Lara
Saí do banho e comecei o ritual de guerra. Maquiagem pesada, contorno marcado, cílios postiços que pareciam asas de borboleta. Enquanto passava o batom, olhei para o celular. Uma mensagem do André.
“Oi, linda. Vamos pedir uma pizza hoje e ver aquela série de advogados?”
Senti um calafrio de tédio percorrer minha espinha. André era o namorado "perfeito" para a minha mãe. Engenheiro, cheiroso, educado e absolutamente sem graça. Ele era o típico homem "sofá e controle remoto". Estávamos juntos há três meses — um recorde pessoal meu —, mas a verdade é que eu estava mantendo aquele namoro por puro comodismo. Ele não me desafiava. Ele não me fazia perder o fôlego. Ele era um copo de água morna em um dia de sol escaldante.
Decidi que não passaria daquela noite.
Marquei de encontrá-lo em um café perto do meu estágio, antes de encontrar Hadiya para a boate. Eu não queria levar aquele peso morto para a pista de dança.
Quando cheguei ao café, ele já estava lá, consultando o relógio com uma expressão de leve irritação.
— Você está atrasada, Lara. E por que está tão arrumada? Eu disse que íamos ficar em casa.
— Você disse, André. Eu não concordei — respondi, sentando-me à frente dele sem tirar o casaco. — Na verdade, vim aqui para dizer que não vai ter pizza. E nem série.
Ele arqueou uma sobrancelha, um sorriso arrogante brincando nos lábios.
— Outra briga? Qual o drama da vez?
— Não é um drama. É um encerramento. Acho melhor a gente terminar.
O sorriso dele sumiu instantaneamente, substituído por uma máscara de incredulidade.
— Terminar? Por quê? A gente não briga, eu te trato bem, tenho um ótimo emprego... O que mais você quer?
— Eu quero sentir alguma coisa, André! — minha voz saiu mais alta do que eu planejava. — Estar com você é como assistir a um documentário sobre tinta secando. Você é bom, é estável, é... plano. Eu preciso de alguém que me faça tremer, que me tire do eixo. E você me deixa com sono.
Ele deu uma risada seca, encostando-se na cadeira com desdém.
— Você é louca. Uma dessas mulheres que não sabem o que querem e depois saem chorando porque foram trocadas por alguém mais jovem. Você quem está perdendo, Lara. Tem mulher que se mata para estar no seu lugar.
Dei uma gargalhada tão alta e genuína que o garçom no balcão parou de polir as xícaras para me encarar.
— Se elas existem, André, por favor, dê meu número para elas! Elas podem ficar com as suas séries e as suas pizzas de terça-feira. Porque eu estou fora. Boa sorte com a sua vida previsível.
Peguei minha bolsa e saí, sentindo o ar fresco da noite bater no meu rosto. A sensação de alívio era quase inebriante. Era como se eu tivesse tirado um espartilho apertado demais. Sem amarras. Sem homem morto-vivo no meu caminho.
Liguei para Hadiya do carro.
— Está pronta, boneca? Já despachei o encosto. Hoje a noite é nossa.
— Lara... você terminou mesmo com ele? Assim, do nada? — a voz dela soou preocupada através do viva-voz.
— Não foi do nada, foi com atraso. Agora passa aquele batom que eu te dei e me espera na porta. Quero ver luzes, quero sentir o grave do som no meu peito e, quem sabe, encontrar alguém que realmente saiba o que fazer com uma mulher como eu.
Enquanto dirigia pelas ruas iluminadas, meu coração batia em um ritmo novo. Eu tinha o dom de atrair embustes, eu sabia disso. Beijava quem não devia, me envolvia com quem não prestava e fingia que estava tudo bem apenas para não encarar o vazio. No fundo, eu sabia que fazia isso de propósito. Eu me jogava nos errados porque tinha um medo visceral de encontrar o certo.
Amar é ceder. Amar é se expor. É perder o controle total sobre a narrativa da própria vida. E eu sou péssima em perder o controle. Tenho opinião forte, língua afiada e zero paciência para joguinhos psicológicos. Se algo me incomoda, eu falo. Na cara. Sem rodeios.
Talvez seja por isso que os caras corram. Ou talvez seja porque eu ainda não encontrei aquele que vai ficar, mesmo depois de ver o meu pior.
Eu não quero apenas um corpo. Eu quero um homem que me faça perder o fôlego, que saiba me ler com os olhos e me tocar com a voz antes mesmo de encostar na minha pele. Não precisa ser um príncipe. Na verdade, prefiro os vilões — aqueles que não têm medo da escuridão, porque é lá que a gente realmente se conhece. Quero alguém que me desafie, que me faça implorar por mais, que faça minha sanidade perder a batalha contra o desejo.
Mas enquanto esse homem não aparece, eu sigo colecionando erros e transformando cada um deles em uma história para contar.
Parei o carro em frente a casa de Hadiya. Ela estava lá, linda em seu vestido discreto, mas com uma postura que exalava uma força que nem ela sabia que tinha.
A noite me chamava. As luzes da Blackout no horizonte pareciam promessas de pecados que eu ainda não tinha cometido.
— Vamos? — Hadiya perguntou, entrando no carro e sentindo o perfume forte que eu exalava.
— Vamos. Hoje eu não quero pensar no amanhã. Quero apenas o agora.
Sem arrependimentos. Essa era minha filosofia. Viver na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença... até que a morte nos separe da nossa própria liberdade.
Amém. A festa estava apenas começando.