Cinco

Fernando

Eu me abaixo no reflexo, abrindo os braços, e ela praticamente se j**a contra mim. O impacto é leve, mas cheio daquela energia que só criança tem, e eu a pego no colo com facilidade.

— Olha pra mim! — ela pede, segurando meu rosto com as mãozinhas pequenas, toda séria.

— Hm… deixa eu ver… — Finjo analisar, estreitando os olhos como se estivesse avaliando algo muito importante.

Ela prende a respiração, ansiosa.

— Papai, eu estou bonita?

Não seguro o sorriso. Ajusto melhor minhas mãos na cintura dela e giro uma vez, fazendo o vestido rodado abrir ao redor.

— Linda. Linda demais. Igual a uma princesa.

— É verdade? — Os olhos dela brilham na mesma hora.

— É a mais pura verdade.

Ela dá uma risadinha satisfeita e apoia a cabeça no meu ombro por um segundo.

— Eu gosto de ser princesa.

— E você é — respondo, passando a mão pelo cabelo dela com cuidado. — A princesa do papai.

Ela levanta o rosto de novo, me encarando com uma intensidade que às vezes me desmonta.

— Eu te amo, papaizinho. — Aquilo vem simples, direto e sempre acerta.

— Você é tudo que eu mais amo nessa vida — respondo sem pensar duas vezes, porque é a coisa mais verdadeira que eu já disse.

— Eu também! — ela reforça, como se precisasse deixar claro.

— Ah, que cena bonita. — A voz do Renatinho surge atrás de mim, carregada de implicância. — Mas eu não vejo a hora de todo mundo chegar pra eu poder atacar os doces sem a mãe ficar me beliscando.

Solto um riso pelo nariz, ajustando a Sophia no colo.

— Você é um saco sem fundo, Renatinho. E ainda consegue ser magro desse jeito. É magro de ruim.

— Inveja é feio, irmão.

— Não é inveja, Deus me livre ser magrelo assim. Eu amo meus músculos. — Mostro meu bíceps e dou um sorriso orgulhoso, e ele me mostra o dedo do meio discretamente.

— Titio Renatinho não é ruim! — Sophia se mete na conversa, séria, olhando para mim como se estivesse me corrigindo. — Não é magrelo também, não.

Renatinho coloca a mão no peito teatralmente.

— Tá vendo? Alguém sensato nessa família. Obrigado, princesa, por me defender.

Ela pensa por um segundo, franzindo a testa.

— Mas você é ruim quando não quer brincar de maquiagem comigo.

Eu não consigo segurar a risada e Renatinho faz uma careta.

— Maquiagem é coisa de menina, Sophia. Você tem que brincar com a vovó e Doralice dessas coisas.

— Renatinho! — A voz da minha mãe surge firme atrás dele, como um aviso imediato.

Ele se vira devagar, já sabendo que falou besteira.

— Que história é essa de coisa de menina? — ela continua, cruzando os braços. — Pensamento retrógrado desse jeito dentro da minha casa, não.

— Ih… — Ele coça a nuca, sem graça. — Foi mal. Não está mais aqui quem falou.

— Ainda bem.

— Eu vou ali ver se já posso beliscar alguma coisa — ele completa, recuando estrategicamente.

— Fica longe da mesa do bolo, rapazinho — minha mãe responde.

Balanço a cabeça, ainda rindo baixo, quando noto um movimento na entrada.

Augusto.

Ele vem com a Karoline ao lado, segurando a pequena Luz no colo, e o Alvinho já mais à frente, olhando tudo com curiosidade.

— Papai! São eles! — Sophia se agita no meu colo.

— Quer descer?

— Quero!

Eu a coloco no chão e, no segundo seguinte, ela já dispara.

— Alvinho! Luz! — Ela corre pelo gramado, com o vestido balançando e a alegria estampada em cada passo. E Peralta a segue.

Eu fico observando. Sempre fico.

— Você está bem? — Minha mãe encosta ao meu lado.

— Estou.

— Você está muito quieto.

Dou de ombros, ainda com os olhos nela.

— Não é nada, só… — Solto um suspiro leve. — A sensação de que ela está crescendo rápido demais.

Ela segue meu olhar, entendendo.

— E você tem medo de ela começar a perguntar mais sobre a mãe?

A pergunta me pega em cheio, porque já aconteceu. Algumas vezes. E toda vez eu conto a mesma história, que a mãe dela fez uma viagem para muito longe e que não vai voltar. Simples, mas nunca fácil. Porque toda vez que ela pergunta, alguma coisa dentro de mim trava com um medo irracional, mas constante, de não ser suficiente.

— Tenho. — Minha voz mais baixa e eu passo a mão pela nuca, respirando fundo. — Mas hoje não é dia para falar disso.

Aponto com o queixo na direção dela.

Sophia está sentada na grama, mexendo em uma caixa enorme que o Augusto trouxe. O Alvinho tenta ajudar, e a Karoline observa, sorrindo com Luz no colo. Augusto olha para mim e levanta a mão em cumprimento, então aceno de volta e minha mãe também. Eles começam a vir na nossa direção, mas antes que cheguem, ouço a voz do meu pai vindo de dentro da casa.

— Rosana!

— O que foi, Osmar? — minha mãe responde gritando, já revirando os olhos.

— Vem aqui um minuto! Não tô achando a camisa.

— Seu pai não consegue achar nada sozinho, não? — ela resmunga, já se virando. — Já vou!

Rio baixo, sabendo exatamente como isso vai terminar.

— Depois a gente conversa — ela me diz, antes de sair. — Diz para Karoline que já estou vindo.

— Vai lá. Está bem. — Volto o olhar para o gramado.

— Papai! — A voz da Sophia vem alta, animada.

Ela está tentando levantar a caixa, claramente grande demais para ela, até que o Alvinho ajuda.

Uma boneca com cabelo rosa, chamativo e enorme.

— Olha! Olha, papai! — Sophia dá pequenos pulos, incapaz de conter a empolgação.

Sinto o sorriso surgir sem esforço, o peito aquecendo daquele jeito que só ela consegue. E, por um instante, não existe passado, medo ou dúvida.

Só ela e esse amor absurdo que preenche tudo.

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