Mundo de ficçãoIniciar sessãoO coração de Catarina martelava contra as costelas, uma pulsação desordenada que fazia suas bochechas arderem de raiva e humilhação. De repente, uma fisgada aguda e lancinante no baixo ventre a atingiu, fazendo-a perder o fôlego por um instante. O susto foi um banho de água fria. Ela pressionou a mão espalmada contra a barriga, fechando os olhos enquanto se obrigava a inspirar e respirar devagar. Não podia se entregar àquela histeria. Não permitiria que o descontrole daquele homem colocasse a vida de seu filho em risco.
— Você não tem o direito de dizer se eu te amei ou não — declarou ela. Sua voz, agora, soava artificialmente baixa e contida, embora a testa franzida revelasse a tensão que a consumia.
Ela passou a língua pelos lábios secos, buscando alguma pele solta para arrancar com os dentes — um tique nervoso antigo. Infelizmente, o hidratante labial que Liam lhe dera havia cumprido bem o seu papel; não havia nenhuma imperfeição ali para canalizar sua ansiedade.
— Essa conversa só serve para nos desgastar. Você já me mandou ir embora. Agora, por favor, me deixe terminar de organizar as minhas coisas em paz.
Concentrando cada resquício de sua força de vontade na tarefa, ela voltou a focar na mala de couro sobre a cama. Guardou as últimas peças com movimentos mecânicos e acomodou os sapatos nas laterais de modo que o zíper pudesse fechar sem resistência.
Aquela calma aparente, aquela postura quase gélida — como se estivesse coordenando uma reestruturação de ativos corporativos e não o sepultamento do próprio casamento —, enfurecia Michel mais do que qualquer grito. Para ele, o estoicismo de Catarina parecia um descarte sumário; ela o tratava como um mero ruído de fundo que atrapalhava seu cronograma de viagem.
— Direito? — rosnou Michel, soltando uma risada ríspida, desprovida de qualquer vestígio de humor. — Eu tenho todo o direito do mundo! Eu sou o homem que te deu tudo, Catarina! Absolutamente tudo!
Ele a observava de costas para ele, totalmente absorta em algo tão banal quanto dobrar roupas de seda. A visão daquelas mãos delicadas — as mesmas que ele costumava segurar com reverência, aquelas que traçavam carinhos em sua pele durante as madrugadas mais íntimas — agindo agora com tamanha indiferença prática fez seu sangue ferver. Ele sentiu uma pontada súbita e dolorosa no estômago, como se suas próprias entranhas estivessem sendo esvaziadas.
Quando deu por si, Michel já havia encurtado a distância, parando imediatamente atrás dela. Ele não a tocou, mas pairou como uma sombra massiva, o calor de seu corpo pressionando as costas dela como um obstáculo físico. Ele conseguia ver a rigidez nos ombros de Catarina, o esforço hercúleo que ela fazia para sustentar aquela altivez.
— Você é extremamente eficiente, não é? — sussurrou ele próximo ao ouvido dela, a voz impregnada de sarcasmo e de um desejo desesperado e sufocado. — Até para nos destruir, você age com uma... perfeição irritante.
Michel ergueu a mão direita. Seus dedos pairaram a milímetros da curva das costas dela, ansiando por sentir o calor de sua pele através do tecido fino, por puxá-la contra o peito e afundar o rosto na curva de seu pescoço. Mas ele congelou. A imagem maldita do café voltou a assombrá-lo: o olhar de Ren direcionado a ela. A lembrança funcionou como um choque térmico, petrificando seus sentimentos mais uma vez.
Ele recolheu a mão abruptamente e agarrou a coluna de madeira da cama com tanta força que os nós de seus dedos empalideceram.
— Ótimo. Arrume suas roupas. E aproveite para empacotar o seu orgulho também, já que parece ter de sobra. — Ele girou sobre os calcanhares, incapaz de continuar assistindo àquela organização meticulosa. — Só não espere que eu carregue a sua bagagem. Você está sozinha agora, Catarina. Exatamente como escolheu estar.
Ele marchou para fora do quarto. No entanto, ao alcançar o corredor de mármore, suas pernas vacilaram e ele precisou se apoiar contra a parede, curvando o corpo para a frente.
Naquele instante, a distância entre os dois era um abismo intransponível feito de convicções distorcidas: enquanto Michel estava irredutivelmente convencido de que fora traído, Catarina tinha a certeza absoluta de que ele a odiava e desejava vê-la humilhada a qualquer custo.
Assim que o som dos passos dele cessou no corredor, a máscara de Catarina caiu. Ela puxou o ar pela boca, lutando contra o soluço que sabia que escaparia se respirasse pelo nariz. Apoiando o peso do corpo sobre a mala fechada, ela pendeu a cabeça, trêmula, entregando-se a um choro silencioso e desesperado que há muito prendia no peito.
Ela não queria perder o bebê. Mesmo que o pai daquela criança estivesse agindo como um monstro e a expulsando de sua própria casa, ela desejava aquele filho mais do que tudo. Ela já era mãe. Mas manter a frequência cardíaca baixa sob o bombardeio sistemático de Michel parecia uma tarefa quase impossível.
Catarina bateu o pé contra o chão, um gesto mecânico para tentar conter a torrente de emoções que ameaçava transbordar. Tentou empurrar aquela dor para o canto mais escuro de sua mente, cercando-a com muralhas de pedra e fossos intransponíveis. Ela fora criada para ser a herdeira implacável da dinastia Menin, uma líder de punho de ferro que nunca demonstrava fraqueza. No entanto, por dentro, sentia que estava se desintegrando.
No corredor, Michel encostou a testa contra a madeira escura da parede, fechando os olhos com força. Sentia-se como o sobrevivente de um desastre automobilístico, com o peito subindo e descendo enquanto buscava recuperar o controle de sua respiração. O silêncio sepulcral que vinha da suíte era muito pior do que qualquer discussão acalorada. Era denso, sufocante — o velório silencioso do homem que ele costumava ser.
Ela é de gelo, pensou ele com amargura, enquanto seus dedos traçavam obsessivamente o contorno das tatuagens em seu próprio pescoço, um tique nervoso que não conseguia conter. Ela está simplesmente fazendo as malas como se estivesse se preparando para uma viagem de negócios a Genebra.
Ele queria acreditar que a indignação dela era legítima. Queria que aquele silêncio fosse apenas um escudo defensivo. Mas a imagem dos lábios dela colados aos de Ren Sinclair agia como um veneno lento em suas artérias, contaminando cada memória feliz que construíra ao lado dela. Michel convenceu a si mesmo de que a compostura de Catarina era apenas a cartada final de uma manipuladora experiente para fazê-lo carregar a culpa da ruptura.
Incapaz de tolerar aquele silêncio que tornava seus próprios pensamentos ensurdecedores, ele foi dominado por um impulso irracional. Precisava de uma reação dela, qualquer uma, contanto que não fosse aquela dignidade inabalável. Michel empurrou a porta do quarto sem bater, os olhos fixando-se imediatamente na figura dela, ligeiramente curvada sobre a bagagem.
Ele notou o leve tremor em seus ombros e a cabeça baixa. Por uma fração de segundo, uma onda de ternura genuína e desesperada quase quebrou suas defesas. Ele sentiu vontade de correr até ela, envolvê-la em seus braços e implorar para que ela lhe mostrasse onde estava o erro daquela história.
Contudo, a amargura ergueu-se novamente, blindando seu peito.
— Já terminou? — perguntou ele, a voz projetando-se alta e dissonante no quarto, intencionalmente desprovida de qualquer vestígio de calor.
Ele cruzou os braços largos sobre o peito, encostando-se ao portal da porta com um olhar gélido e analítico.
— Ou planeja passar o resto da noite aqui dentro, fingindo que não foi você quem destruiu este lugar?
Catarina percebeu que não havia mais espaço para debates ou explicações. O melhor que podia fazer era acelerar aquela partida. Limpando as lágrimas que molhavam suas bochechas com as costas da mão, ela ergueu a mala pesada de couro, colocou-a no chão e começou a arrastá-la em direção à saída.
Ela passou por Michel sem lhe dirigir um único olhar ou palavra. Dali em diante, qualquer contato seria mediado por sua equipe jurídica, fosse para a divisão de bens, a assinatura do divórcio ou a retirada do restante de suas coisas. Ela estava exausta daquele jogo de acusações, de ser tratada como criminosa sob o teto que deveria ser seu porto seguro.
Michel não saiu do caminho. Ele permaneceu imóvel na soleira da porta, forçando-a a desviar por um espaço mínimo. Ele buscou fixar os olhos nos dela, procurando qualquer sinal de hesitação, mas a recusa dela em encará-lo feriu seu orgulho mais do que todas as brigas anteriores.
— Aonde você pensa que vai? — exigiu ele, a voz assumindo o tom autoritário e ríspido que utilizava nas salas de reunião quando um projeto dava errado. Ele não aceitaria que ela partisse daquela forma, sem que ele desse a palavra final. — Você acha que pode simplesmente cruzar essa porta e fingir que nada disso aconteceu?
Ele recuou apenas o suficiente para que ela passasse, mas no instante em que Catarina cruzou o limite da porta, ele segurou seu braço esquerdo. Seus dedos se fecharam sobre a pele dela com uma pressão possessiva e desesperada. Foi um contato rápido, mas que carregava toda a urgência que ele não conseguia verbalizar.
— Você vai mesmo levar isso adiante? — perguntou ele, a voz falhando em um tom rouco, os olhos colados ao semblante dela, buscando a mulher com quem costumava compartilhar as noites. — Vai carregar esse bebê com você para construir uma nova vida ao lado dele?
Ele afrouxou o aperto lentamente, os dedos se contraindo como se lutassem contra o próprio impulso de puxá-la de volta para sua órbita destrutiva. Um pânico repentino e violento o atingiu ao perceber que ela de fato estava cruzando o hall, que a cobertura estava prestes a se transformar em um deserto de mármore.
— Diga alguma coisa, Catarina! — sussurrou ele, a agressividade agora mesclada a uma dor exposta e vulnerável. — Não vá embora assim. Você não tem mais nada a me dizer?
— O que você quer que eu diga?
Catarina finalmente se virou para encará-lo, os olhos brilhando com lágrimas suspensas e a voz vibrando com indignação.
— Quer que eu me curve e implore pelo seu perdão? Perdão pelo quê, Michel? Por uma traição que nunca existiu? Eu até faria isso se tivesse cometido um erro, mas eu não fiz!
Segurando a alça da mala com tanta força que os nós de seus dedos empalideceram, ela sustentou o olhar dele com uma mistura de repulsa e decepção.
— A verdade é que você preferiu se apegar a uma fotografia anônima a confiar em todos os anos que passamos construindo uma vida juntos. Você reduziu todo o meu amor a nada e me tratou como... — Ela hesitou, a voz falhando ao tentar encontrar um adjetivo para o calvário das últimas semanas. — Eu tive paciência. Tentei de todas as formas fazer você enxergar a realidade. Mas eu cheguei ao meu limite. Eu não vou colocar a saúde do meu filho em risco por causa do seu egoísmo. Não vou continuar insistindo em uma convivência tão doentia e hostil. Se o seu objetivo era transformar a minha vida em um inferno, parabéns. Você conseguiu a sua vingança.
A palavra "vingança" atingiu Michel com a força de um impacto físico, roubando-lhe o oxigênio. Ele recuou meio passo, os olhos se arregalando antes de se contraírem em fendas de pura defensividade.
— Vingança? — repetiu ele, a voz ríspida, carregada de incredulidade. — Você acha que eu planejei isso, Catarina? Acha que eu sinto prazer em acordar todos os dias sentindo que há um buraco no meio do meu peito? Acha que eu gosto de olhar para você e enxergar uma completa estranha?
Ele avançou novamente, sua estatura colossal projetando uma silhueta intimidadora sobre ela. A menção ao bebê e a forma como ela o excluía daquela proteção fizeram seu sangue ferver com uma mistura destrutiva de ciúme e autodesprezo. Ele queria acreditar nela — Deus sabia o quanto ele desejava que tudo aquilo fosse um pesadelo —, mas a imagem dos lábios dela colados aos de Ren Sinclair continuava cravada em sua mente como uma marca indelével.
— Você é quem está se fazendo de mártir! — esbravejou ele, o tom de voz caindo para aquele sussurro ameaçador que precedia suas piores explosões. — Foi você quem entrou naquele café! Foi você quem permitiu a aproximação dele! E agora você quer sair por essa porta posando como a vítima dessa história!
Ele deu um passo rápido à frente e agarrou a alça da mala dela com força, inclinando o rosto até ficar a poucos centímetros do dela. A visão das lágrimas acumuladas nos olhos verde-oliva dela o enlouquecia.
— Se quer ir embora, então vá de uma vez! — gritou ele, a voz ecoando pelas paredes minimalistas e vazias da cobertura. — Volte para ele! Retome a vida que você claramente preferia! Mas não ouse me culpar por destruir a sua vida. Você fez isso sozinha no instante em que decidiu que um encontro com o seu ex-namorado valia mais do que uma vida inteira ao meu lado!
Ele soltou a mala bruscamente, como se o couro queimasse suas mãos. Seu peito arfava. Sentia-se na iminência de perder o controle sobre a única coisa que o mantinha humano.
— Vá embora — murmurou ele, desviando o rosto para o lado para que ela não percebesse a umidade que começava a embaçar sua visão.
Catarina respirou fundo, afastando o cabelo do rosto com um movimento lento e deliberado. Suas feições, de repente, tornaram-se completamente frias e cortantes.
— Se te incomoda tanto que eu saia daqui como vítima... — Ela fixou os olhos nos dele, com uma lucidez assustadora. — Então eu vou embora exatamente como você quer. Não como uma vítima, mas como a mulher que escolheu um momento com o ex em vez de uma vida inteira com você.
Ela inclinou a mala de couro, preparando as rodinhas para o deslize pelo mármore do hall de entrada.
— E quer saber de uma coisa? O resultado daquela tarde é este bebê que eu estou carregando. Ele não é seu filho, Michel. Nunca foi e nunca será. E quanto ao amor que eu sentia por você... eu o joguei na primeira lixeira que encontrei no caminho. Eu me arrependo amargamente do dia em que te conheci, mas garanto que será extremamente fácil te esquecer.
Com um movimento preciso do polegar, Catarina deslizou a aliança de ouro de seu dedo, deixando-a cair no chão com um tilintar metálico e seco que ecoou pelo hall. Sem olhar para trás, ela cruzou a soleira da porta, deixando Michel Prescott sozinho com o eco de sua própria desolação.







