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Capítulo 8- De volta ao meu refúgio

Pietro Cavallini

Voltar pra casa depois de um dia cheio na empresa era, em teoria, pra ser o momento de paz.

Mas paz não existia no meu dicionário desde que Fernanda Vasques virou minha vizinha.

E justo hoje, quando pensei que teria uma noite tranquila, dei de cara com ela no corredor.

Bêbada.

Apoiada na parede. Tentando acertar a chave na fechadura com a coordenação motora de um pinguim manco.

— Tá precisando de um GPS ou de um guincho? — perguntei, me aproximando com as mãos nos bolsos.

Ela virou, os olhos vermelhos, a maquiagem derretida, o batom borrado e um hálito misturado de vinho com frustração.

— Você... você de novo?! Por que homem é igual barata? Aparece quando a gente menos quer!

— Você tá linda — falei, rindo. — Um charme alcoólico e surtado.

— Vai se ferrar! Eu odeio os homens! TODOS!

Ela tropeçou na própria bolsa, caiu no batente da porta e gritou:

— EU VOU VIRAR UMA LEBISGA!

— Uma o quê?

— LEBISGA, PIETRO! Aquela coisa lá que não gosta de homem!

Ela girou o rosto como se tivesse vencido um debate internacional.

— Isso mesmo. Nada de homem. Cansei. Vão todos pro inferno com a pomba de vocês.

— Pomba? — ri. — Isso foi poético.

— Foi verdade!

Ela sacudiu a chave no ar.

— Agora me deixa, que eu tô tentando entrar na minha casa antes de vomitar em cima do capacho da minha tia rica!

— Dá isso aqui — peguei a chave da mão dela com delicadeza. — Vai acabar dormindo no corredor e acordando com o Banguela lambendo tua cara.

Abri a porta e a acompanhei até o sofá.

Ela caiu com o corpo mole, jogando a cabeça pra trás e murmurando:

— Eu sou uma anta emocional...

E começou a chorar.

Chorar de verdade.

— Filho da puta... — soluçou. — Ele me trocou pela minha prima. E agora ficam postando foto de casal feliz... PAZ, PIETRO! ELE DISSE QUE ELA É A PAZ DELE! E EU? SOU O QUÊ? A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL?

— Onde fica o café? — perguntei, olhando em volta. — Você tá precisando.

— Eu tô precisando é de um banho! — ela respondeu, se levantando num impulso cambaleante.

E foi aí... que a coisa ficou ainda pior.

Ou melhor.

Ou mais perigosa.

Porque enquanto andava até o corredor, ela foi tirando a blusa.

Depois o sutiã.

E em segundos, estava só de calcinha, com os seios à mostra, passando por mim como se eu fosse parte da mobília.

Minha boca secou.

Meu cérebro fritou.

E meu pau respondeu antes mesmo de eu entender o que tava acontecendo.

Ela parou na porta do banheiro, virou a cabeça e disse:

— O que foi, tarado? Nunca viu uma mulher antes?

— Já vi, mas não com essa pose de "tô pelada e que se foda o mundo".

Cruzei os braços, tentando manter o olhar no nível dos olhos.

— Confesso que é inspirador.

— Inspira essa aqui, ó! — ela mostrou o dedo do meio, virou as costas e entrou no banheiro batendo a porta.

Eu ri. Alto.

Essa mulher vai acabar comigo.

Fui até a cozinha. Achei o pó de café, coador, água. Fiz do jeito mais decente que consegui.

Quando ela saiu do banho, de roupão, com o cabelo pingando, parecia outra. Ainda zonza, mas mais calma.

Entreguei a xícara.

— Aqui. Toma. Não cura chifre, mas ameniza a ressaca.

Ela pegou devagar, bebeu um gole, suspirou.

— Obrigada.

Sentei na poltrona em frente e fiquei esperando.

E ela não demorou.

— Eu só... — começou, olhando pro café — ...eu só queria ser amada, sabe?

Fez uma pausa, com os olhos marejados.

— Só queria que alguém cuidasse de mim. Me olhasse como se eu fosse prioridade, e não uma fase. Eu só queria ser... suficiente.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

O coração apertou.

— Às vezes, o problema não é você.

— É o quê, então? O universo?

— Não.

Me levantei, andei até ela e disse baixinho:

— O problema é que tem homem burro demais pra enxergar o valor que tem sentadinho aí nesse sofá.

Ela me olhou.

Em silêncio.

E por um segundo... o caos parou.

Mas só por um segundo.

— Isso foi uma cantada?

— Foi. — sorri. — E se você deixar, eu ainda coloco açúcar no próximo café.

Ela ficou me encarando por uns segundos depois da minha cantada descarada com café.

E aí...

Ela sorriu.

De leve.

Quase tímido.

Uma curva sutil nos lábios manchados de vinho seco e mágoas.

Foi rápido.

Mas o suficiente pra me deixar totalmente sem defesa.

A risada dela, baixa, rouca, espontânea...

Porra.

Parecia uma música estranha que a gente ouve pela primeira vez e já sabe que vai viciar.

— Viu só? — falei, ainda olhando pra ela. — Quando você sorri sem xingar, o mundo agradece.

Ela abaixou os olhos, como se tentasse esconder o riso. Mas não deu tempo nem de curtir o momento porque, do nada, o sorriso sumiu.

A expressão dela mudou.

A cara fechou.

E o caos voltou com tudo.

— Espera aí... — ela ergueu o rosto, franzindo a testa. — Você tá tentando me conquistar ou tá com pena de mim?

— Eu tô sendo sincero — dei de ombros. — E também um pouco irresistível.

Ela se levantou de uma vez.

— Sai da minha casa, Pietro.

— O quê?

— Eu disse: sai. Vai. Agora.

Ela apontou pra porta com o mesmo dedo que me mandou "inspirar" antes do banho.

— Fernanda, eu só tô tentando ser...

— Gentil? — ela cruzou os braços, os olhos pegando fogo. — Gentil é abrir a porta. O que você fez foi me ver pelada, me dar café e ainda querer o Oscar de bom samaritano.

Eu respirei fundo, rindo por dentro.

— Certo. É isso que dá tentar ajudar uma bêbada emocionalmente instável.

Abri a porta, virei o rosto pra ela e sorri com malícia.

— Da próxima vez, eu deixo você dormindo no capacho.

— VAI À MERDA, PIETRO!

— Com prazer.

E saí rindo, ouvindo o PAM! da porta sendo fechada com a força de um furacão.

Subi o zíper da minha jaqueta, ainda com o gosto da risada dela grudado no peito.

A mulher é um tornado.

Mas por algum motivo, eu tava começando a querer viver dentro dele.

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