Mundo de ficçãoIniciar sessãoMichel permaneceu estático no centro da cozinha, com o peito subindo e descendo em lances curtos e desordenados enquanto a via se afastar. O som dos passos dela, distanciando-se pelo corredor de mármore, assemelhava-se ao tique-taque ritmado e lento de uma bomba prestes a detonar. Ele sentiu uma vontade avassaladora de correr atrás dela, segurar seu braço e ordenar que ficasse. Queria gritar que estava agindo como um completo estúpido, que a confissão dela o havia enlouquecido e que ele não queria, sob hipótese alguma, vê-la cruzar aquela porta. Mas seu orgulho era uma fortaleza impenetrável, e ele estava trancado do lado de dentro.
— Tudo bem — pensou, trincando os dentes com tanta força que a mandíbula latejou. — Que ela vá. Que corra de volta para ele.
Virando-se de forma brusca, Michel alcançou a garrafa de bourbon sobre o aparador e removeu a tampa com um giro violento. Ignorando o copo, levou o gargalo diretamente aos lábios. Deu um gole longo e sôfrego. A queimação do álcool desceu rasgando sua garganta, mas não foi suficiente para anestesiar o vazio gélido e doloroso que se instalara em seu estômago. Ele passou a andar de um lado para o outro na sala de estar. Sob a iluminação indireta, a decoração minimalista e ultramoderna da cobertura parecia subitamente gélida, assumindo a atmosfera cavernosa de um mausoléu.
Do quarto do casal, vinham ruídos abafados: o farfalhar das roupas sendo manuseadas, o estalo metálico do zíper de uma mala de couro se abrindo. Cada som daquela partida funcionava como um pequeno golpe físico em seu peito. Sua mente debatia-se em contradições insolúveis; ele tinha convicção de que ela era uma mentirosa, mas sentia-se asfixiado pela própria certeza.
Por que ela não me diz que é mentira?, gritava o seu íntimo, em uma súplica silenciosa. Por que ela não luta por nós em vez de simplesmente desistir?
O silêncio que se seguiu era ensurdecedor. Incapaz de suportá-lo, Michel bateu a garrafa contra a mesa de centro e marchou em direção à suíte com passos firmes e pesados. Ele sequer sabia se o propósito daquele avanço era impedi-la ou acelerar sua partida definitiva. Ao alcançar o batente da porta, deparou-se com ela dobrando uma blusa de seda clara. A sombra de sua silhueta de quase dois metros projetou-se sobre a cama, obscurecendo o espaço.
— Então é assim que termina? — indagou ele, a voz rouca e desprovida de qualquer verniz executivo. Ele se escorou contra a parede da entrada, cruzando os braços com firmeza sobre o peito, observando-a com olhos escuros e impenetráveis. — Vai simplesmente fechar a mala e fugir como uma covarde? Sem um clímax? Sem uma última mentira para tentar suavizar o gosto amargo da sua traição?
Catarina manteve-se em silêncio, prosseguindo com a arrumação. Ela já havia tolerado o bastante do tom ferino de Michel. Não fora moldada para ser uma mulher submissa; muito pelo contrário, trazia nas veias o sangue de uma linhagem de negócios que nunca recuava.
Abrindo uma gaveta com precisão cirúrgica, ela recolheu suas lingeries de renda e as organizou em uma embalagem discreta de cetim. Juntou-as às peças na mala com um movimento firme. Em seguida, selecionou seus sapatos favoritos, acomodando-os com cuidado antes de se dirigir ao banheiro da suíte.
Sobre a bancada de mármore do banheiro, perfilavam-se dezenas de frascos caros de cosméticos. Catarina começou a recolhê-los, guardando-os em nécessaires de couro. Sua mente trabalhava rápido: precisava acionar Liam para que ele fizesse a reserva de uma suíte de hotel de luxo imediatamente. No entanto, o esforço hercúleo para não reagir às provocações de Michel e manter a calma exigida por sua gestação consumia tanta de sua energia que o plano de ir para um hotel esvaziou-se; ela sabia que acabaria passando a noite no próprio escritório de sua companhia para evitar mais desgaste.
Michel acompanhava cada deslocamento dela com um olhar gélido e obsessivo. A indiferença com que Catarina o tratava parecia uma bofetada deliberada, muito mais ultrajante do que qualquer grito de contestação. Ele detestava aquela elegância inabalável que ela exibia, a altivez com que se movia mesmo enquanto o casamento deles desmoronava. Para ele, aquela compostura era apenas mais uma performance de sua farsa.
— Me ignorar agora é a sua nova estratégia? — desdenhou ele, o sarcasmo escorrendo por suas palavras. — Você costumava ser extremamente rápida para defender a sua "honra". Mas agora que a verdade foi exposta, você perdeu a voz. É vergonha ou você já está com a cabeça no seu amante?
Ele invadiu o espaço do banheiro, quebrando qualquer barreira física que ela tentasse estabelecer. Ele precisava ser o centro da atenção dela, mesmo que o mundo ao redor estivesse ruindo. Ao vê-la guardar os produtos de beleza, seus olhos demoraram-se na curva da cintura de Catarina e na precisão de suas mãos. Mesmo sob o manto da fúria, seu corpo o traía com um calor possessivo e imediato. Ele sentia uma urgência violenta de segurá-la pelos ombros, empurrá-la contra a parede e arrancar uma confissão real sob o peso de seu próprio corpo.
— Você está levando até as suas bugigangas — zombou ele, apontando para as embalagens de vidro de perfumes importados. — Quer garantir que estará impecável para ele? Ou está apenas tentando apagar qualquer vestígio de si mesma desta cobertura? Sejamos francos, Catarina, você já foi embora há muito tempo. Você cruzou a porta no exato instante em que permitiu que as mãos daquele sujeito tocassem a sua pele.
Ele sentiu um impulso súbito de avançar e arrancar a nécessaire de couro de suas mãos, de trancá-la ali dentro e forçá-la a compartilhar daquele inferno com ele. Em vez disso, manteve as mãos enterradas nos bolsos da calça social, o maxilar cerrado enquanto lutava para não quebrar a primeira coisa que visse pela frente.
— Nem se dê ao trabalho de ligar para o seu assistente — acrescentou, o tom caindo para um sussurro ríspido ao notar que ela segurava o celular. — Se está com tanta pressa de se livrar de mim, saia agora. Não espere por motorista. Não espere por carro de aplicativo. Simplesmente suma da minha frente.
Catarina apertou o aparelho com tanta força que os nós de seus dedos empalideceram. Por uma fração de segundo, a vontade de arremessá-lo contra o rosto de Michel quase venceu sua disciplina. Ela cerrou os dentes e fechou os olhos, respirando fundo para não se fragmentar por completo naquele banheiro.
— Por que você simplesmente não me deixa em paz? — disparou ela, o rosto corando de fúria enquanto ela abria os olhos para encará-lo. — Se você quer tanto que eu suma, por que não cala a boca e sai do meu caminho?
O casamento deles estava sendo estraçalhado de forma irreversível.
— Você já me expulsou de sua vida, Michel! Agora quer me chutar deste apartamento sem as minhas coisas? Ótimo!
Em vez do telefone, ela usou a nécessaire que segurava. Com um movimento violento, arremessou-a contra o chão. O impacto dos frascos de vidro importados contra o piso de mármore produziu um estalo agudo, espalhando cacos brilhantes e líquidos aromáticos por todo o banheiro. Sem dar tempo para que ele reagisse, Catarina passou por ele como um furacão, marchando para fora da suíte.
O som do vidro se estilhaçando atingiu Michel como um soco no esterno. Ele piscou, os olhos descendo para a bagunça líquida e brilhante sob seus pés. A agressividade repentina daquele gesto e a audácia da reação dela injetaram uma descarga massiva de adrenalina em suas veias, um sentimento que beirava o êxtase do confronto.
— Não ouse mandar eu calar a boca! — rugiu ele, a voz alcançando o mesmo tom de fúria dela.
Ele se deslocou rapidamente, bloqueando a saída da suíte e transformando seu corpo de quase dois metros em uma muralha física na porta estreita. Ele não a tocou, mas a proximidade de seus corpos tornava o ar entre eles sufocante.
— Você acha que é a única pessoa ferida aqui? Acha que é a única que foi exposta ao ridículo?
Ele alternava o olhar entre os cacos no chão e o semblante dela, vermelho de raiva e com os olhos marejados de uma frustração que ela se recusava a deixar transbordar. A visão de Catarina naquele estado de vulnerabilidade combativa despertava nele uma vontade doentia de puxá-la pela cintura, prendê-la contra si e confrontá-la até que a verdade fizesse sentido.
— Quer sair daqui apenas com a roupa do corpo? — Ele soltou um riso sombrio, os olhos estreitados. — Vá, então. Faça o seu papel de mártir. Corra para contar a todos como o impiedoso Michel Prescott jogou a esposa grávida no meio da rua como se fosse lixo. Vai ser perfeito para a sua narrativa, não vai? A mentira perfeita para a mulher intocável.
Subitamente, ele deu um passo para trás. O recuo foi brusco, pretendendo demonstrar desprezo, mas soou como uma capitulação tácita. Ele permaneceu ali, com os braços estendidos ao lado do corpo e o peito arfando sob a camisa preta entreaberta. Parecia exausto; os fios claros de seu cabelo estavam desalinhados e as olheiras profundas denunciavam uma e****a que ia muito além do cansaço físico.
— Então vá, Catarina — sussurrou, a fúria esvaindo-se e deixando apenas uma camada espessa de amargura. — Vá atrás da sua "verdade". Só não espere que eu vá atrás de você quando perceber o quão frio este mundo consegue ser sem mim.
Ele a observava com a respiração acelerada, como um animal encurralado vigiando a própria jaula, esperando para ver se ela de fato teria a coragem de abandoná-lo naquele cativeiro de luxo e silêncio.
Catarina inclinou a cabeça, sustentando o olhar dele com uma raiva cortante.
— Eu sou a mártir? — devolveu ela, a voz firme. — Foi você quem escolheu acreditar em uma mentira e passou semanas me tratando como se eu fosse um estorvo. Você é quem vem alimentando essa farsa desde o primeiro dia, me humilhando em todas as oportunidades. E eu me sujeitei a isso porque te amava tanto que fui ingênua o suficiente para acreditar que, em algum momento, você recuperaria a lucidez, enxergaria a verdade e me pediria perdão.
A explosão pareceu aliviar parte da pressão em seu peito; gritar era a única válvula de escape que lhe restava.
— Há semanas eu venho tolerando a sua crueldade, a sua indiferença, as suas acusações baratas e o seu deboche. Fiz isso porque te amo, Michel! Pensei que você usaria a cabeça e perceberia o óbvio: que a sua esposa nunca te traiu. Mas você não fez isso. Você prefere se apegar à porra daquela foto de café e me tratar como se eu tivesse cometido um crime imperdoável!
O músculo da bochecha de Michel contraiu-se violentamente. As palavras dela eram como ácido sobre suas certezas.
— Usar a cabeça? — sibilou ele, dando um passo à frente, sua estatura cobrindo o espaço dela. — Você acha que isso é uma questão de lógica, Catarina? Isso não é uma reunião de conselho administrativo onde nós analisamos planilhas para decidir quem tem razão!
Ele gesticulou de forma brusca em direção à sala, apontando para o fantasma das evidências que o consumiam dia e noite.
— É sobre os seus olhos naquela imagem! É sobre a forma como você olhava para ele! É sobre o fato de que, enquanto eu me desgastava para estruturar o nosso futuro, você estava ocupada resgatando o seu passado em um maldito café público!
Ele estava tão próximo que podia sentir o perfume floral dela, o mesmo aroma que costumava ser o seu porto seguro. Agora, o cheiro provocava uma mistura doentia de desejo e repulsa. Ele sentiu uma vontade cega de segurar seus cabelos e forçá-la a encarar seus olhos sem vida.
— Não venha me falar de amor — rosnou ele, a voz caindo para um sussurro denso e trêmulo, carregado de uma fúria contida. — Amor exige lealdade. Amor significa estar exatamente onde você diz que está. Amor é não transformar o seu marido em uma piada sob o próprio teto!
Ele inclinou o rosto até que suas respirações se misturassem, buscando nas pupilas dela qualquer sinal de hesitação, de mentira ou de culpa. Mas tudo o que encontrou no verde-oliva dos olhos de Catarina foi uma fúria limpa, bela e justificada. E aquilo o enlouquecia, pois desafiava sua sanidade.
— Você realmente se considera tão inocente assim? — desdenhou ele, o olhar desviando-se para os lábios dela antes de fixar-se novamente em seus olhos. — Você é a pessoa com os segredos aqui, Catarina. Foi você quem permitiu que ele se aproximasse o bastante para tirar aquela foto de você.







