CAPÍTULO 4: Abandonada

POV JÚLIA 

Oito meses depois, eu trabalhava em um bar-restaurante. Para pagar as contas e ainda tentar economizar algo para minha filha que estava a caminho, eu atendia no restaurante durante o dia e no bar até a madrugada. Era exaustivo, mas tudo valia a pena por ela.

Antes, eu temia que minha bebê fosse um fardo. Agora, ela era minha única força. Era por ela que eu continuava de pé, mesmo depois de todos os golpes que a vida me dera.

— Pedido da mesa dois! — gritou a cozinheira, e rapidamente fui pegar o prato no balcão.

Eu limpava mesas, anotava pedidos, servia pratos e corria de um lado para o outro. Na hora do almoço, o lugar ficava lotado de operários da construção ao lado. O dono se recusava a contratar mais funcionários, dizia que três pessoas eram suficientes: a cozinheira, eu e o garoto da louça. Se contratasse mais alguém, reduziria nossos salários. Então todos ficávamos calados. Precisávamos do dinheiro.

Quando o movimento diminuiu, fui até a cozinha.

Dona Matilde me lançou aquele olhar severo, mas cheio de preocupação.

— Sente e coma — ordenou.

Ela encheu meu prato mais do que o normal.

— Você está magra demais. Parece um palito com uma bola no meio. Aqui não tem plano de saúde, então trate de se alimentar direito.

Sorri, emocionada.

— Obrigada, dona Matilde. — Aquele era o jeito dela de ser gentil.

Enquanto comia, o rapaz da louça perguntou:

— Por que você trabalha tanto sendo que está grávida? o pai do bebê? Não devia estar sustentando vocês?

Baixei o olhar. Eu ouvia muito aquela pergunta, mas ainda doía.

Eu ainda me agarrava à esperança de que algo tivesse acontecido com Leonardo. Era mais fácil acreditar nisso do que aceitar que ele simplesmente me abandonara.

— Cuide da sua vida, moleque! — repreendeu Dona Matilde, acertando-lhe a cabeça do garoto com o rolo de massa.

 Depois de ser expulsa da faculdade, voltei para a casa da minha avó. Dias depois, ela morreu. A pressão caiu, disseram. Mas eu sabia que ela tinha morrido de desgosto, do desgosto que eu era para ela. 

À noite, o restaurante virava um bar. Homens bêbados, risadas altas, comentários desagradáveis, e eu continuava trabalhando lá, pois precisava do dinheiro.

Eu atravessava o salão com uma bandeja cheia de copos, quando alguém esbarrou em mim.

Caí no chão, os copos se estilhaçaram e a cerveja encharcou minha roupa, e meu primeiro reflexo ao cair, foi o de proteger minha barriga com os braços.

— Olhe por onde anda, sua inútil! — gritou o homem antes de sair.

— Levante e limpe isso. Vai sair do seu salário — disse o dono, olhando para mim indiferente.

Senti uma leve dor em meu ventre, mas a Ignorei, não era tão incomum sentir aquelas dores.

Me levantei e recolhi os cacos de vidro, ignorando os cortes nos dedos.

 Mas, ao chegar à cozinha, uma pontada forte atravessou meu ventre.

— Ah… — gemi, apoiando-me na parede.

Então senti algo quente escorrer pelas minhas pernas.

Sangue.

Voltei ao balcão me arrastando, e segurando meu ventre que doía.

— Senhor Alberto… eu não estou me sentindo bem… — falei para o dono do bar.

— E quer que eu faça o quê? Parece que sou médico? — Respondeu ele, grosseiro como sempre.

— Eu preciso ir ao hospital… meu bebê…

Ele bufou antes que eu terminasse.

— Não me dê dor de cabeça garota. Vá embora logo. E essa noite vai ser descontada do seu pagamento.

Saí sem discutir, fui pegar minha bolsa, e parei na frente do bar. A estrada estava deserta, o hospital ficava a trinta minutos a pé.

Respirei fundo, pronta para começar a andar, mas antes que me afastasse, ouvi uma voz.

— Está tudo bem? Precisa de ajuda? 

 Me virei e vi um homem que fumava, encostado a parede.

Segurei minha barriga, pronta para o ignorar e seguir meu caminho, mas novamente ouvi a voz dele.

— Você não parece bem, Vamos, eu levo. — disse ele, apontando para uma caminhonete.

— N-não precisa. — me virei para começar a caminhar.

Ele apagou o cigarro e se aproximou de mim. 

Levantei o olhar, tremendo internamente, mas diferente dos olhares nojentos que os outros clientes me davam, o olhar dele era suave, e tinha um sorriso gentil.

 — Vamos, eu deixo a porta destravada o caminho todo de isso dizer você se sentir mais segura, mas você não pode andar sozinha a essa hora e nesse estado — insistiu ele.

Era arriscado aceitar ajuda de um estranho àquela hora, mas eu não tinha escolha. A dor em meu ventre ficava cada vez mais insuportável.

— t-tudo bem — falei suspirando, rezando para que nada acontecesse.

Ele me ajudou a entrar no carro, e logo partiu.

 Assim que chegamos ao hospital, ele me levou até a entrada e gritou por ajuda.

logo fui atendida pela médica que cuidava de mim e da minha gravidez.

Ela já sabia das complicações da minha gravidez então providenciou o meu atendimento imediato, e conseguiu me estabilizar como sempre. 

Eu devia a minha vida e a vida da minha filha a ela, e nunca seria capaz de pagar tudo que ela tinha feito por mim desde que descobri que minha gravidez era de risco.

Após ser atendida, fui levada numa maca até o quarto comum onde tinham mais 7 pacientes.

Eu apenas olhava para parede branca do hospital. Não estava pensando em nada específico, apenas contemplando minha miséria.

— Julia. — ouvi a voz da médica que se aproximou e se sentou na ponta da cama me encarando com o olhar preocupado e de pena.

Eu apenas baixei o olhar já sabendo o que ela diria.

—Eu já disse para você tomar mais cuidado, para descansar e não se cansar, mas pelo que vejo você não está seguindo com as recomendações, o seu caso é grave e fica cada vez mais grave, ainda mais no final da gravidez. Eu sei que você precisa trabalhar, mas se está trabalhando para sua filha, de que vai adiantar todo esse trabalho e sacrifício se no final você perder ela?–

"Perder a minha filha?" Ao ouvir aquelas palavras apertei os lençóis com medo e uma lágrima me fugiu.

 Minha filha era tudo que eu tinha, eu já não tinha mais ninguém, nem minha avó, nem Leonardo, ela era a única lembrança da época em que fui feliz, e tinha esperanças e sonhos na vida.

A médica suspirou. — Descanse aqui esta noite, eu vou ficar de olho em você, e se estiver melhor, amanhã eu vou dar uma alta e vou passar um atestado para o seu chefe! Você tem de ficar em repouso até o dia do parto, entendeu? — disse ela como uma mãe dando bronca em sua filha teimosa.

Apenas confirmei com a cabeça e mais lágrimas caíram de meus olhos. — Muito obrigada Doutora. 

Ela sorriu terna para mim, e passou a mão em meus cabelos num gesto carinhoso.

— descanse.

Vi ela sair e apenas a encarei pensando em como seria ter uma mãe que cuidasse de mim naquele momento. Eu não pude ter uma, mas a minha filha com certeza teria. Eu cuidaria dela e não deixaria que nada acontecesse com ela, protegeria ela com minha vida.

Levei a mão até meu ventre ainda levemente dolorido o acariciando, enquanto tentava dormir, mas logo ouvi algo na TV que chamou minha atenção.

"Os grupos Almonte e Mendes anunciam a sua fusão após o casamento entre os filhos, Leonardo Almonte, e Carla Mendes após o anúncio da chegada da primeira filha do casal"

Ao ouvir aquele nome, rapidamente me virei olhando para pequena TV na parede do hospital, e meu coração deu uma forte e dolorosa batida ao ver o homem parado ao lado da mulher grávida, acenando para todos, em seu terno caro, porte de herdeiro importante, vários guarda-costas a volta dele, e a mão dele segurando a base das costas da mulher grávida ao lado dele, ajudando ela a descer as escadas cuidadosamente.

Eu não podia acreditar no que estava vendo, não podia ser ele...

"L-Leonardo?"

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App