Mundo de ficçãoIniciar sessão5 anos depois...
POV LEONARDO
Eu estava no escritório da mansão, em reunião com meu assistente e alguns diretores da empresa que estavam online.
Raramente ia pessoalmente à empresa; quase tudo era resolvido dali.
No meio da conversa, ouvi batidas suaves na porta. Já imaginava quem era.
Gabriel levantou-se e abriu. Uma menina de cinco anos surgiu no vão da porta, vestindo pijama e segurando um urso de pelúcia.
Meu coração aqueceu imediatamente. A expressão e ombro antes tensos, relaxaram automaticamente.
— Pode entrar, princesa…
Dália caminhou até mim em silêncio.
Levantei-me, peguei-a no colo e beijei seu rosto.
— Está com sono?
Ela apenas encostou a cabeça em meu peito.
Acariciei seus cabelos com carinho.
— Desculpe… o papai trabalhou demais hoje e perdeu a hora.
Olhei para Gabriel, depois para a tela do computador, onde os rostos da reunião ainda aguardavam.
— Encerramos por hoje.
Informei e saí da sala, com minha filha nos braços.
Caminhei pelos corredores silenciosos até o quarto dela. Coloquei-a na cama e ajeitei a coberta.
— Que livro você quer ler hoje?
Perguntei-lhe indo até a estante, escolhi alguns livros e voltei.
— Qual deles?
Ela analisou com atenção e apontou para um.
Sorri com sua escolha óbvio.
— A história da princesa feliz outra vez?
Sentei-me ao lado dela, me encostando a cabeceira.
— Era uma vez…
Contei a história fazendo vozes engraçadas, exagerando nas expressões, arrancando dela aquele pequeno sorriso que valia mais do que qualquer fortuna que eu possuísse.
Quando terminei, percebi que ela já dormia profundamente.
Ajeitei-a no travesseiro e beijei sua testa. Fiquei ali, observando seu rosto sereno, enquanto meu peito se apertava, pensando no que passava na cabecinha dela.
Quando ela tinha dois anos, algo aconteceu.
Algo que nunca consegui apagar da memória dela.
Desde então, Dália se fechou para o mundo. Não falava, não chorava, não brincava, não interagia com ninguém, exceto comigo.
Passei por especialistas, terapias, médicos renomados. Nada funcionou.
Três anos tentando alcançá-la, mas ela continuava igual a aquele dia em que tudo aconteceu.
Inclinei-me e beijei seu rosto novamente.
— Boa noite, minha princesa.
Saí do quarto e voltei ao escritório. Gabriel ainda estava lá.
Sentei-me, cansado, e suspirei.
— Abra novas entrevistas para babá.
Ele assentiu, aguardando instruções.
— Não quero currículos impecáveis, diplomas caros ou formações extravagantes. Já tentamos isso. Nenhuma conseguiu fazê-la se abrir.
Inclinei-me sobre a mesa.
— Dália não precisa apenas de alguém qualificado. Precisa de carinho, ternura, uma presença feminina e materna, talvez assim esse vazio nela possa ser preenchido. A Vanda é a única mulher com quem ela tem contacto, mas ela não tem jeito com crianças.
Respirei fundo.
— Quero alguém que não veja minha filha como trabalho, mas como uma criança que precisa de amor.
Levantei-me, pensativo. Então a ideia veio.
— Centros de acolhimento infantil.
Gabriel franziu a testa.
— Centros de acolhimento?
— Sim. Lugares onde há pessoas que cuidam de crianças por vocação. Voluntárias que amam o que fazem. É disso que precisamos.
Olhei diretamente para ele.
— Envie o anúncio para todos os centros do país. Peça que selecionem apenas candidatas com esse perfil: alguém que ama crianças, que as crianças a amam, alguém com um grande coração materno, e com muito amor por crianças.
— Sim, senhor.
Voltei a me sentar.
Tinha que dar certo.
Em algum lugar, alguém seria capaz de trazer minha filha de volta.
.....
POV JÚLIA
Cinco anos, cinco anos sem minha filha, e eu ainda estava ali, sentada na cama, segurando algumas das roupinhas que comprei durante a gravidez. Já tinha doado a maioria, mas guardei algumas. Às vezes, fechava os olhos e fingia que ela ainda estava ali, vestindo aquelas roupas...
— Júlia!
Ouvi a voz familiar e as batidas na porta.
Era Joaquim, o homem que tinha me ajudado a ir no hospital naquela noite, que me levou do hospital para casa quando perdi minha bebê, e que cuidou do enterro da minha filha.
Ele tinha se tornado um irmão para mim, e como sempre, todas as manhãs ele vinha até a minha casa para me ver, um hábito que ele tinha desenvolvido durante a época em que perdi a minha filha e fiquei deprimida, não saía de casa, não comia, apenas ficava deitada na cama abraçada as roupinhas que tinha comprado para ela, e que ela nunca as usou.
Se não fosse por ele, naquela época… eu talvez não estivesse mais aqui.
Abri a porta, a lá estava ele, sorrindo, segurando uma cesta com frutas, leite, queijo e pão, tudo do rancho dele.
— Bom dia! Trouxe o café da manhã. — disse ele, sorrindo largamente.
— Joaquim, você não precisa fazer isso todos os dias…
— Preciso, sim. Você ainda está magra demais.
Sorri de leve e dei espaço para ele entrar.
Tomamos o café conversando sobre assuntos simples do vilarejo. Depois, como sempre, ele insistiu em me levar ao trabalho.
— Venho buscar você na saída! — gritou ele.
— Não precisa!
— Não foi uma pergunta!
Ele partiu na caminhonete enquanto eu sorria.
Entrei pelo portão do abrigo onde trabalhava há quatro anos.
Foi ali que comecei a me reconstruir.
Eu não podia cuidar da minha filha. Mas podia cuidar de outras crianças que precisavam de muito amor, carinho e cuidados.
— Titia Júlia!
Entrei pelo portão, adentrando no abrigo e centro de acolhimento infantil onde trabalhava há 4 anos.
Joaquim tinha me levado a esse lugar quando estava me recuperando da perda da minha filha, e ver tantas crianças abandonadas ou com mães sem condições de as criar, foi um dos pilares que me ajudou a me levantar.
Eu não podia mais cuidar da minha filha, mas podia cuidar de várias outras crianças sem calor materno, então passei a ficar naquele lugar de manhã até ao anoitecer, ou fazia turnos noturnos também pois preferia ficar ali cercada daqueles anjinhos, que voltar para minha casa fria.
–Titia Júlia!!!– o grupo de crianças correu até mim e meu rosto se encheu com um sorriso caloroso enquanto me agachava, e recebi os vários abraços e beijinho daquelas lindas criaturas.
–Titia Júlia, eu fiz um desenho para você olha.– Disse Ana, uma garotinha de 4 que tinha sido abandonada ainda bebê.
–Essa sou eu? Nossa está muito lindo meu amor – respondi recebendo o desenho.
–Titia Júlia, eu já fiz o meu dever todinho!– disse Mário, o garotinho de 7 que foi tirado de seus pais abusivos.
–é mesmo? Espero que tenha feito direitinho–
–Titia Júlia olha, o meu dente caiu.– disse Maria, a gotinha de 6 anos que tinha sido deixada ali pela mãe que não tinha condições, mas ainda assim vinha a visitar uma vez a outra.
–Olha, temos aqui um grande buraquinho, mas não se preocupe que logo logo vai crescer–
Respondi sorrindo para eles e fui atendendo os outros perdidos.
–Júlia, pode vir até a minha sala?– perguntou a diretora do centro se aproximando.
–Crianças, vão para sala que eu já vou ter com vocês, hoje vamos ter aula de artes!–
–YEEEIII!!!– As crianças comemoraram e saíram correndo para sala.
–Não coram!– os alertei mesmo sabendo que era em vão.
— Elas amam você — disse a diretora, aproximando-se.
— E eu amo elas. Elas salvaram minha vida.
— Por isso mesmo acho que você é perfeita.
— Perfeita para quê?
— Venha.
Fomos até a sala dela. Ela me entregou o tablet, e olhei para tela onde estava aberto um email.
Anúncio: Procura-se babá para cuidar da filha da família Almonte.
Meu coração disparou, minhas mãos começaram a tremer.
Família Almonte...
— Q-que família Almonte? — perguntei, receosa.
— A única notável que existe no país. Enviaram para todos os centros. Querem alguém que saiba lidar com crianças e que tenha muito amor por elas. E, nesse quesito, não há ninguém melhor que você, então eu vou enviar você.
Me levantei bruscamente da cadeira visivelmente nervosa.
—O que foi? Algum problema? Está passando mal? — perguntou ela, preocupada.
— e-eu... Eu preciso ir ao banheiro. — Sai da sala quase correndo deixando ela ainda mais preocupada.
Cheguei ao banheiro, e abri a torneira jogando água em meu rosto.
Almonte. Leonardo Almonte. filha. babá.
Aquelas palavras não paravam de passam pela minha cabeça. Ele tinha uma filha, enquanto eu fiquei de braços vazios após perder a minha, ele continuou criando a filha dele e tendo uma vida feliz, a vida que a minha filha nunca pode ter por culpa dele.
Cravei minhas unhas contra a pia com raiva, aquela raiva que sempre guardei durante todos aqueles anos.
Olhei para o meu reflexo no espelho e me lembrei da promessa que tinha feito 5 anos atrás no túmulo da minha filha.
Aquela era a oportunidade perfeita para eu vingar a morte da minha filha e dar um descanso adequado a alma dela.
Enxuguei meu rosto, e saí do banheiro determinada.
Bati a porta da sala da diretora, e entrei após a autorização.
–Júlia, você está bem? Fiquei preocupada, está passando mal?– perguntou ela preocupada.
–Eu estou bem.– respondi e forçei um sorriso em meu rosto. –Eu aceito a proposta, eu vou trabalhar como a babá da filha dos Almonte–
Respondi decidida mascarando meu ódio e desejo de vingança debaixo do sorriso.
"Leonardo, você se esqueceu da nossa filha por todos esses cinco anos. Mas eu vou garantir que você jamais se esqueça dela outra vez, eu vou acabar com a sua vida e família perfeita, eu juro em nome da minha filha que você tirou de mim!"







