Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV LEONARDO
Acordei com a visão embaçada, vendo apenas clarões brancos. Tentei me mover, mas todo o meu corpo estava pesado e dolorido, como se tivesse sido completamente triturado.
Logo ouvi vozes que soavam distantes, como se estivessem debaixo de água.
— Ele acordou! — disse uma voz feminina.
No meu estreito campo de visão, surgiu o rosto de uma mulher de meia-idade, ao lado dela, um homem um pouco mais velho, com alguns fios grisalhos.
— Você finalmente acordou — disse o homem, sua voz soando contente, apesar do leve sorriso contido no rosto.
Fiz um esforço para me sentar, com a ajuda de um enfermeiro.
Olhei ao redor e notei que estava em um quarto privado de hospital. Mas não reconhecia nenhum daqueles rostos.
— Senhor Leonardo, que bom que acordou — disse o homem de jaleco e estetoscópio, aproximando-se da cama. — Como se sente?
— Dolorido — respondi automaticamente.
— Isso é normal. Lembra do que aconteceu?
— Eu… — tentei puxar na mente a última coisa que estava fazendo.
Nada.
Forcei-me a procurar memórias mais antigas. Qualquer informação.
Nada.
Minha mente era um completo vazio. Eu não conseguia me lembrar de absolutamente nada. Nem sequer… do meu nome.
Olhei ao redor, confuso e em pânico.
— Eu… eu não consigo me lembrar de nada. O que… o que aconteceu? — perguntei, encarando os três em busca de alguma explicação.
— Como esperado — disse o médico, com voz calma. — O senhor sofreu um acidente de carro. Houve um impacto forte na região da cabeça, principalmente na lateral, perto do lobo temporal.
Eu apenas o encarei, sem entender quase nada do que ele dizia.
— Essa região do cérebro é muito importante para as memórias — ele continuou, falando devagar. — Especialmente as memórias da sua própria vida. Seu nome, sua história, as pessoas que conhece… tudo isso chamamos de memórias autobiográficas.
Engoli em seco.
— Então… eu perdi minha memória?
— Sim. — Ele assentiu. — No momento, o senhor está com amnésia. Isso significa que seu cérebro sofreu um trauma e está tendo dificuldade para acessar as lembranças antigas.
— Eu… não lembro nem do meu nome — murmurei, sentindo-me confuso e perdido.
— Isso é coerente com o tipo de lesão que o senhor sofreu — respondeu ele, mantendo o tom tranquilo. — A parte do cérebro que ajuda a organizar sua identidade e suas experiências pessoais foi afetada. Mas é importante dizer uma coisa: o senhor não perdeu quem é. As informações ainda estão no cérebro. Só não estão acessíveis agora.
Franzi a testa.
— Quer dizer que… pode voltar?
— Em muitos casos, sim. — Ele cruzou as mãos à frente do corpo. — Às vezes a memória retorna aos poucos. Às vezes volta com estímulos, como fotos, vozes ou lugares conhecidos. E, em alguns casos, pode levar mais tempo. Cada cérebro reage de uma forma.
Passei a mão pelo rosto, sentindo a confusão aumentar.
— Não se preocupe, querido. Nós vamos ajudar você a se lembrar de tudo — disse a mulher ao meu lado, com um sorriso terno.
Olhei para ela, confuso.
— E… quem é a senhora?
Ela apertou minha mão.
— Elisabete Almonte, Eu sou sua mãe.
— E eu sou seu pai, Adriano Almonte — acrescentou o homem ao lado dela, sorrindo.
Olhei para os dois, tentando me lembrar de algo. Mas eram completos estranhos para mim.
— Pai? — perguntei, hesitante.
— Sim. Você é nosso filho, nosso primogênito. Seu nome é Leonardo Almonte. Herdeiro do Grupo Almonte — explicou ele.
— Você foi tirado de nós ainda bebê. Houve uma troca no hospital e, quando descobrimos, já era tarde demais — disse minha mãe, baixando o olhar, como se relembrasse algo doloroso.
— Passamos os últimos 23 anos procurando por você. Dias atrás, nossos investigadores finalmente encontraram uma pista. Não queríamos criar falsas esperanças, então fizemos um teste de DNA sem que você soubesse. E deu positivo.
Ele pediu um papel ao médico e me entregou.
“Teste de compatibilidade de DNA”
Resultado: 99,99% compatível.
— Então chamamos você para cá. Mas, infelizmente, você sofreu um acidente ao sair do aeroporto.
— Você é o nosso filho perdido! — minha mãe me abraçou, começando a chorar.
Olhei novamente para o teste, depois para eles. Suspirei internamente e a abracei de volta. Logo, meu pai se juntou a nós.
Eu não tinha ferimentos graves, então logo fui levado para casa.
Uma mansão imponente, elegante e luxuosa.
Herdeiro de uma família poderosa. Aquela era, supostamente, a minha vida.
Nos dias seguintes, meus pais me levaram a círculos sociais, apresentando-me como o filho perdido que havia regressado. Meu pai me levava constantemente à empresa, dizendo que eu precisava me acostumar, pois seria o futuro dono de tudo aquilo.
Tendo estudado Administração, segundo eles. não demorei a me familiarizar com o ambiente corporativo.
Mesmo sem lembrar dos últimos 23 anos da minha vida, aquelas informações, gráficos e relatórios pareciam estranhamente familiares. Em poucas semanas, já estava trabalhando ao lado do meu pai.
— Você é realmente um Almonte! — disse ele, batendo em meu ombro após minha apresentação na sala de reuniões. Todos bateram palmas, elogiando-me, como sempre, era como se eu realmente tivesse um dom para aquele negócio.
Certa noite, meus pais me levaram para um jantar. Isso já era comum, mas naquela ocasião havia outra família nos esperando à mesa.
Um homem, uma mulher de meia-idade e uma jovem de beleza notável.
— Leonardo, esta é Carla. Sua noiva — disse meu pai.
Fiquei em choque.
— Noiva? — perguntei, confuso.
— O noivado foi arranjado antes mesmo de vocês nascerem. Prometemos que um dia nossos filhos se casariam, formando uma grande parceria entre nossas empresas.
Franzi ainda mais o cenho. Uma ideia tão antiquada ainda existia?
Carla, porém, não parecia incomodada. Sorriu e levantou-se, estendendo a mão.
— Muito prazer. Eu sou Carla.
Segurei sua mão de forma cortês e beijei-lhe o dorso.
— O prazer é meu. Leonardo Almonte.
Ela sorriu lindamente, olhando para mim com evidente interesse, o que me deixou um pouco desconcertado.
O jantar decorreu sem incidentes. Depois, nossos pais inventaram um pretexto para que caminhássemos sozinhos pelo jardim.
Conversamos, nos conhecendo melhor. Ela parecia gentil e não demonstrava incômodo algum com a ideia do casamento arranjado.
— Então você realmente não se importa? — perguntei.
— Cresci sabendo que tinha um noivo. No começo, não gostei da ideia. Mas depois de ver você hoje… acho que foi a melhor decisão que meus pais já tomaram por mim.
Nossos olhares se cruzaram.
— Ainda assim, temos apenas 23 e 22 anos. Você não acha um pouco…?
Arregalei os olhos quando senti seus lábios nos meus, em um beijo intenso.
Hesitante, e sem querer constrangê-la rejeitando-a, segurei sua cintura e correspondi ao beijo.
A partir daquele dia, começamos a sair juntos em encontros. Logo ela organizou uma festa de boas-vindas para mim. E naquela noite, ficamos juntos pela primeira vez.
Eu não sabia explicar exatamente o que sentia por ela. Ela era linda, isso era inegável. Mas não podia dizer que era amor. Tudo estava acontecendo rápido demais, mais do que eu conseguia acompanhar.
E então veio a notícia.
— Eu estou grávida — Carla disse, com lágrimas nos olhos.
Olhei para o teste, e meu corpo se tensionou.
— E-eu não sei o que fazer… minha carreira… nós nem nos casamos ainda… e esse bebê…
— Ei, calma. Eu estou aqui.
Abracei-a para acalmá-la.
— Vamos enfrentar isso juntos. Você não está sozinha. Eu vou cuidar de tudo. Eu prometo — falei, sorrindo enquanto enxugava suas lágrimas.
Carla sorriu e me abraçou de volta.
Logo contamos aos nossos pais, que reagiram melhor do que eu esperava e começaram imediatamente a planejar o casamento.
Olhei para meu reflexo no espelho.
Um filho a caminho. Prestes a me casar. Herdeiro de um grande grupo milionário.
Minha vida era o que muitos chamariam de perfeita.
Mas, por alguma razão, eu sentia que não pertencia a aquilo tudo, sentia que algo estava faltando em mim.
Como se eu tivesse esquecido algo
muito importante.
Algo perdido entre as memórias apagadas do meu passado.
Então, decidi que buscaria o que era aquilo, eu queria conhecer meu passado, e encontrar aquilo que perdi.







