Mundo ficciónIniciar sesiónA Alemanha parecia feita de memórias e silêncio naquela noite e Layla seguia Anthony pelo saguão com passos contidos, olhar baixo e o coração cheio de ansiedade tentando não tropeçar no próprio sentimento. A reunião tinha sido longa, cheia de apresentações formais e palavras em inglês técnico, mas tudo que ela realmente ouvira fora o som da respiração dele quando ele se sentava ao lado.
Anthony, por outro lado, parecia preso dentro de um terno caro e de um nervosismo que era como uma trinca na postura perfeita. Durante horas ele fingiu que era fácil. Fingiu que não conhecia o cheiro dela. Fingiu que aquela mulher ali, folheando relatórios, não era a mesma com quem ele dividira uma noite que arrastava sua memória como um anzol desde então. Agora, já no hotel, os dois subiam pelo elevador, indo direto a seus quartos um ao lado do outro, quando chegaram ao corredor, caminharam lado a lado. O corredor se estendia como se tivesse quilômetros, carpete escuro, luz amarela, sombras que balançavam quando eles passavam. O silêncio entre os dois era tão espesso que parecia ter forma. Anthony respirava fundo. Uma, duas vezes. Então, por fim, cedeu. — Layla... posso perguntar uma coisa? Ela engoliu em seco. Não gostou do tom. Ele não estava usando a voz do diretor. Estava usando a voz do homem da noite perdida. — Pode — respondeu, mesmo sabendo que aquilo seria uma porta abrindo para um lugar sem volta. Anthony parou no corredor. Parou mesmo. Ele a encarou de forma séria e soltou: — O garoto — ele disse, não com dureza, mas com cuidado. — O Tyler. O nome do filho parecia um sino dentro dela sempre que alguém o dizia. — O que tem ele? — perguntou, tentando manter o rosto neutro. Anthony passou a mão pelos cabelos, bagunçando o arranjo impecável que ele sempre carregava. Pela primeira vez desde que se reencontraram, ele parecia humano. — É que... — Ele hesitou. Seus olhos buscaram algum ponto na parede, qualquer coisa que não fosse o olhar dela. — Desde aquela vez no corredor. O jeito como você ficou. A forma como falou dele... Não sei. Você... bem, você está com problemas? A pergunta caiu entre eles como uma pedra na água. Layla não esperava tanta precisão. Nem tanta gentileza. Respirou fundo, tentando juntar coragem no ar frio do corredor. — Ele está bem — disse, com a voz firme, mas baixa. — Ele é incrível, Anthony. De verdade. É a pessoa mais forte que eu conheço. Nós estamos bem, eu apenas fiquei assustada com sua visita, somos apenas nós dois desde que ele nasceu. Anthony assentiu, como se estivesse absorvendo cada palavra, pesando-as. — E o pai dele? Desculpe se estou sendo invasivo. É que eu não imaginei uma situação assim. Layla sentiu o estômago encolher. — É que eu criei o Tyler sozinha — ela disse, devagar, como se estivesse tirando algo de dentro dela com cuidado. — Tinha dezenove anos quando engravidei. Não sabia o que estava fazendo. Não conhecia ninguém. Não tinha apoio. Foi... difícil. Muito difícil. O pai dele... bom, nós não temos contato e ele não sabe sobre Tyler. 19 anos... foi naquela época, talvez assim que ela chegou no Brasil. Anthony estava cada vez mais curioso sobre a vida dela. Ele finalmente olhou para ela. Não era um olhar invasivo. — Isso explica muita coisa — murmurou ele. Layla respirou pela boca, tentando não desmoronar. — Eu aprendi — continuou — a proteger o Tyler antes de mim mesma. A colocar ele na frente de tudo. Mas... é só isso. Ele é só uma criança especial. No sentido bom. Cheia de luz. Cheia de energia. Ele é meu mundo. Ela percebeu a palavra “especial” escapar, mas confiou que Anthony não puxaria o fio naquele momento. Anthony deu um passo mais perto. Não o suficiente para encostar nela, mas o suficiente para obrigá-la a sentir de novo a força daquele magnetismo que nunca morreu entre eles. — Layla... — Sua voz saiu baixa, quase um pedido. — Você pode me contar. O que você quiser. No seu tempo. Se precisar de mim, com qualquer coisa, pode me chamar. Foi a primeira coisa que quebrou algo dentro dela. — Anthony, eu... – ela tentou encontrar palavras. — Obrigada — sussurrou. Eles retomaram a caminhada. O corredor parecia menor agora, como se estivesse tentando empurrá-los para frente. Quando chegaram às portas dos quartos, uma ao lado da outra, eles pararam outra vez. Layla encostou a mão na maçaneta, sentindo o metal frio. Anthony hesitou. E então, antes que o silêncio engolisse os dois, ele disse: — Você é uma mãe incrível. Eu consigo ver isso. Layla não respondeu. Não confiava na própria voz. Entrou no quarto e fechou a porta devagar, apoiando a testa contra a madeira. Lá do outro lado, Anthony ficou parado no corredor, a mão pendendo ao lado do corpo, como se algo tivesse sido arrancado dele sem aviso. E, sem saber, os dois sentiram a mesma coisa: Aquela conversa, simples e curta, era só o início do que viria a destruí-los ou salvá-los. Não havia mais volta.






