CAPÍTULO – 3 SAÍ DAQUI!

Lucie trancou a porta do banheiro e encostou a testa no espelho frio. A água quente ainda não havia sido ligada. Seu reflexo a encarava: olhos azul-violeta brilhando de angústia, cabelos platinados bagunçados. O sonho da guerra ainda latejava em sua cabeça, mas a realidade era pior.

— Que raios de aposta é essa?! — murmurou, cerrando os punhos.

As palavras do pai, ditas naquela madrugada chuvosa, voltavam como facadas. No cassino, depois de perder tudo, Adrien Chevalier mostrou uma foto dela. O apetite dos homens mudou instantaneamente. Olhares luxuriosos, sorrisos predadores. Ela deixou de ser filha e virou troféu.

Um a um, os jogadores foram eliminados. Até restarem apenas seu pai e Maxime Durand. A aposta final: Lucie se casaria com o filho do mafioso. Dívida quitada. Honra “preservada”.

Lucie sentiu o estômago revirar. Virgem, intocada, a ideia de pertencer a um estranho a enchia de nojo e pavor. Seria pior ser a amante de Maxime ou a esposa forçada do filho dele? Ambas as opções pareciam correntes.

— Como você pôde, pai? — sussurrou ela, revivendo a discussão.

Naquela noite, Adrien chegara encharcado, cheirando a uísque e desespero. Caiu de joelhos aos seus pés.

— Me perdoa, meu amor! Eu estava bêbado, fora de mim... Não queria que isso acontecesse!

— Casar?! — gritara Lucie, a voz falhando. — Você apostou a própria filha como se eu fosse um relógio ou um carro?! Que loucura é essa?!

— Eu não pensei direito! Eles estavam me pressionando, rindo de mim...

— E quando você pensa direito, pai? Quando?! Desde que mamãe morreu, você só existe dentro de uma garrafa e em mesas de jogo! — A voz dela subiu, carregada de dor e raiva. — Agora quer que eu pague por seus erros com o meu corpo e o meu futuro?

Adrien chorava, segurando as pernas dela.

— Ainda tenho um pouco do dinheiro que sua mãe deixou. Pegue e fuja! Saia do país hoje mesmo. Eu me viro.

— Não! — Lucie se afastou bruscamente, lágrimas queimando seu rosto. — Eu te amo, pai. Mamãe me fez prometer que cuidaria de você. Como posso fugir e te deixar nas mãos deles? Maxime Durand não perdoa. Ele mata. E se eu correr, ele vai me caçar como um animal.

— O filho dele é pior! — insistiu o pai, desesperado. — As histórias que ouvi... ele é cruel, sem alma. Você vai ser uma prisioneira!

— Tarde demais. Você me transformou em mercadoria naquela mesa. Para eles, o que é “deles” não se pede. Se toma.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Apenas a chuva batendo na janela e os trovões ao longe.

Lucie sentiu o peito apertar. Aos 18 anos, prestes a se formar em Administração, com notas impecáveis e um futuro brilhante pela frente, tudo desmoronava. Trabalhar como garçonete na Las Delícias mal pagava as contas. Agora nem isso teria.

— Nunca mais chegue perto de uma mesa de pôquer — ordenou ela, a voz gelada apesar das lágrimas. — Quando sentir vontade de jogar, lembre-se: estou me vendendo para um monstro por sua causa.

Adrien tentou abraçá-la. Lucie o empurrou.

— Não me toque!

Ela subiu as escadas correndo, o choro ecoando pela casa. No quarto, jogou-se na cama e socou os travesseiros com fúria. A janela se abriu violentamente com uma rajada de vento, derrubando livros e papéis. Furiosa, Lucie correu para fechá-la.

No instante em que tocou o trinco, algo explodiu dentro dela.

Um raio roxo, brilhante e quente, saiu de sua palma. A janela bateu com estrondo, o vidro tremeu. A força a jogou para trás, derrubando-a no chão.

Seu pai invadiu o quarto, pálido.

— Lucie! O que foi isso?!

Ele tentou ajudá-la a levantar. Ela o olhou com olhos flamejantes de dor e raiva.

— Saia daqui! — gritou, a voz rouca. — Tudo isso só está acontecendo por sua culpa! Saia! Hoje eu não quero te ver!

Adrien recuou, cabisbaixo, como um fantasma. Um espectro do homem que um dia fora feliz.

Quando a porta se fechou, Lucie deslizou até o chão, abraçando os joelhos. O raio roxo ainda formigava em sua mão. O que estava acontecendo com ela? Primeiro os sonhos de guerra, asas e sangue. Agora isso.

O medo se misturava à fúria. Em poucos dias, seria entregue à família Durand. Seu marido provavelmente seria um mafioso sem piedade como sogro. Um marido desconhecido e provavelmente perigoso.

Não havia escapatória.

Lucie enterrou o rosto nos braços e deixou as lágrimas caírem. O banheiro estava silencioso, mas sua mente gritava.

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