Capítulo 8 - Conversa sincera

O céu já começava a mudar de cor quando Marina estacionou o carro em frente ao pequeno café onde havia combinado de encontrar a mãe e Gorete.O entardecer tingia tudo com tons alaranjados, mas dentro dela não havia beleza alguma naquele momento.

Apenas inquietação.

Ela desligou o motor e permaneceu alguns segundos parada, segurando o volante com as duas mãos. Seus pensamentos giravam em círculos, insistindo em retornar à cena que presenciara no escritório de George.

Vilma caída contra ele.

As mãos dela apoiadas no peito de George.O sorriso discreto.Nada daquilo parecia natural.

Marina respirou fundo.

— Você está exagerando. — murmurou para si mesma.

Mas nem ela mesma parecia convencida.

Saiu do carro e caminhou em direção ao café. Assim que empurrou a porta de vidro, o aroma de café fresco e pão quente envolveu o ambiente, trazendo um conforto temporário.

Gorete já estava lá. Sua mãe não veio deixou espaço para filha e amiga ficarem mais à vontade e falarem de “coisas”. Falou para a amiga dizer à filha.

Sentada em uma mesa próxima à janela, mexendo distraidamente na colher dentro da xícara.

Quando viu Marina, abriu um sorriso largo.

— Até que enfim! Achei que tinha se perdido no caminho ou fugido com o George para a lua mel mel — brincou.

Marina tentou sorrir.

Mas Gorete percebeu na mesma hora.

O sorriso não chegou aos olhos.

E aquilo foi suficiente para a amiga entender que algo tinha acontecido.

— Ei. — disse Gorete, levantando-se. — O que aconteceu?

Marina aproximou-se e sentou-se devagar.

— Nada. — respondeu automaticamente.

Gorete cruzou os braços.

— Marina Almeida… eu te conheço desde quando você usava dois rabos de cavalo e brigava comigo por causa das  bonecas.

Marina soltou um pequeno suspiro.

Sabia que não adiantava esconder.

Nunca adiantava.

— Quando cheguei no escritório do George hoje — disse, finalmente.

Gorete arqueou as sobrancelhas.

— Fez uma surpresa para ele?

Marina assentiu.

— Sim, eu queria contar sobre o vestido.

— E aí?

Marina desviou o olhar para a mesa.

Seus dedos começaram a brincar com a borda do guardanapo.

— Eu vi uma coisa que não gostei.

Gorete ficou imediatamente séria.

— Que coisa?

Marina respirou fundo antes de responder.

— A Vilma.

O nome saiu carregado de peso.

Gorete franziu a testa.

— Aquela secretária?

Marina assentiu lentamente.

— Ela estava praticamente caída em cima dele.

Gorete abriu os olhos.

— Como assim?

Marina explicou, com calma, cada detalhe do que havia visto.

O tropeço, a proximidade, o jeito como Vilma se apoiou nele e o sorriso discreto.

Quando terminou, o silêncio entre as duas parecia mais denso que o vapor quente que subia das xícaras.

Gorete apoiou os cotovelos na mesa.

Pensativa.

— E o George? — perguntou.

— Disse que foi acidente.

Gorete inclinou a cabeça.

— E você acredita?

Marina hesitou.

Aquela era a pergunta mais difícil.

— Eu quero acreditar — respondeu, com sinceridade.

Gorete observou o rosto da amiga por alguns segundos.

Analisando cada expressão.

Cada dúvida.

Cada insegurança.

— Mas… você não está tranquila — concluiu.

Marina negou com a cabeça.

— Não sei o que pensar..

O garçom aproximou-se naquele momento, trazendo o café que Marina havia pedido.

Ela agradeceu em voz baixa.

Mas mal tocou na xícara.

Gorete segurou a mão dela por cima da mesa.

— Olha pra mim — disse.

Marina levantou os olhos.

— Você conhece o George melhor do que qualquer pessoa — continuou Gorete. — Ele já te deu motivo para desconfiar antes?

Marina pensou por alguns segundos.

As lembranças vieram rápidas.

Momentos felizes.

Conversas sinceras.

Promessas feitas olhando nos olhos.

— Não — respondeu.

Gorete assentiu lentamente.

— Então talvez o problema não seja ele.

Marina franziu a testa.

— E sim ela — completou Gorete.

Marina suspirou.

— Aquela mulher me dá arrepios.

Gorete soltou um pequeno sorriso.

— Então você não está louca.

Marina arqueou as sobrancelhas.

— Nunca achei que estivesse.

Gorete riu suavemente.

— Não estou dizendo isso… estou dizendo que tem gente que parece tranquila por fora, mas por dentro é um furacão esperando oportunidade.

Marina apoiou o queixo na mão.

Pensativa.

— Eu não gosto do jeito que ela se comporta com ele, George sempre mim contou tudo assim, espero.

Gorete estreitou os olhos.

— Mulher reconhece mulher.

Marina assentiu lentamente.

— E aquilo não foi um acidente — disse ela, com firmeza.

Gorete observou o rosto da amiga.

Percebia ali algo novo.

Algo que raramente via na Marina.

Insegurança.

E aquilo a preocupava.

— Escuta — disse Gorete — você vai se casar com o homem que ama. Não deixe uma terceira pessoa bagunçar sua cabeça antes do casamento.

Marina suspirou.

— Eu sei…

Mas ainda assim, o desconforto permanecia.

Depois de alguns segundos em silêncio, Gorete mudou o tom da conversa.

— Vocês só discutiram ou conseguiu falar com ele do vestido, que foi ali para compartilhar com ele a sua alegria?

Marina piscou algumas vezes.

Como se tivesse sido puxada de volta para um lugar mais leve.

— Mesmo sem vê-lo, George já imagina eu vestida de noiva. _ disse, finalmente.

E dessa vez…

Um sorriso verdadeiro apareceu.

Eu expliquei para ele alguns detalhes tipo:branco… com renda delicada nos ombros… e uma saia que parece flutuar quando eu ando.

Gorete abriu um sorriso animado.

— Já quero ver a cara do George!

Marina riu baixinho.

— Nem eu acredito que encontrei tão rápido.

— Sinal de que é o certo — disse Gorete.

Marina ficou em silêncio por um instante.

Pensativa.

Talvez fosse mesmo um sinal.

Mesmo quando tudo parecia perfeito.

Gorete inclinou-se sobre a mesa, com um sorriso mais leve, tentando mudar o clima.

— E o vestido… — disse ela — eu ainda não consigo esquecer como você ficou nele.

Marina piscou, como se fosse puxada de volta para um lugar mais seguro.

— Nem eu… — respondeu, com um sorriso tímido.

— Sério, Marina — continuou Gorete — aquele vestido parece que foi feito pra você. Quando você saiu do provador… eu quase comecei a chorar.

Marina riu de leve.

— Você sempre exagera.

— Não exagero, não — rebateu Gorete. — Se o George não chorar quando te ver, eu mesma dou um soco nele..

Dessa vez, Marina riu de verdade.

Um riso leve, sincero… que quebrou um pouco da tensão que ainda pairava sobre ela.

— Eu só espero que tudo dê certo — disse Marina, mais calma.

Gorete segurou a mão dela novamente.

— Vai dar.

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