Mundo ficciónIniciar sesiónOs dias seguintes passaram depressa demais.
Como se o tempo, agora, tivesse pressa. O casamento foi marcado para poucos dias depois da minha chegada. Não houve longas escolhas, nem meses de preparação. Tudo parecia urgente como se todos soubessem, mesmo sem dizer, que não podíamos esperar. Minha mãe me levou para provar o vestido numa manhã clara. Quando o vi moldurado aquele manequim, clássico, senti um aperto no peito. Não era apenas um vestido. Era um símbolo de um sonho deles. Dos nossos pais. Quando o coloquei, ela levou a mão à boca e chorou em silêncio. Chorava como mãe, como mulher e como alguém que tentava guardar aquele instante para sempre. — Você está tão linda… ela disse, com a voz embargada. .... No caminho de volta, ela perguntou, quase casualmente: — Você não viu mais o Gabriel? — Não preciso ver. respondi com calma. — Depois do casamento, vou vê-lo todos os dias. Ela me olhou de lado, intrigada. — E você não quer conhecê-lo melhor antes? Sorri, de leve. — Isso não é só uma formalidade? Então por que eu precisaria conhecê-lo agora? Ela suspirou. — Ele sempre foi um amor de rapaz… por que você está tão arredia com ele? Não respondi. Porque eu sabia. Sabia muito bem que aquele “amor de rapaz” não existia, ele talvez fingisse muito bem pra ela. se é que um dia existiu. — Dê uma chance, minha filha. ela pediu, com doçura. — sabe o que eu lembro? Quando ele tinha 8 anos, ele era todo protetor com você. — Mãe, eu tinha o quê, 5 anos? — Eu sei, mas vocês eram tão lindos juntos, A mãe dele ficaria tão feliz… eu também ficaria. Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de continuar: — Os pais dele morreram num acidente. Foi muito sofrimento. Eu perdi uma amiga… ele perdeu tudo. Engoli em seco. — Ele ficou sozinho. ela disse. — Merece uma chance de ser feliz. Sorri, mas balancei a cabeça. Era até irônico ela falar isso pra mim. — Ele nunca seria feliz comigo, mãe… não à beira da minha morte. Ela apertou minha mão. — Não fala assim filha. Respirei fundo. — Eu não quero que ele saiba... Não até chegar na hora certa. — Tudo bem meu amor... — Se ele for legal, eu até tento. Disse fazendo ela sorri. prometi como uma mentira, porque sabia que algumas tentativas já nascem fadadas ao fim. .... NARRAÇÃO DE GABRIEL Casar... A palavra não saia da minha cabeça. Aquela merda me deixava confuso. Unir meu nome ao dela me traria mais poder é claro, mas o que me intrigava era ela querer fazer aquilo. Porque ela podia. Podia falar com o pai dela, ele ia desfazer essa palhaçada mas ela quis. O que leva uma mulher a fazer isso? Era bizarro. Eu nem conheço ela, tão pouco me conhece. Eu vi ela com o que? 8 anos? Ela foi embora e nunca mais vi a garota. Tenho poucas lembranças dela, era um moleque. Levar aquela promessa adiante era loucura, mas eu tinha o que ganhar e ela? Era isso que me intrigava. Bebia quieto mais meus pensamentos eram turbulentos. As luzes piscando, música alta, corpos se movendo como se nada importasse além daquela noite. Normalmente, era ali que eu desligava. Mas dessa vez, não funcionava. Bebi mais um gole direto do copo, sentindo o álcool queimar a garganta. Meu amigo riu parando ao meu lado, já meio alterado, uma mulher pendurada no braço dele. — E aí… ele disse, se inclinando para falar perto do meu ouvido. — sabe o que eu pensei? Tu Já contou pra sua garota? Franzi o cenho. — Não. Ele arregalou os olhos e caiu na gargalhada. — Você tá brincando comigo, né? Bebi de novo. — Ainda não tive tempo. — Tempo? ele gargalhou mais alto. — Ela tá lá, achando que vem pedido de namoro… e você vai soltar um “então, eu vou casar”. Cara… ela vai surtar. Balancei a cabeça, sem paciência. — Não é problema meu, eu nem planejava pedir ela em namoro cara. — Não é problema seu? ele debochou. — Você tá muito ferrado, Gabriel. Muito. Ele tomou um gole longo e continuou: — E a noiva, hein? Até que é bonitinha a pentelha. Meu olhar foi direto pra ele. Frio. — Mede as palavras. É a filha do meu padrinho. Ele deu de ombros. — Vish, você já bebeu de mais, tá chato pra caralho. Sorriu de canto, provocador. — Tá certo, não vou mais falar da sua digníssima noiva. Mas diz ai qual vai ser o acordo, hein? Vão dormir no mesmo quarto? Vão consumar esse casamento? E as mulheres, a sara, Gabriel… vai largar tudo? Ele riu, batendo o copo no balcão. — Cara, você tá ferrado de todos os lados. Respirei fundo, tentando manter o controle. — Eu vou falar com ela. Se ela ficar no canto dela, eu fico no meu. Simples. — Simples? ele ironizou. — Eu não devo nada a ela, cara. continuei. — E ela não me deve nada. É só um contrato. Ele bebeu mais um gole e sorriu torto. — Se fosse eu, aproveitava. Já vai casar mesmo… — Vai se ferrar Alonso. Ignorei, pegando o celular e mandando mensagem pra sara. — preciso falar com você, tem que ser hoje. Tô passando aí. Fui até o apartamento dela, porque precisava arrancar aquilo do peito. Não era carinho. Não era saudade. Era obrigação. Porque não queria sair ferindo ninguém por aí antes de entrar nisso. Eu sempre soube que aquele dia iria chegar e chegou. Eu não seria um filho da puta de não arcar com as minhas próprias consequências. Ela abriu a porta sorrindo, como se tudo estivesse no lugar. Veio direto, me beijou a com fome, como se quisesse me prender ali antes que eu dissesse qualquer coisa. — Que saudade... disse, passando a mão pelo meu pescoço. Entrei, mas não tirei a jaqueta. Já era sinal de que eu não ia ficar. — Eu vou ser bem rápido, sara... Eu vou casar. As palavras saíram secas. Sem preparo. Ela riu. Riu alto. — Para com isso, Gabriel. Que brincadeira sem graça. — Não é brincadeira. O riso morreu no rosto dela. — Como assim… casar? — É um acordo. Antigo. Formal. Não muda nada entre a gente. Ela me encarou como se eu tivesse cuspido na cara dela. — Isso não existe Gabriel, um casamento é um casamento, você não é obrigado. — É diferente, é um contrato é isso. — Você pode não casar. Você escolhe isso. — Não é uma escolha minha. respondi. — É algo feito antes de mim. Antes de tudo. Era vontade dos meus pais. Ela deu um passo pra trás e soltou, indignada, negando: — Seus pais estão mortos. Foi como levar um soco seco no peito. — O que você disse? perguntei, baixo. Ela sabia o quanto a morte dos meus pais ainda me abalava. Porra, eu perdi os dois no mesmo dia. tirados de mim por um bêbado desgraçado naquele acidente de carro. Ela estava lá! Ela os socorreu com toda a merda da equipe médica. Droga ela era a enfermeira que me deu apoio na merda da hora que eu precisei. 2 anos ... E ainda queima dentro de mim. — Eu tô com ciúmes, droga! ela retrucou. — Você vai casar com outra mulher! — Não pode falar deles assim. minha voz saiu diferente. Escura. — Não fala dos meus pais dessa forma! — Gabriel, eu só quis dizer que.... Não deixei ela continuar. — Eles morreram há dois anos! explodi. — DOIS ANOS. A lembrança veio inteira, sem piedade. O telefone. O acidente. O silêncio depois. — Você não tem o direito de usar isso contra mim. continuei, sentindo a garganta arder. — Você não faz ideia do que é acordar todo dia sem ter pra quem ligar. Sem ter casa. Sem ter chão. Ela tentou se aproximar. — Não! — Gabriel, eu só fiquei com medo de te perder… — Você acabou de perder. respondi. Peguei a chave, as mãos tremendo. — Você sabe por que eu aceitei esse casamento? perguntei, antes de sair. — Porque eu não tenho mais ninguém. Porque era uma vontade deles e... Ela ficou muda. — Meu padrinho é a única família que me restou. engoli em seco. — E eu não vou cuspir na única coisa que ainda me liga a alguém por causa do seu ciúme. Abri a porta. — Espera, Gabriel... Me escuta. Virei abruptamente. — Nunca mais fale dos meus pais. Saí. No elevador, a máscara caiu. O homem de pedra rachou inteiro. Porque por dentro, eu não era forte. Eu só tinha aprendido a sobreviver sozinho. Droga. Eu era um merda que não sentia mais porra nenhuma nessa vida. ...






