Mundo de ficçãoIniciar sessãoFernando
Eu me abaixo no reflexo, abrindo os braços, e ela praticamente se j**a contra mim. O impacto é leve, mas cheio daquela energia que só criança tem, e eu a pego no colo com facilidade. — Olha pra mim! — ela pede, segurando meu rosto com as mãozinhas pequenas, toda séria. — Hm… deixa eu ver… — Finjo analisar, estreitando os olhos como se estivesse avaliando algo muito importante. Ela prende a respiração, ansiosa. — Papai, eu estou bonita? Não seguro o sorriso. Ajusto melhor minhas mãos na cintura dela e giro uma vez, fazendo o vestido rodado abrir ao redor. — Linda. Linda demais. Igual a uma princesa. — É verdade? — Os olhos dela brilham na mesma hora. — É a mais pura verdade. Ela dá uma risadinha satisfeita e apoia a cabeça no meu ombro por um segundo. — Eu gosto de ser princesa. — E você é — respondo, passando a mão pelo cabelo dela com cuidado. — A princesa do papai. Ela levanta o rosto de novo, me encarando com uma intensidade que às vezes me desmonta. — Eu te amo, papaizinho. — Aquilo vem simples, direto e sempre acerta. — Você é tudo que eu mais amo nessa vida — respondo sem pensar duas vezes, porque é a coisa mais verdadeira que eu já disse. — Eu também! — ela reforça, como se precisasse deixar claro. — Ah, que cena bonita. — A voz do Renatinho surge atrás de mim, carregada de implicância. — Mas eu não vejo a hora de todo mundo chegar pra eu poder atacar os doces sem a mãe ficar me beliscando. Solto um riso pelo nariz, ajustando a Sophia no colo. — Você é um saco sem fundo, Renatinho. E ainda consegue ser magro desse jeito. É magro de ruim. — Inveja é feio, irmão. — Não é inveja, Deus me livre ser magrelo assim. Eu amo meus músculos. — Mostro meu bíceps e dou um sorriso orgulhoso, e ele me mostra o dedo do meio discretamente. — Titio Renatinho não é ruim! — Sophia se mete na conversa, séria, olhando para mim como se estivesse me corrigindo. — Não é magrelo também, não. Renatinho coloca a mão no peito teatralmente. — Tá vendo? Alguém sensato nessa família. Obrigado, princesa, por me defender. Ela pensa por um segundo, franzindo a testa. — Mas você é ruim quando não quer brincar de maquiagem comigo. Eu não consigo segurar a risada e Renatinho faz uma careta. — Maquiagem é coisa de menina, Sophia. Você tem que brincar com a vovó e Doralice dessas coisas. — Renatinho! — A voz da minha mãe surge firme atrás dele, como um aviso imediato. Ele se vira devagar, já sabendo que falou besteira. — Que história é essa de coisa de menina? — ela continua, cruzando os braços. — Pensamento retrógrado desse jeito dentro da minha casa, não. — Ih… — Ele coça a nuca, sem graça. — Foi mal. Não está mais aqui quem falou. — Ainda bem. — Eu vou ali ver se já posso beliscar alguma coisa — ele completa, recuando estrategicamente. — Fica longe da mesa do bolo, rapazinho — minha mãe responde. Balanço a cabeça, ainda rindo baixo, quando noto um movimento na entrada. Augusto. Ele vem com a Karoline ao lado, segurando a pequena Luz no colo, e o Alvinho já mais à frente, olhando tudo com curiosidade. — Papai! São eles! — Sophia se agita no meu colo. — Quer descer? — Quero! Eu a coloco no chão e, no segundo seguinte, ela já dispara. — Alvinho! Luz! — Ela corre pelo gramado, com o vestido balançando e a alegria estampada em cada passo. E Peralta a segue. Eu fico observando. Sempre fico. — Você está bem? — Minha mãe encosta ao meu lado. — Estou. — Você está muito quieto. Dou de ombros, ainda com os olhos nela. — Não é nada, só… — Solto um suspiro leve. — A sensação de que ela está crescendo rápido demais. Ela segue meu olhar, entendendo. — E você tem medo de ela começar a perguntar mais sobre a mãe? A pergunta me pega em cheio, porque já aconteceu. Algumas vezes. E toda vez eu conto a mesma história, que a mãe dela fez uma viagem para muito longe e que não vai voltar. Simples, mas nunca fácil. Porque toda vez que ela pergunta, alguma coisa dentro de mim trava com um medo irracional, mas constante, de não ser suficiente. — Tenho. — Minha voz mais baixa e eu passo a mão pela nuca, respirando fundo. — Mas hoje não é dia para falar disso. Aponto com o queixo na direção dela. Sophia está sentada na grama, mexendo em uma caixa enorme que o Augusto trouxe. O Alvinho tenta ajudar, e a Karoline observa, sorrindo com Luz no colo. Augusto olha para mim e levanta a mão em cumprimento, então aceno de volta e minha mãe também. Eles começam a vir na nossa direção, mas antes que cheguem, ouço a voz do meu pai vindo de dentro da casa. — Rosana! — O que foi, Osmar? — minha mãe responde gritando, já revirando os olhos. — Vem aqui um minuto! Não tô achando a camisa. — Seu pai não consegue achar nada sozinho, não? — ela resmunga, já se virando. — Já vou! Rio baixo, sabendo exatamente como isso vai terminar. — Depois a gente conversa — ela me diz, antes de sair. — Diz para Karoline que já estou vindo. — Vai lá. Está bem. — Volto o olhar para o gramado. — Papai! — A voz da Sophia vem alta, animada. Ela está tentando levantar a caixa, claramente grande demais para ela, até que o Alvinho ajuda. Uma boneca com cabelo rosa, chamativo e enorme. — Olha! Olha, papai! — Sophia dá pequenos pulos, incapaz de conter a empolgação. Sinto o sorriso surgir sem esforço, o peito aquecendo daquele jeito que só ela consegue. E, por um instante, não existe passado, medo ou dúvida. Só ela e esse amor absurdo que preenche tudo.






