CAPÍTULO 2: Abandonada

Nos dias seguintes, eu apenas procurava desesperadamente por qualquer informação sobre Leonardo. Mas tudo o que eu e todos os outros sabíamos, era que ele tinha ido para a capital. Ninguém sabia o nome da empresa, a localização, nada. Era como se ele tivesse simplesmente desaparecido.

A universidade não deu muita importância, dizendo que era normal as pessoas irem para a capital, conseguirem um bom emprego e não quererem voltar para cidades pequenas. E todos pareciam concordar que aquele era o caso, que Leonardo simplesmente tinha ido embora e deixado tudo para trás.

Mas eu não. Eu me recusava a acreditar que ele faria algo assim. Eu conhecia Leonardo. Ele jamais faria aquilo. Eu estava grávida, esperando um filho dele. Namorávamos havia dois anos. Ele nunca me abandonaria. Nunca.

Um mês se passou. Depois dois. E então três.

Logo chegaram os exames, e com eles, a notícia óbvia: eu havia falhado.

Tinha reprovado em todos. Minhas notas não alcançavam a média necessária.

Pensei em todas as noites de sono perdidas por causa da preocupação e da angústia que me consumiam naqueles dias procurando por Leonardo. Eu havia negligenciado completamente os estudos, trocando os livros por sites de pessoas desaparecidas, tentando encontrar qualquer pista sobre Leonardo.

Quando me dei conta, minha barriga já começava a aparecer. Meu corpo, magro pela falta de alimentação adequada, fazia com que ela ficasse ainda mais evidente. Os casacos grossos já não conseguiam escondê-la.

— Júlia, estão chamando você na sala do diretor — disse minha colega de quarto, com uma expressão triste, como se já soubesse do que se tratava.

Eu também sabia. Era impossível continuar escondendo.

Bati à porta da sala e entrei após ouvir a autorização.

O diretor da universidade e minha professora orientadora estavam sentados nos sofás. Seus olhares rígidos e carregados de decepção desceram até minha barriga, parcialmente coberta pelo casaco.

Baixei os olhos, envergonhada, e me sentei de frente para eles.

— Imagino que você já saiba por que está aqui, Júlia — disse o diretor, com uma voz que fez meu corpo estremecer.

— Suas notas no último exame foram um completo fracasso. Você sequer chegou perto da média necessária. E sabe muito bem que, na sua condição de bolsista, o único requisito para manter a bolsa é garantir que suas notas permaneçam acima da média.

A voz dele era rígida, sem espaço para contestação. Eu apenas ouvia, de cabeça baixa.

— Você sempre foi uma aluna exemplar: inteligente, ativa, participativa. Levando isso em consideração, podemos propor ao conselho que lhe conceda uma nova chance a você. Mas... — ele fez uma pausa e olhou para minha orientadora.

— Você terá de fazer uma escolha, Júlia. Na sua condição, não pode continuar no dormitório. Isso afetaria ainda mais seus estudos, fazendo sua média cair novamente. Então, se quiser uma segunda chance, se quiser permanecer na universidade e continuar estudando, terá de fazer um aborto.

Meus olhos se ergueram imediatamente, marejados de lágrimas.

— O quê? — perguntei, incrédula.

— Essa é a única solução, Júlia. Se você quer continuar com a bolsa, terá de interromper a gravidez.

A sala mergulhou em silêncio.

Olhei para minha barriga já formada e uma lágrima escorreu pelo meu rosto.

— Vamos ser práticos — continuou o diretor, com tom sério. — Você não tem boas condições de vida. Depende dessa bolsa para estudar e ter um futuro. Ainda é jovem, pode engravidar novamente no futuro. Mas, se fizer a escolha errada agora, poderá arruinar sua vida para sempre.

Ele suspirou antes de continuar:

— Você não teve um pai. Eu tenho uma filha. E, se ela estivesse na sua situação, eu faria a melhor escolha por ela. E a melhor escolha é priorizar os estudos e o futuro. Então...

— Não! — respondi com firmeza, finalmente erguendo o olhar para eles.

— Eu não vou tirar o meu bebê.

— Júlia... — a professora tentou intervir, mas eu a interrompi.

— É uma vida que está dentro de mim! Como eu olharia para meus futuros filhos sabendo que tirei a vida do irmão deles? Sabendo que podia ser um deles? Não. Eu não vou interromper essa gravidez.

O olhar do diretor se endureceu, carregado de raiva. Mas eu não vacilei. Protegeria meu bebê até o fim.

— Você vai perder a bolsa! Será expulsa do dormitório! Será uma mãe solteira que terá de trabalhar sob sol e chuva para sustentar essa criança. É isso que você quer? Jogar seu futuro fora?!

Limpei as lágrimas e me levantei.

— Eu já disse. Não vou tirar meu bebê. Essa é minha decisão final.

Vi a decepção estampada nos rostos deles, mas não me deixei abalar. Minha decisão estava tomada.

Voltei ao dormitório, fiz minhas malas e saí.

Todos me observavam enquanto eu caminhava para fora do campus. Os olhares dos colegas e amigos variavam entre pena e julgamento.

“Isso é culpa dela.”

“Ela foi irresponsável. Como pôde engravidar enquanto estudava?”

“Ganhou uma bolsa e fez isso? Que falta de juízo.”

“A mulher é dona do próprio corpo. Ela fez porque quis.”

“Está apenas colhendo o que plantou.”

“Devia ter se cuidado. Agora perdeu tudo.”

Cada uma daquelas frases era como uma lâmina rasgando meu peito já destroçado. Mas eu não podia negar que, em parte, eram consequência das minhas escolhas. Não havia ninguém a culpar além de mim mesma por tudo o que estava acontecendo.

Saí do campus e caminhei até o ponto de ônibus. Sentei-me no banco e fiquei encarando a estrada, sem saber para onde ir, sem saber o que fazer. Pensava na decepção que veria no olhar da minha avó, nas promessas vazias de Leonardo e no bebê inocente que crescia em meu ventre.

Em um momento, eu planejava um futuro ao lado do homem que amava. No seguinte, estava perdendo tudo o que havia conquistado.

Abandonada. Rejeitada. Enganada pelo homem que jurava me amar para sempre.

Era assim que tudo terminava, depois de eu ter acreditado nas palavras dele como uma tola.

Sozinha.

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