Mundo de ficçãoIniciar sessãoFernando
O pátio da fazenda está cheio, com balões brancos, rosa e lilás presos em arcos improvisados, mesas espalhadas sob a sombra das árvores com toalhas claras que minha mãe escolheu com cuidado. Ela optou pelo tema de unicórnios. Esse bicho tem sido uma das suas coisas favoritas ultimamente. Tudo está lindo, tem vida, tem cor, tem aquele tipo de alegria simples que não precisa de esforço para existir. Eu paro por um momento um pouco afastado, só observando. Os convidados começam a chegar, vozes se misturam, risadas surgem aqui e ali, e eu sinto algo que não vem de fora. Vem de dentro. Orgulho. Um orgulho calmo, mas firme, que se espalha no peito enquanto olho tudo isso e penso em como a minha vida virou de cabeça para baixo e, ainda assim, se encaixou de um jeito que eu nunca teria planejado. Cinco anos. Cinco anos desde que uma estranha, com um nome de duas letras, apareceu na porta do meu apartamento e colocou uma recém-nascida nos meus braços como se estivesse me entregando um destino que eu não pedi e que, no entanto, acabou sendo meu. Solto um suspiro leve, passando a mão pela barba, enquanto minha mente volta, quase sem pedir permissão, para aquela noite. Os flashes ainda existem, mesmo depois de tanto tempo, com fragmentos desconexos e borrados, mas suficientes. O gosto ruim da bebida misturada, a cabeça pesada, a falta de controle, a voz dela reclamando da camisinha estourada, algo que eu não me recordava, até me forçar a lembrar. E então, nada. Um vazio que meses depois voltou para me cobrar. Aquilo foi suficiente para eu nunca mais misturar bebida nenhuma, suficiente para eu aprender, da forma mais dura possível, que um passo em falso pode mudar tudo. E mudou. Eu nunca quis ser pai. Nunca sonhei com isso e nunca planejei. Relacionamento sério, namoro, já parecia um peso desnecessário, quanto mais casamento, filho responsabilidade desse tamanho. Mas a vida não pediu minha opinião, só aconteceu. E quando aquela mulher virou as costas e desapareceu, eu ainda tentei encontrá-la de todas as formas que consegui pensar. Mas como se encontra alguém que praticamente não existe na sua memória? Um nome incompleto de duas letras, nada concreto. Ela evaporou. E hoje eu sei que foi melhor assim. Eu me lembro daquele momento como se fosse agora: o telefone tremendo na minha mão enquanto eu ligava para os meus pais, completamente perdido, com uma criança chorando no fundo e um desespero que eu nunca tinha sentido antes. Foi um caos. Minha mãe se apaixonou no mesmo instante; eu nunca vou me esquecer a forma como ela olhou para a Sophia pela primeira vez, como se já conhecesse aquela criança desde sempre. Meu pai, mais racional como sempre, ficou feliz, claro, mas foi mais prático. DNA. Ele precisava de certeza. E, por mais absurdo que pareça, eu tive medo de dar negativo. Eu não entendia na época. Era um bebê, era responsabilidade, era o fim da liberdade que eu sempre valorizei, mas tinha alguma coisa ali, algo que crescia silencioso dentro de mim toda vez que eu a pegava no colo, sentia aquele cheirinho de bebê, que eu a via dormir. Eu já estava envolvido antes mesmo de qualquer confirmação. Quando o resultado saiu positivo, me lembro bem do alívio como se fosse agora, um peso saindo do peito que eu nem sabia que estava carregando. Foi ali que eu aceitei que minha vida tinha mudado e não teria volta. Decidi, naquele momento, que se era para ser assim eu ia ser o melhor pai que aquela menina poderia ter. Ela não ia sentir falta de nada, não ia crescer com um vazio. Eu ia dar tudo. E dei. Dou. Todos os dias. Meus pais foram além de qualquer expectativa. Descobri que Osmar e Rosana nasceram para serem avós. Eu sempre soube que eram bons, mas não imaginava que seriam tão incríveis como avós. Minha mãe virou completamente babona, presente e apaixonada. Meu pai, então, sempre mimando, hoje faz tudo que a Sophia pede. Às vezes, eu tenho que puxá-lo de volta para a realidade, senão ele a estraga sem nem perceber. Eles nunca me deixaram fazer o que eu queria quando criança, e agora obedecem a neta. O Renatinho, que era praticamente um moleque na época que ela chegou, assumiu um papel que eu não esperava ao ser um tio presente, protetor e completamente rendido por ela. Olho em volta mais uma vez e vejo a fazenda, a minha casa. Eu escolhi voltar para o lugar onde nasci, a fazenda Arvoredo, próxima a Morro Alto, uma cidade com uns trinta mil habitantes onde todo mundo se conhece, longe de Goiânia, de qualquer possibilidade daquela mulher reaparecer do nada, ou alguém próximo a ela querer levar a Sophia embora. Esse medo nunca foi embora completamente, eu só aprendi a conviver com ele. Mas aqui me sinto seguro. A plantação de soja e milho se estende além do que a vista alcança, resultado de uma vida inteira de trabalho do meu pai. Osmar construiu isso com as próprias mãos, com esforço e visão, e hoje dou continuidade. Não imaginei que assumiria tudo tão cedo, achei que teria mais tempo, mas a vida de novo decidiu por mim. E eu abracei. Hoje, eu cuido de tudo, desde o plantio, colheita, negociação até a logística. Cada detalhe. E, no meio disso tudo, ainda sou pai. E, por incrível que pareça, eu dou conta, porque ela vale tudo. Algumas vezes Renatinho me ajuda, mas já aceitei que meu irmão não quer o mesmo destino que o meu ou de meu pai. Talvez seja só a adolescência, uma fase de rebeldia, agora ele está com dezesseis anos e já falou mais de uma vez que tudo que mais quer é ir para longe de Morro Alto Até os dois anos da Sophia, minha mãe foi essencial. Se não fosse por ela, eu nem sei o que teria acontecido, mas agora olho para tudo isso e vejo que consegui. Que nós conseguimos. Meus pais podem descansar, viajar, viver um pouco do que sempre quiseram. Semana passada, estavam nos Lençóis Maranhenses, e eu nunca vi minha mãe tão feliz como quando voltou de lá. E ainda assim, ela fez questão de estar aqui, de organizar cada detalhe dessa festa, porque hoje é o dia da Sophia. E só de pensar nela, algo muda dentro de mim automaticamente. Eu nem percebo o sorriso que surge até que o sinto no rosto. Sophia. Eu escolhi esse nome porque foi exatamente isso que ela foi para mim: um amanhecer, uma luz em um lugar que eu nem sabia que era escuro. — Papai! A voz dela corta meus pensamentos antes mesmo que eu consiga procurar. Quando me viro, ela vem correndo na minha direção, com o vestido rodado balançando, cabelos loiros voando e os olhos brilhando. Peralta, nosso Blue Heeler de um ano, corre logo atrás, com uma gravatinha lilás no pescoço e um pequeno unicórnio preso nela. Eu rio baixinho, imaginando que foi obra da minha filha. Os dois são uma duplinha e tanto.






