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CAPÍTULO 07 - PRIMEIRAS DESCOBERTAS

Aurora segurava o pequeno carrinho de madeira entre as mãos.

Era um brinquedo simples, desgastado pelo tempo. Uma das rodas estava levemente torta, e havia pequenas marcas na pintura azul, quase apagada. Ela sorriu.

— Era seu?

Gustavo pegou o carrinho com cuidadoe passou o polegar sobre a madeira, como quem reencontra um velho amigo.

— Foi o primeiro presente que Augusto me deu. — Aurora o observava em silêncio — Eu tinha seis anos, passei semanas brincando com ele por toda a fazenda. — ele riu baixinho — Eu acreditava que aquele carrinho podia ir a qualquer lugar.

Anselmo sorriu.

— E você fazia ele atravessar o terreiro inteiro.

Os três riram.

Por alguns instantes, era difícil imaginar que aquele mesmo menino havia se tornado o empresário sério que todos conheciam.

Anselmo caminhou até um armário antigo, escondido atrás de algumas ferramentas.

Abriu uma das portas, que rangia com o peso dos anos.

Lá dentro havia várias caixas de papelão cuidadosamente organizadas.

Todas estavam identificadas com a mesma caligrafia elegante.

"Família Ferraresi."

— Tudo isso? — Aurora arregalou os olhos.

— Augusto me pediu para cuidar dessas caixas enquanto estivesse vivo — explicou Anselmo — Depois da morte dele, recebi uma única ordem: entregá-las apenas quando Gustavo voltasse com Aurora.

— Então ele realmente planejou tudo... — Gustavo respirou fundo.

— Durante meses. — Anselmo assentiu.

Aurora ajoelhou-se diante da primeira caixa e retirou a tampa lentamente, dentro havia dezenas de fotografias organizadas em pequenos envelopes.

Pegou a primeira, era uma imagem em preto e branco.

Mostrava um menino de cabelos escuros sentado sobre um cavalo pequeno, enquanto um homem mais velho segurava as rédeas.

— É o senhor? — perguntou.

— Sim. — Gustavo sorriu.

— E esse homem?

Anselmo respondeu antes.

— O pai de Augusto. Seu bisavô.

Aurora ficou surpresa, era a primeira vez que via alguém daquela geração da família.

Continuou folheando.

Outra fotografia mostrava Augusto ainda jovem, sorrindo ao lado da esposa.

Depois outra.

Gustavo, ainda criança, correndo pelo campo com um cachorro.

Mais uma.

O aniversário de dez anos de Gustavo, comemorado na varanda da casa.

Maytê não aparecia em nenhuma delas, ela ainda nem fazia parte da história.

Aurora olhava cada detalhe com atenção, era como montar um quebra-cabeça.

Cada imagem revelava uma família muito diferente daquela que conhecia apenas pelos jornais e revistas.

Ali não havia empresários, reuniões e nem ternos caros. Havia apenas pessoas, uma família.

Ela encontrou outra fotografia.

Nessa, Augusto aparecia sentado ao lado de Gustavo adolescente. Nenhum dos dois sorria.

— Pai...

Gustavo aproximou-se, seu semblante mudou.

— Essa foto foi tirada pouco tempo depois da morte da minha avó.

Aurora percebeu imediatamente o peso daquela lembrança.

— O senhor ainda era muito novo.

— Dezessete anos.

Ela segurou a fotografia por alguns segundos antes de guardá-la novamente.

Na segunda caixa havia documentos, escrituras antigas, mapas da fazenda, cartas comerciais, recortes de jornais. Tudo organizado por datas.

Aurora retirou um pequeno caderno de capa de couro.

— O que é isso?

Anselmo sorriu.

— O primeiro livro-caixa da fazenda.

Ela abriu.

As páginas estavam preenchidas com uma letra impecável, anotações sobre plantações, nascimento de animais, funcionários, compras.

Mas, entre um registro e outro, havia pequenas observações escritas por Augusto.

"Hoje Gustavo montou sozinho pela primeira vez."

"A chuva finalmente chegou."

"Meu filho passou a tarde inteira ajudando os peões."

— Ele escrevia sobre o senhor... — Aurora sorriu.

— Eu nunca soube disso. — disse, emocionado.

Anselmo passou a mão na barba branca.

— Augusto nunca dizia o quanto amava você. — fez uma pausa — Mas escrevia.

O silêncio voltou ao celeiro.

Aurora continuou examinando os objetos: encontrou uma ferradura antiga, uma medalha de competição de equitação, um relógio de bolso quebrado, um lenço bordado com as iniciais "E.F.".

Tudo parecia carregar uma história.

Na última caixa, porém, havia apenas um objeto. Uma pasta de couro escura, muito bem conservada.

Sobre ela, um bilhete preso por um pequeno cordão. Aurora leu em voz alta.

"Algumas lembranças aquecem o coração, outras explicam as cicatrizes."

— Posso abrir? — perguntou, olhando para o pai.

— Pode. — ele respirou fundo.

Aurora soltou o cordão e dentro da pasta havia vários documentos antigos. No topo, uma certidão.

 Logo abaixo, cartas escritas à mão e, por último, um envelope fechado.

Diferente dos anteriores, esse trazia apenas uma frase:

"A verdade que Gustavo nunca teve coragem de contar."

Aurora levantou lentamente os olhos e encontrou o pai completamente imóvel.

Pela primeira vez desde o início da viagem, ela percebeu que a próxima descoberta não revelaria apenas a história de Augusto.

Revelaria um pedaço da vida de Gustavo que ele havia guardado em silêncio durante dezoito anos e, talvez, fosse justamente essa a lembrança mais difícil de revisitar.

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