encará-la. Ela não me entrega mais nada. Nenhuma justificativa. Nenhuma desculpa. Só firmeza. Volto a encará-la. O vestido simples. O cabelo levemente desalinhado. Nada nela parece calculado. — Posso ir? — ela pergunta. Aceno com a cabeça. Ela passa por mim. E algo me impulsiona. Seguro seu pulso. O toque é imediato. Quente. Elétrico. Meu corpo reage antes da mente. Ela puxa a mão com firmeza e me encara. — Presumo que estou desclassificada. Ergo uma sobrancelha. — É sempre assim? — Assim como? — Insolente. E mal-educada. Ela se aproxima. Aponta o dedo em meu peito. Os olhos dela brilham — não de medo. De raiva. — Eu não sou insolente. Só não vim aqui idolatrar você como as outras lá na sala. Eu preciso de um emprego. Silêncio. Ela suspira e se afasta. — Todas elas precisam. — Tem razão. — Ela solta uma risada breve. — Mas eu não ficaria aqui por muito tempo mesmo. — Por quê? Uma mansão dessas é impossível de ignorar. Ela ri. E meu olhar trai minha intenção ao acompanhar o movimento dos lábios dela. — Nem todo mundo se impressiona com dinheiro, senhor. Não que ele não resolvesse minha vida… mas no momento, eu só preciso trabalhar. Ela se vira e vai embora. Rápida demais. Fico parado por alguns segundos. Impactado demais. Minutos depois, entro no escritório. As candidatas me olham como se eu fosse um troféu. Fecho a porta. — Filho, faltam mais duas candidatas — minha mãe informa. — Mandem todas embora. Ela franze o cenho. — Enzo… — Já encontrei a babá do Joseph. Ela cruza os braços. — E qual é o nome dela? Penso no rosto. No olhar. No jeito como enfrentou minha arrogância. Um pequeno sorriso surge. — Ainda não sei. Mas vou descobrir.






