CAPÍTULO 5: Promessa de vingança

Eu olhava para a TV, mas não conseguia acreditar no que estava vendo.

"Não, não pode ser o Leonardo. Leonardo Almonte? Herdeiro? Casamento? Empresas? Não, de jeito nenhum, esse não pode ser o meu Leonardo."

Neguei para mim mesma com os olhos marejados sem conseguir desviar o olhar da tela. Como se o destino quisesse confirmar minha pior suspeita, a câmera focou nele. Vi claramente seus cabelos negros, os olhos castanhos-escuros e a pintinha debaixo do olho esquerdo, o lugar onde eu amava beijar e ele sorria dizendo que fazia cócegas. Não havia mais dúvidas. Era ele.

Estava mais sério, mais maduro, como se oito anos tivessem passado naqueles oito meses. O sorriso já não era largo e brilhante como antes, era um sorriso contido, mas ainda era ele, o homem que me abandonou grávida, o homem que agora estava casado e segurando outra mulher grávida ao lado dele.

Com o coração acelerado, fiz um esforço para me sentar na cama, alcançei minha bolsa, peguei meu celular e com as mãos tremulas fui até a barra de pesquisa na internet e digitou aquele nome:

Leonardo Almonte.

As notícias surgiram rapidamente. Fotos que eu nunca tinha visto. Manchetes anunciando o retorno do herdeiro dos Almontes, sua ascensão meteórica nos negócios, o noivado com Carla Mendes, o casamento, a fusão dos grupos que os colocou entre as maiores empresas do país.

Leonardo Almonte, Leonardo Almonte, Leonardo Almonte.

Aquele nome se repetia como um golpe em minha mente e coração, e sem forças, deixei o celular cair.

Ele não desapareceu, como eu inutilmente tentava me convencer esse tempo todo. Ele simplesmente me deixou. Encontrou uma família rica, assumiu uma herança, casou-se com uma herdeira e construiu uma nova família enquanto eu lutava sozinha com nossa filha.

A dor em meu peito era tão profundo e sufocante. Eu não conseguia respirar, eu precisava respirar.

Tirei o lençol do meu corpo e saí da cama sentindo minhas pernas ainda fracas e trémulas. Segurei o suporte de soro, e fui caminhando lentamente até finalmente chegar ao terraço do hospital, e sentir o vento frio da madrugada gelar as lágrimas em meu rosto, enquanto a revolta queimava dentro de mim.

"Como ele pode ter feito isso comigo? Por que ele fez isso comigo?"

Durante meses eu temi pelo pior, imaginando se algo terrível tinha acontecido com ele. Enquanto isso, ele vivia como um rei, cercado de luxo, enquanto eu trabalhava dia e noite pela NOSSA filha, a filha disse que amava, que protegeria, e que nada faltaria para ela. E tudo aquilo que ele tinha prometido, estava dando a outra mulher, a outra filha.

 Apertei o suporte de soro até minhas articulações ficarem brancas. 

Eu não deixaria aquilo assim. Ele teria de me dar explicações. Tudo o que desse ao outro filho teria de dar também à minha filha.

No dia seguinte, assim que recebi alta, saí do hospital mesmo sentindo dores. Já tinha esperado oito meses, não esperaria mais.

Peguei um táxi para o aeroporto. Sem malas. Apenas a necessidade de olhar nos olhos dele e exigir respostas.

Enquanto o carro seguia pela estrada, senti o mesmo mau presságio de meses atrás, quando me despedi dele. Ao mesmo tempo, minha bebê se moveu intensamente em meu ventre.

Acariciei minha barriga.

— Fique tranquila, logo vamos saber por que o seu papai nos deixou.

Mal terminei de falar quando ouvi a buzina ensurdecedora de um caminhão. Olhei para frente e vi o veículo vindo em nossa direção.

O impacto foi brutal e rápido.

O táxi foi arrastado contra as barreiras de aço da estrada, esmagado entre o caminhão e a proteção da estrada. Ouvi apenas um zumbido agudo antes que tudo escurecesse.

Quando abri os olhos novamente, estava de volta ao hospital. Máscara de oxigênio no rosto, aparelhos ligados ao meu corpo.

Tentei retirar a máscara, mas a médica me impediu.

— Você acabou de sair de uma cirurgia complicada. Perdeu muito sangue. Precisa descansar.

Olhei para médica ainda confusa com o que tinha acontecido, mas logo num piscar de olhos me lembrei de tudo. 

O acidente. 

Eu precisava saber se minha filha estava bem, mas não tinha forças nem para falar. Então, arrastei minha mão até meu ventre olhando para médica, mas antes de ver o olhar dela, senti minha barriga murcha, e aquilo fez meu coração acelerar, e olhei para ela com desespero.

— M-minha... Minha bebê– sussurrei contra a máscara implorando com o olhar por uma resposta. — O-onde está? —

A médica baixou o olhar.

— Eu sinto muito, Júlia. A bebê não resistiu ao acidente. Tentamos salvá-la, mas ela já estava sem vida quando a retiramos.

"Não... Não..."

Tentei me levantar em desespero. Aquilo não podia ser real, ela não podia estar morta.

— Júlia se acalme! — A médica tentou me segurar mas de alguma forma encontrei forças para me sentar na cama e arrancar a mesma de oxigénio.

— EU QUERO VER A MINHA FILHA! TRAGA ELA AQUI! EU QUERO VER ELA AGORA! — gritei em desespero e negação. 

 Me recusava a acreditar que aquele ser que se moviam em meu ventre todos os dias, aquela que era minha força de viver, tinha morrido, eu não podia perder ela, não depois de tudo que já tinha perdido.

— Julia por favor se acalme, você acabou de passar por uma cirurgia os pontos vão romper! —

— EU QUERO VER ELA!!! —me levantei da cama afastando os braços da médica, mas minhas pernas falharam e fui ao chão chamando a atenção de todos com o estrondo do meu corpo e dos equipamentos ligados em mim.

— Júlia! — a médica correu até mim e olhou para meu ventre que sangrava debaixo do uniforme do hospital. Os pontos tinham rompido.

Cerrei meu punho contra o chão derramando Lágrimas me sentindo inútil e impotente.

— Por favor... eu preciso ver ela, por favor. — implorei jogada no chão frio de hospital sem forças sequer de me levantar.

A médica soltou um suspiro de pena diante da minha situação.

 — Tudo bem, eu vou levar você para ver ela, mas precisa se acalmar primeiro, me deixe cuidar dessa ferida e logo vamos, está bem? —

Não respondi, apenas conseguia chorar pensando na minha filha.

Minutos depois, sentada numa cadeira de rodas, fui levada pelos corredores do hospital.

“Necrotério”.

Ao ver aquela palavra na placa da porta, meu coração apertou e doeu ainda mais.

— P-por que está me levando para lá? Eu quero ver a minha filha, ela deve estar no berçário com os outros bebés, por favor me leve até ela! — Agarrei o braço da médica com força e medo de entrar naquele lugar. Eu não conseguia acreditar que a minha filha estava naquele lugar.

A médica de agachou na minha frente.

— Julia, você tem de ser forte, você não precisa fazer isso agora, podemos voltar quando estiver mais calma, a sua bebê vai ficar aqui e esperar por você —

Chorei ainda mais pensando em minha filha sozinha naquele lugar, tão pequena numa câmera fria. Eu não podia deixar ela lá.

— Eu... Eu quero vê-la —

— tudo bem. — A médica me levou para dentro do necrotério, e logo até a parede onde tinham pequenas gavetinhas, e abriu uma delas.

Olhei para minha filha, fria, gelada com os olhos fechados, lábios roxos ressecados.

 Aquela criatura que antes se movia constantemente em meu ventre, agora estava ali, quietinha dormindo como uma bonequinha de porcelana sem vida alguma.

Levei minha mão até o rosto dela tocando meus dedos na pele fria e pálida.

 —Minha filha.... Minha filha! — a chamei como se ela pudesse me ouvir. Eu nem se querer tinha dado um nome para ela.

— eu quero... Eu quero segurar ela em meu colo. — pedi em lágrimas.

— Julia... —

— Por favor, eu imploro, só uma vez, eu preciso, eu quero sentir ela em meu colo, em meu peito —

A médica suspirou e enrolou o corpinho dela no fino lençol, e a colocou em seu colo.

Peguei ela e a envolvi com meus braços, Numa tentativa de aquecer o corpo dela.

— Você está tão fria meu amor, por que você está tão fria? Por que deixaram você nesse lugar frio e escuro? Abra os olhos, por favor deixe a mamãe ver os seus olhinhos meu amor, por favor chore, por favor meu bebê, não deixe a mamãe, não deixe a mamãe por favor. — pedi apertando ela ainda mais contra meu peito.

Eu não sei por quanto tempo fiquei ali segurando o corpo morto da minha filha, nem como tiraram ela dos meus braços, e nem como passei os restantes dos meus dias naquele hospital, mas me lembro de como saí dele: de mãos vazias, de ventre vazio, sozinha e sem vontade nenhuma de continuar a viver.

Apenas me lembro de estar diante do túmulo dela naquela tarde nublada, mesmo depois das poucas pessoas que me acompanhavam terem ido embora, eu permanecia ali olhando para o nome na cruz "Meu anjo".

Me deitei ao lado do pequeno túmulo e abraçei a terra fresca como se estivesse abraçando ela, como medo de deixá-la sozinha naquele lugar frio e escuro após meses a acolhendo em meu ventre.

E ali fiquei, chorando e cantando canções de ninar para ela, para que ela pudesse ter um sono tranquilo e sem medo, pois a mãe estava ali e sempre estaria.

— Descanse meu amor, a mamãe sempre vai cuidar de você e nunca vai deixar você sozinha. E também... A mamãe vai fazer o culpado de tudo isso pagar por ter tirado você de mim, eu juro meu amor, pelo descanso da sua alma, eu juro que vou fazer ele pagar! —

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