Capítulo 6 - Surpresa

O caminho até o escritório de George pareceu mais longo do que o normal.

Marina segurava o volante com firmeza, mas seu coração batia acelerado. Não era medo. Era ansiedade, felicidade e aquela vontade de ver a reação do homem que amava.

Ela imaginava aquele momento.George levantando da cadeira surpreso.O sorriso dele ao vê-la.O abraço apertado.Talvez uma daquelas frases que ele sempre dizia e que ficavam guardadas no coração.Ela sorriu sozinha dentro do carro.

— Ele vai adorar. — murmurou Marina.

O prédio da empresa Castro surgiu diante dela, imponente, com suas grandes janelas refletindo a luz da tarde. Por alguns segundos, Marina ficou observando o lugar.

Aquele prédio fazia parte da história dela também.

Ela lembrava dos primeiros dias trabalhando ali, das dificuldades para conseguir uma oportunidade, das noites em que precisou provar sua capacidade e mostrar que não estava ali apenas por ser a noiva de George.

Marina conquistou seu espaço, e era isso que George sempre admirava nela.

Ela estacionou o carro e respirou fundo antes de sair.Olhou rapidamente para o espelho retrovisor.Ajeitou os cabelos.Passou um pouco de batom.Queria estar bonita para ele.Gostava de surpreendê-lo.Entrou no prédio segurando a bolsa junto ao corpo.

Alguns funcionários a reconheceram.

— Boa tarde, senhora Marina. — disse um funcionário, sorrindo.

— Boa tarde. — respondeu Marina.

Mesmo estando afastada para os preparativos do casamento, ela ainda era conhecida ali. Muitas vezes aparecia para ajudar alguém ou resolver alguma situação que precisava da sua experiência.

Caminhou até a recepção.

— O senhor George está? — perguntou Marina.

A recepcionista sorriu.

— Está sim, senhora Marina. Deseja que eu avise que a senhora chegou? — perguntou a recepcionista.

Marina pensou por alguns segundos, depois sorriu.

— Não. Quero fazer uma surpresa. — respondeu Marina.

A recepcionista sorriu discretamente.

— Claro.

Marina seguiu pelo corredor.

Cada passo parecia aumentar a expectativa.

Ela imaginava o rosto dele.

A felicidade.O abraço.

Sem saber que, naquele mesmo instante, a surpresa que preparava para George estava prestes a se transformar em algo que mudaria o rumo daquela história.

Dentro da sala de George, o clima era completamente diferente.Vilma permanecia próxima à mesa, olhando alguns papéis.Quando George disse que ela poderia já ir embora, ela encontrou o papel que ele estava procurando.Mas sua mente estava longe.Ela observava cada movimento dele.Ela sabia que George não seria conquistado facilmente.Então precisava criar uma situação.Algo que parecesse natural.Algo que deixasse uma marca.

— Senhor George, precisamos revisar este parágrafo antes da assinatura. — disse Vilma, aproximando-se.

George soltou um suspiro cansado.

— Coloque os documentos aqui. — respondeu George.

Vilma caminhou até a mesa.

Ao se aproximar, deixou uma caneta cair no chão de propósito.

— Perdão. — disse Vilma, abaixando-se rapidamente.

Ela pegou a caneta e, ao levantar, ficou próxima demais.

George percebeu.Seu rosto ficou sério.

— Vilma...

Antes que ele terminasse, ela fingiu perder o equilíbrio.Seu corpo encostou no dele.As mãos dela tocaram o peito de George.Por alguns segundos, o tempo pareceu parar.Mas não da forma que Vilma imaginava.George ficou imóvel, surpreso com a situação.E foi exatamente naquele momento que a porta se abriu.

Marina entrou.

O sorriso que carregava desapareceu.Ela parou.Completamente imóvel.Diante dos seus olhos, Vilma estava próxima demais de George.As mãos dela ainda estavam apoiadas nele.E a expressão em seu rosto não parecia a de alguém que havia simplesmente tropeçado, parecia satisfeita.

O coração de Marina apertou.Uma dor inesperada atravessou seu peito.

— George... o que está acontecendo aqui? — perguntou Marina, com a voz alterada.

George virou-se imediatamente.

Seu rosto mudou ao vê-la.

— Marina?

Vilma afastou-se lentamente.Não parecia culpada, estava tranquila como se tivesse ensaiado aquele momento.

— Senhora Marina, não é nada do que está pensando. — disse Vilma, com um sorriso discreto, saindo sala

Marina não respondeu.

Seus olhos permaneceram em George.Ela procurava uma explicação.Algo que fizesse aquela cena desaparecer.

— Amor, você chegou sem avisar. — disse George, aproximando-se.

Marina respirou fundo.

— Desde quando eu preciso avisar? Esse era o nosso combinado. — respondeu Marina.

A frase saiu mais fria do que ela gostaria.

George percebeu.

— Eu posso explicar.

— Então explique. — respondeu Marina.

Depois voltou para ela.

— Essa mulher já apareceu várias vezes na minha sala trazendo coisas que nem sempre precisavam ser entregues pessoalmente. Hoje eu já tinha pedido para ela ir embora. Eu não queria mais essa situação, mas no último instante algo não estava claro e a chamei para me explicar melhor.. — explicou George.

Marina ficou em silêncio.

— Mas por quê, George? — perguntou Marina.

A pergunta era simples.Mas carregava algo maior.Medo.Insegurança.

Pela primeira vez, ela sentiu que algo ameaçava a segurança que sempre teve no relacionamento deles.

George aproximou-se e segurou suas mãos.

— Porque ela está ultrapassando limites. Eu nunca dei abertura para isso. Você sabe quem eu sou. — disse George.

Marina queria acreditar.

Ela acreditava.Mas a imagem diante dela ainda estava presa em sua mente.Ela já havia visto Vilma de longe algumas vezes.E não podia negar.A mulher chamava atenção.Sua elegância.Sua beleza.Sua postura.

E, mesmo sem conhecer seus pensamentos, Marina entendia por que tantos olhares se voltavam para ela.Nos corredores da empresa, algumas pessoas comentavam.Mas a ética sempre foi uma regra clara na Castro.Fofocas e conversas pessoais não tinham espaço.Ali, o trabalho vinha primeiro.

Mesmo assim, Marina sabia que comentários existiam.E aquela cena tinha acabado de colocar uma pequena dúvida dentro dela.

— Marina, olhe para mim. Não é o que parece. — disse George.

Ela levantou os olhos lentamente.

— Então me diga o que é. — respondeu Marina.

George a abraçou.

Tentou confortá-la.Mas, pela primeira vez, Marina não conseguiu simplesmente se entregar ao abraço.Ela permaneceu imóvel.Pequena.Uma sensação desconhecida tomou conta dela.Não era falta de amor.Era o medo de perder algo que sempre acreditou ser seguro.George percebeu aquilo o atingiu profundamente.Ele nunca tinha visto Marina daquela maneira.Enquanto ela permanecia em silêncio, em outro lugar do prédio, Vilma caminhava pelo corredor.Com um pequeno sorriso escondido.A primeira dúvida havia sido plantada.E agora ela só precisava esperar.Porque, às vezes, uma única imagem é suficiente para mudar tudo.

E Marina ainda não sabia que aquela surpresa que preparou com tanto amor seria apenas o começo da maior prova de sua vida.

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