CAPÍTULO 02

Os cabelos estavam cortados, desalinhado, a barba desenhada, o terno ajustado.

Mas o que mais me prendeu foi o olhar… escuro, intenso, quase arrogante.

E quando seus olhos encontraram os meus, o mundo pareceu silenciar por um instante.

Não desviei.

Mesmo que meu corpo gritasse para isso, eu não desviei.

O amigo que o acompanhava cochichou algo e riu baixo, e Gabriel apenas arqueou uma sobrancelha, mantendo aquele sorriso que parecia medir o ambiente e a mim.

Meu pai pigarreou, trazendo de volta o som e o ar.

— Bem… agora que estamos todos aqui, podemos conversar.

Ele pousou uma das mãos no meu ombro com orgulho e continuou:

— Como vocês devem se lembrar, a muitos anos atrás fiz uma promessa ao pai do Gabriel. Quando os nossos filhos eram apenas pequenos, nos nossos braços. Uma união entre as nossas famílias.

O amigo de Gabriel desviou o olhar, fingindo interesse na mesa. E ele apenas cruzou os braços, impassível.

— Sei que muitos acordos são apenas simbólicos...

continuou meu pai.

— mas este significa algo mais. O pai dele também acreditava em tradições, e eu pretendo honrar isso.

Fez uma pausa e olhou para mim.

— Quero ver minha filha se casar de verdade. Com véu, grinalda, tudo o que uma noiva tem direito. Essa é a condição.

Meu coração acelerou por um instante.

Ele já não pareceu surpreso, tão pouco parecia um sacrifício.

Porque tudo, com toda certeza era somente uma piada pra ele.

Ele apenas esboçou um sorriso discreto e respondeu com tranquilidade:

— Isso não será um problema para mim, senhor Monteiro.

A voz dele era firme, grave, como uma promessa maliciosa escondida em tom educado.

Enquanto os homens voltavam a falar de negócios, as palavras dele ecoavam na minha cabeça.

Por dentro, o sangue ferveu.

Por fora, mantive o sorriso discreto, a postura impecável e o olhar tranquilo.

Se ele achava que eu seria fácil de derrubar, estava prestes a descobrir o contrário.

A reunião se estendeu por longos minutos até que começaram as despedidas.

Meu pai conversava com alguns investidores enquanto eu recebia elogios e comentários sobre como havia “crescido” e como “era linda como a mãe”.

Apenas dava sorrisos vazios, não a hora de sair dali.

Por dentro, cada palavra parecia uma lembrança do papel que me haviam imposto: a filha perfeita, a promessa viva.

Foi então que meu pai o chamou, com orgulho evidente na voz.

— Venha rapaz... lembra da minha menina?

Ele se aproximou, o sorriso presunçoso desenhando lentamente em seus lábios.

— Como poderia esquecer?

respondeu, com uma naturalidade que me fez querer rir.

Eu o encarei de frente, sem desviar.

— Eu já não posso dizer o mesmo.

deixei escapar, com uma leve ironia no tom.

— Foram muitos anos, éramos crianças não éramos...

O brilho de surpresa em seus olhos durou apenas um segundo, mas foi o suficiente.

Ele me olhava como quem tenta decifrar um enigma.

....

Assinamos o papel com cuidado.

Não era um simples contrato.

Era um lembrete silencioso de que o tempo estava se esgotando e meus pais realmente queria me ver vivendo tudo.

Três anos.

O advogado repetiu como quem lia uma regra qualquer, mas para mim, aquilo soou como uma despedida disfarçada.

Meu pai apenas assentiu, firme, escondendo o cansaço nos olhos.

— Não será algo difícil, vocês viviam juntinhos quando eram pequenos.

Meu pai disse, sorrindo com ternura.

Gabriel ergueu o olhar, discreto, como se tentasse lembrar do que ele chamava de “nós dois”.

O observava em silêncio, analisando cada traço, cada movimento contido.

Ele parecia desconfortável naquela mesa.

— Suas mães viviam falando disso, dessa conexão entre vocês.

continuou meu pai, com a voz suave, quase nostálgica.

Havia uma pausa no ar.

Eu sabia o que ele estava fazendo. Não era sobre negócios, nunca foi. Era sobre garantir que eu não ficasse sozinha agora.

E que de alguma forma, me mantesse perto deles por mais tempo.

Mas isso não ia acontecer, era um fato.

Depois de tantas tentativas, de tantas idas ao hospital, ele entendeu o que eu já sabia há meses: o tratamento não faria mais efeito.

De repente, ele se aproximou, segurou a mão do gabriel e a colocou sobre a minha.

Meu coração vacilou.

O toque dele era quente, firme.

— Conversem... Vocês precisam se conhecer de novo agora. Eu vou falar com o meu velho amigo.

disse meu pai, com um sorriso leve.

Quando ele se afastou, a sala pareceu maior… e o silêncio mais denso.

Gabriel manteve a mão ali por um instante, talvez por respeito, talvez por não saber o que fazer.

Eu o observei atentamente com olhos que sempre viram mais do que deveriam.

Ele desviou o olhar quando percebeu.

Eu não.

Continuei o encarando, curiosa com cada reação dele, tentando descobrir se o menino que um dia dividiu o jardim comigo ainda existia atrás daquele homem que estava a minha frente.

Ele tirou a mão, dei um leve sorriso ladino.

— Seu pai quer que eu me mude pra sua casa.

disse ele, a voz baixa, rouca.

— É o que faz sentido.

respondi, serena.

— Agora que voltei. Assim ele pode me ver. Me ter perto.

Ele assentiu, mas havia algo nos olhos dele, um misto de incômodo e confusão.

— Escuta, a gente pode fazer isso rolar de boa entende?

— Rolar... De boa?

Que tipo de fala era aquela.

— É. Sem esse lance de casamento formal, você pode viver sua vida e eu a minha.

— Como solteiros é isso?

Ele olhou pro meu pai além de mim.

— Qual o sentido de casar então?

Questionei provocando.

— Você sabe que o sentido aqui é minha herança né?

— Então faça direito.

O olhar dele escureceu.

— Eu não aceitei casar, pra viver como se não estivesse, não tem sentido pra mim.

A mandíbula dele travou.

— Mas se você não quiser, eu falo agora com meu pai.

Me afastei pouco, pois ele segurou meu braço.

— Não.

Olhei pra ele abrindo um sorriso astuto.

Eu ia mesmo deixar ele escapar, mas agora não vou mais.

Não. Só por causa do seu ego, desse jeito de menosprezar tudo.

— Podemos entrar em um acordo?

— Um acordo?

ele olhou em volta.

— Podemos conversar em outro lugar?

— Em casa é um bom lugar.

Ele suspira pesado.

— Não existe acordo Gabriel, é um casamento. E eu te vejo no nosso. Com licença.

.....

A primeira coisa que quis fazer, foi visitar um parque de diversão.

Não por impulso.

Mas porque era um lugar que sempre existiu apenas nas minhas vontades contidas.

As luzes coloridas piscavam contra o céu já escurecendo, a música alta misturava risadas, gritos e aquela sensação infantil de liberdade que eu nunca tive permissão para experimentar.

Era barulho demais.

Movimento demais. Vida demais.

E eu amei cada segundo.

Passar por tantas pessoas segurando balões, algodão doce.

crianças pedindo aos pais pra ir nos brinquedos.

Estava maravilhada com tudo.

Entrei na primeira fila sozinha.

Meu coração batia acelerado, pelo primeira vez sem enfermeiros.

Sem olhares atentos demais.

Sem o Cristian.

Aí meu Deus... Se o Cristian sonhar que eu estou aqui ele enlouquece rsrs.

Ele sempre dizia que era por cuidado.

Mas, com o tempo, deixou de parecer apenas um médico.

Virou um vigia.

Alguém sempre pronto para me lembrar do que eu não podia fazer.

Como se cada escolha que me fazia sentir viva roubasse alguns minutos do meu futuro.

A montanha-russa começou a subir devagar.

Senti o coração acelerar antes mesmo da queda.

— Aí meu Deus... Aí meu deus! Rsrs.

O vento batia forte no rosto, meus dedos tremiam presos à barra de segurança.

Quando o carrinho despencou, o mundo virou de cabeça para baixo.

Meu estômago revirou, o ar faltou por um segundo…

E então veio o riso.

Um riso solto.

Alto.

Verdadeiro.

— Aahhhh!! Hahaha..

...

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