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CAPÍTULO 2 – QUE APOSTA É ESSA?!

Lucie acordou com o coração martelando no peito. O sonho ainda grudava em sua pele como sangue quente: espadas cortando carne, asas iridescentes rasgando o ar, olhos cheios de ódio. Parecia tão real. Ela era Alexandra lá. Uma general em meio ao caos.

Kassiani a observava da porta, o rosto marcado por rugas de preocupação.

— Bom dia, querida. Você estava agitada de novo. Chamava pela sua mãe...

Lucie forçou um sorriso fraco, sentando na cama.

— Foi só um sonho, Kassiani. Nada demais.

A governanta, com quase sessenta anos, aproximou-se e abriu a janela. O ar frio de Paris invadiu o quarto, mas não afastou o peso no peito de Lucie. Kassiani havia sido sua babá e agora era a única mãe que lhe restava.

— Você parecia apavorada. Tem certeza de que não quer falar sobre isso?

Lucie hesitou. Como explicar que sonhara ser uma guerreira alada no meio de uma carnificina mágica? Kassiani nunca acreditaria.

— Sonhei que era minha mãe... ou que eu era ela. Era confuso. Cheio de sangue e gritos. Mas agora preciso me arrumar para a universidade.

Kassiani sentou na beira da cama e segurou suas mãos com força. Seus olhos estavam vermelhos.

— Tem certeza de que deve ir hoje? Com esse casamento se aproximando...

A palavra "casamento" caiu como uma sentença de morte. Lucie sentiu um arrepio gelado percorrer a espinha.

— Preciso manter a cabeça ocupada, Kassiani. Senão vou enlouquecer.

— Ainda dá tempo de fugir! — sussurrou a governanta, voz trêmula. — Você e seu pai poderiam desaparecer. Eu ajudo!

— Par Dieu, Kassiani! — Lucie puxou as mãos, aflita. — Acha que não pensei nisso? Eles estão vigiando a casa desde ontem. Homens do Durand em cada esquina. Se eu correr, meu pai morre. E eu dei minha palavra.

Kassiani baixou a cabeça, lágrimas escorrendo.

— Aquele monstro... Maxime Durand. Ele colocou cães de guarda na nossa porta. Você vai ser entregue como um pedaço de carne. E eu não posso fazer nada! Odeio seu pai por isso. Odeio!

Lucie abraçou a mulher mais velha, sentindo o corpo dela tremer.

— Não fale assim. Ele é meu pai. Depois que mamãe morreu, ele desmoronou. Bebida, cassinos... perdeu tudo. Mas eu não vou abandoná-lo.

O quarto ficou em silêncio por um momento. Lucie olhou pela janela e a memória daquela noite terrível voltou com força.

Era domingo. Chuva pesada caía sobre Paris, raios cortando o céu negro. Ela esperava ansiosa, andando de um lado para o outro. Quando o pai finalmente chegou, por volta das três da manhã, estava encharcado e destruído.

Adrien Chevalier a abraçou chorando, o cheiro de uísque e desespero impregnado na roupa.

— Me perdoa, filha... Eu não queria. Juro que não queria!

— O que você fez, pai? — perguntou Lucie, sentindo o pavor subir pela garganta.

Ele havia apostado tudo no pôquer. E perdido. Para Maxime Durand, o mafioso que controlava metade da cidade. Quando o dinheiro acabou, Adrien, bêbado e desesperado, ofereceu mais.

— Eu ainda tenho algo valioso — dissera ele naquela mesa.

E apontara para uma foto de Lucie.

A aposta foi aceita. A filha dele em troca da dívida perdoada. A noiva para o filho de Durand.

Lucie sentiu náusea ao lembrar. Que infelizmente foi a sua aparência exótica quem alheio atraiu tida aquela desgraça — seus cabelos loiros platinados quase brancos, olhos azul-violeta amendoados, corpo curvilíneo e delicado — havia selado seu destino. Os homens na mesa olharam a foto com desejo. Para eles, ela era um prêmio.

— Ele não vai ter piedade — murmurou Kassiani, enxugando o rosto. — Durand é o diabo. Se você não cumprir, mata seu pai sem piscar. E depois vem atrás de você.

Lucie engoliu em seco. O medo apertava seu peito como uma mão invisível.

— Eu sei. Mas não tenho escolha. Vou me casar com um homem que nem conheço para salvar a vida do meu pai. Ele era feliz antes... Depois da morte da mamãe, virou outra pessoa. Gastou tudo. A fortuna, a herança dela, nossa casa quase foi embora. Se ainda comemos, é graças ao meu salário que recebo do meu patrão do café Las Delícias.

Kassiani balançou a cabeça, impotente.

— Você sempre quer consertar tudo, meu anjo. Essa sua bondade vai te destruir.

Lucie levantou, sentindo as pernas fracas.

— Preciso estar forte. Não posso desmoronar agora.

Enquanto caminhava para o banheiro, o pânico ameaçava tomar conta. O sonho ainda ecoava em sua mente — asas, sangue, guerra. E agora a realidade: um casamento forçado com o filho de um mafioso cruel.

O tempo estava acabando. Em breve, ela seria entregue. E ninguém poderia salvá-la.

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