Mundo ficciónIniciar sesiónNa quarta feira os dois passaram rapidamente na empresa para deixar os documentos da viagem, antes de seguir para casa, Anthony insistiu em levar Layla. A empresa estava quase vazia, com o barulho abafado de impressoras e passos apressados.
Anthony caminhava ao lado dela, calado, mas com presença demais. Eles subiram para o andar da diretoria. Layla ajeitou a pasta nas mãos. O corredor estava tranquilo, iluminado demais. Mas nada ali era tão claro quanto o que os esperava. Quando viraram a esquina, a porta da sala da presidência se abriu. E por ela saiu uma figura que Layla lembrava perfeitamente: Eva Jones Alta, vestida de um azul profundo que combinava com a frieza dos olhos. A mulher que esmagara o coração de uma garota de 19 anos com uma mentira tão suja que Layla ainda sentia gosto de ferro ao lembrar. Eva deu dois passos, distraída... até ver Anthony. E então, viu Layla. O rosto dela congelou. Primeiro incredulidade. Depois espanto. Depois aquele veneno elegante que ela chamava de opinião. — Anthony — disse com uma doçura tão falsa que quase quebrou o ar. — O que essa garota está fazendo aqui? Layla ficou imóvel. Não era surpresa que ela a reconhecesse. O ódio daquela mulher tinha memória longa. Anthony pareceu surpreso com a visita da mãe, mas nem um pouco animado, pelo contrário, sua voz demonstrou total tédio. — Mãe, essa é a Layla. Minha funcionária. — Eu sei muito bem quem ela é — cortou, dando um passo à frente. — A menina que destruiu o coração do seu irmão. A que traiu ele. A que brincou com a nossa família e sumiu depois. Anthony parou de caminhar imediatamente e encarou Layla, que parecia prestes a cair, o olhar dela de preocupação ao encarar seu chefe, o medo que sentiu, tudo isso passou por seu semblante, Anthony ainda a olhava fixamente. Layla sentiu o impacto como se tivesse levado um golpe no estômago. A mentira ainda era a mesma. Intacta. Envenenada. Percebendo que ela não estava bem, ele deu um passo a frente, bloqueando o corpo de Layla, em um sinal de proteção. — Eva... — Anthony começou. — Não fale comigo como se eu não tivesse razão — ela sibilou. — Você está andando com ela? Entrando na empresa com ela? Meu Deus, Anthony, você sabe exatamente o tipo de interesseira que ela é. A palavra caiu como uma pedra nos pés de Layla. Ela apertou os dentes. Queria responder. Queria gritar a verdade. Queria esfregar na cara daquela mulher as fotos adulteradas que ela própria arquitetou anos antes. Mas o corpo dela travou, preso entre passado e presente. Eva continuou, incapaz de parar quando tinha veneno para derramar. — Não vou aceitar que você coloque essa garota de novo no caminho da nossa família. Nem perto de você. Se ela pensa que pode usar você agora, está muito enganada. Ironicamente, foi nesse exato instante que Layla percebeu que não estava mais sozinha. Porque Anthony deu um passo à frente. — Chega — disse ele, num tom tão sério que fez o ar vibrar. Eva arregalou os olhos. — Como é que é? — Você não fala com ela assim — Anthony repetiu. — Nunca mais. O silêncio se abriu no corredor, espesso como fumaça. — Anthony, você enlouqueceu? Ela é uma ameaça para... — A senhora não sabe nada sobre ela — ele interrompeu. — E não tem o direito de tratar ninguém dessa forma, muito menos uma pessoa que trabalha comigo. Saia. Layla sentiu o coração tropeçar dentro do peito. Eva apertou os lábios, surpresa pela ousadia do filho. Mas em vez de recuar, ela procurou envenenar de outro jeito. — Você está defendendo ela com essa força toda por quê? — perguntou, a voz baixa, mas afiada. — Por acaso ela significa alguma coisa para você? Anthony não respondeu. O silêncio dele revelou mais do que qualquer resposta. Eva, percebendo, ficou lívida. Layla desviou o olhar, o rosto quente de vergonha e confusão. Ela não queria ser motivo de guerra. Não queria ser motivo algum na vida deles. Só queria trabalhar, criar seu filho e respirar sem sentir o passado se arrastando atrás dela. — Vamos embora — Anthony disse, virando para Layla com uma firmeza que ela nunca tinha visto nele. — Não precisamos ouvir isso. Layla assentiu, mesmo com as mãos trêmulas. Anthony colocou a mão nas costas dela, guiando-a pelo corredor. Eva os observava partir com olhos de tempestade contida, como se já estivesse calculando a próxima invasão. Layla não se virou para olhar para trás. Quando chegaram ao elevador, Anthony apertou o botão com força. A porta abriu e eles entraram. O metal frio se fechou atrás deles, abafando o mundo. Layla respirou, finalmente. — Você não precisava fazer isso — murmurou. — Precisava sim — Anthony respondeu, encarando a porta como se ainda segurasse a raiva com as duas mãos. — Porque ela não tem o direito de te machucar. Nem agora. Nem nunca mais. Layla fechou os olhos, tentando não sentir tudo aquilo, a defesa dele causou tantas coisas inesperadas nela, ela se sentiu tão protegida e as lembranças de cinco anos atrás voltaram com tudo. — Você não precisa me contar nada se não quiser... mas se quiser, eu vou te ouvir. – ele disse. Layla olhou para Anthony enquanto eles caminhavam em direção ao carro, ela se questionou se deveria contar a história, Anthony não se lembrava da noite deles e Layla não sabia por onde começar. A verdade que Anthony é irmão mais velho do homem que partiu o coração de Layla, mas também é o homem que lhe deu a noite mais memorável de sua vida e pai de seu maior presente. Ela tinha que decidir se contaria ou não.






