Mundo de ficçãoIniciar sessãoPietro Cavallini
Voltar pra casa depois de um dia cheio na empresa era, em teoria, pra ser o momento de paz. Mas paz não existia no meu dicionário desde que Fernanda Vasques virou minha vizinha. E justo hoje, quando pensei que teria uma noite tranquila, dei de cara com ela no corredor. Bêbada. Apoiada na parede. Tentando acertar a chave na fechadura com a coordenação motora de um pinguim manco. — Tá precisando de um GPS ou de um guincho? — perguntei, me aproximando com as mãos nos bolsos. Ela virou, os olhos vermelhos, a maquiagem derretida, o batom borrado e um hálito misturado de vinho com frustração. — Você... você de novo?! Por que homem é igual barata? Aparece quando a gente menos quer! — Você tá linda — falei, rindo. — Um charme alcoólico e surtado. — Vai se ferrar! Eu odeio os homens! TODOS! Ela tropeçou na própria bolsa, caiu no batente da porta e gritou: — EU VOU VIRAR UMA LEBISGA! — Uma o quê? — LEBISGA, PIETRO! Aquela coisa lá que não gosta de homem! Ela girou o rosto como se tivesse vencido um debate internacional. — Isso mesmo. Nada de homem. Cansei. Vão todos pro inferno com a pomba de vocês. — Pomba? — ri. — Isso foi poético. — Foi verdade! Ela sacudiu a chave no ar. — Agora me deixa, que eu tô tentando entrar na minha casa antes de vomitar em cima do capacho da minha tia rica! — Dá isso aqui — peguei a chave da mão dela com delicadeza. — Vai acabar dormindo no corredor e acordando com o Banguela lambendo tua cara. Abri a porta e a acompanhei até o sofá. Ela caiu com o corpo mole, jogando a cabeça pra trás e murmurando: — Eu sou uma anta emocional... E começou a chorar. Chorar de verdade. — Filho da puta... — soluçou. — Ele me trocou pela minha prima. E agora ficam postando foto de casal feliz... PAZ, PIETRO! ELE DISSE QUE ELA É A PAZ DELE! E EU? SOU O QUÊ? A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL? — Onde fica o café? — perguntei, olhando em volta. — Você tá precisando. — Eu tô precisando é de um banho! — ela respondeu, se levantando num impulso cambaleante. E foi aí... que a coisa ficou ainda pior. Ou melhor. Ou mais perigosa. Porque enquanto andava até o corredor, ela foi tirando a blusa. Depois o sutiã. E em segundos, estava só de calcinha, com os seios à mostra, passando por mim como se eu fosse parte da mobília. Minha boca secou. Meu cérebro fritou. E meu pau respondeu antes mesmo de eu entender o que tava acontecendo. Ela parou na porta do banheiro, virou a cabeça e disse: — O que foi, tarado? Nunca viu uma mulher antes? — Já vi, mas não com essa pose de "tô pelada e que se foda o mundo". Cruzei os braços, tentando manter o olhar no nível dos olhos. — Confesso que é inspirador. — Inspira essa aqui, ó! — ela mostrou o dedo do meio, virou as costas e entrou no banheiro batendo a porta. Eu ri. Alto. Essa mulher vai acabar comigo. Fui até a cozinha. Achei o pó de café, coador, água. Fiz do jeito mais decente que consegui. Quando ela saiu do banho, de roupão, com o cabelo pingando, parecia outra. Ainda zonza, mas mais calma. Entreguei a xícara. — Aqui. Toma. Não cura chifre, mas ameniza a ressaca. Ela pegou devagar, bebeu um gole, suspirou. — Obrigada. Sentei na poltrona em frente e fiquei esperando. E ela não demorou. — Eu só... — começou, olhando pro café — ...eu só queria ser amada, sabe? Fez uma pausa, com os olhos marejados. — Só queria que alguém cuidasse de mim. Me olhasse como se eu fosse prioridade, e não uma fase. Eu só queria ser... suficiente. Fiquei em silêncio por alguns segundos. O coração apertou. — Às vezes, o problema não é você. — É o quê, então? O universo? — Não. Me levantei, andei até ela e disse baixinho: — O problema é que tem homem burro demais pra enxergar o valor que tem sentadinho aí nesse sofá. Ela me olhou. Em silêncio. E por um segundo... o caos parou. Mas só por um segundo. — Isso foi uma cantada? — Foi. — sorri. — E se você deixar, eu ainda coloco açúcar no próximo café. Ela ficou me encarando por uns segundos depois da minha cantada descarada com café. E aí... Ela sorriu. De leve. Quase tímido. Uma curva sutil nos lábios manchados de vinho seco e mágoas. Foi rápido. Mas o suficiente pra me deixar totalmente sem defesa. A risada dela, baixa, rouca, espontânea... Porra. Parecia uma música estranha que a gente ouve pela primeira vez e já sabe que vai viciar. — Viu só? — falei, ainda olhando pra ela. — Quando você sorri sem xingar, o mundo agradece. Ela abaixou os olhos, como se tentasse esconder o riso. Mas não deu tempo nem de curtir o momento porque, do nada, o sorriso sumiu. A expressão dela mudou. A cara fechou. E o caos voltou com tudo. — Espera aí... — ela ergueu o rosto, franzindo a testa. — Você tá tentando me conquistar ou tá com pena de mim? — Eu tô sendo sincero — dei de ombros. — E também um pouco irresistível. Ela se levantou de uma vez. — Sai da minha casa, Pietro. — O quê? — Eu disse: sai. Vai. Agora. Ela apontou pra porta com o mesmo dedo que me mandou "inspirar" antes do banho. — Fernanda, eu só tô tentando ser... — Gentil? — ela cruzou os braços, os olhos pegando fogo. — Gentil é abrir a porta. O que você fez foi me ver pelada, me dar café e ainda querer o Oscar de bom samaritano. Eu respirei fundo, rindo por dentro. — Certo. É isso que dá tentar ajudar uma bêbada emocionalmente instável. Abri a porta, virei o rosto pra ela e sorri com malícia. — Da próxima vez, eu deixo você dormindo no capacho. — VAI À MERDA, PIETRO! — Com prazer. E saí rindo, ouvindo o PAM! da porta sendo fechada com a força de um furacão. Subi o zíper da minha jaqueta, ainda com o gosto da risada dela grudado no peito. A mulher é um tornado. Mas por algum motivo, eu tava começando a querer viver dentro dele.






