Início / Romance / LIVRO 3 — O LEGADO FERRARESI / CAPÍTULO 06 - O HOMEM QUE MEU PAI FOI
CAPÍTULO 06 - O HOMEM QUE MEU PAI FOI

Gustavo empurrou lentamente a pesada porta do celeiro, as dobradiças enferrujadas rangeram, quebrando o silêncio da fazenda.

A luz da manhã atravessava as frestas da madeira, formando feixes dourados sobre o chão coberto por feno. O cheiro de terra, madeira antiga e cavalos ainda permanecia ali, mesmo tantos anos depois.

Aurora entrou logo atrás do pai, olhava tudo com curiosidade.

— Parece que o tempo parou... — disse, curiosa.

— Para mim, ele realmente parou aqui. — Gustavo sorriu de leve.

Ela o observou. Nunca tinha ouvido o pai falar com tanta nostalgia.

No fundo do celeiro havia uma antiga bancada de madeira. Sobre ela descansava uma pequena caixa de metal, fechada por um cadeado.

Ao lado, um envelope já amarelado pelo tempo e na frente estava escrito:

"Para Gustavo e Aurora."

— É mais uma carta... — disse Aurora, pegando o envelope.

— Leia. — pediu.

Ela abriu cuidadosamente o papel, a letra de Augusto apareceu mais uma vez.

"Se chegaram até o celeiro, significa que aceitaram olhar para o passado. Antes de conhecer quem eu fui, Aurora, você precisa conhecer quem seu pai foi. Porque ninguém nasce forte, as pessoas se tornam fortes depois que sobrevivem ao que quase as destruiu."

Aurora levantou os olhos e olhou para o pai e pela primeira vez, percebeu que talvez conhecesse apenas uma parte da história dele. Continuou lendo.

"Gustavo chegou a esta fazenda muitas vezes durante a infância. Corria pelos campos, subia nas árvores e acreditava que o mundo era simples. Durante alguns anos, eu também acreditei nisso. Depois vieram minhas escolhas erradas, e aquele menino alegre foi desaparecendo diante dos meus olhos."

Aurora respirou fundo, nunca imaginou o pai criança. Sempre o enxergara como um homem firme, seguro e quase impossível de abalar.

Augusto continuava.

"Se hoje ele parece inabalável, não se engane. Seu pai chorou muito mais do que deixou qualquer pessoa ver, aprendeu cedo a esconder a dor para proteger quem amava. Carregou responsabilidades que nunca deveriam ter sido colocadas sobre seus ombros."

Aurora abaixou lentamente a carta.

— Pai... — Gustavo permanecia olhando para o velho piso de madeira, ela aproximou-se — É verdade?

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Sim.

O silêncio permaneceu entre os dois, então Gustavo caminhou até uma das baias vazias e passou a mão sobre a madeira desgastada.

— Está vendo este lugar? — Aurora fez que sim — Foi aqui que aprendi a montar a cavalo. — sorriu discretamente — Eu caía quase todos os dias.

— Você? — ela riu.

— Seu avô dizia que um Ferraresi nunca desistia depois de uma queda. — ele respirou fundo — O problema é que, quando cresci, as quedas deixaram de ser dos cavalos.

Aurora permaneceu ao seu lado, não disse nada, sentia que o pai precisava falar.

— Durante muito tempo eu tive medo de me tornar igual ao Augusto.

— O senhor pensava isso? — perguntou, incrédula.

— Todos os dias. — afirmou, abaixando a cabeça — Eu tinha medo de repetir os erros dele, de machucar as pessoas e destruir tudo o que amava.

— Mas isso nunca aconteceu. — disse, segurando a mão do pai.

— Porque sua mãe apareceu na minha vida. — ele sorriu e ao ouvir o nome de Maytê, seus olhos ganharam um brilho diferente — Ela acreditou em mim quando eu mesmo não acreditava. — fez uma pausa — Depois você nasceu. — olhou diretamente para a filha — E naquele dia eu fiz uma promessa.

— Qual?

— Que você jamais sentiria medo de mim.

Aurora não conseguiu conter as lágrimas e abraçou o pai com força.

— Eu nunca senti.

— Era tudo o que eu precisava ouvir. — ele fechou os olhos.

Os dois permaneceram abraçados por alguns instantes, foi Anselmo quem quebrou o silêncio ao entrar lentamente no celeiro.

— Posso mostrar uma coisa?

Gustavo assentiu.

O velho caminhou até uma prateleira alta e retirou um álbum de fotografias coberto por poeira e colocou-o sobre a bancada.

Aurora abriu a primeira página e seu sorriso surgiu imediatamente.

— Pai...

Gustavo aproximou-se.

Na fotografia, um menino de cerca de oito anos aparecia completamente coberto de lama, segurando um filhote de cachorro nos braços.

— O senhor era impossível!

Anselmo caiu na risada.

— Esse cachorro caiu num córrego. Gustavo entrou sem pensar duas vezes para salvá-lo.

Aurora virou outra página.

Agora havia uma fotografia de Gustavo adolescente, ajudando um funcionário da fazenda a consertar uma cerca.

Depois outra, Gustavo plantando uma árvore ao lado de Augusto.

Mais uma, os dois pescando no lago.

Aurora observava tudo em silêncio.

As imagens mostravam um lado do pai que ela nunca conhecera: um menino sorridente, espontâneo, cheio de sonhos.

— O senhor era feliz aqui. — afirmou, olhando para ele.

— Muito. — sorriu com saudade.

— Então por que nunca voltou?

O sorriso desapareceu lentamente.

Gustavo fechou o álbum com delicadeza, olhou ao redor do celeiro e depois para a janela, de onde era possível ver a casa principal.

— Porque foi aqui que também vivi uma das maiores dores da minha vida.

Anselmo baixou a cabeça, respeitando aquela lembrança.

Aurora percebeu que havia muito mais naquela história do que imaginava.

Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, Anselmo apontou para a pequena caixa de metal sobre a bancada.

— Augusto pediu que ela só fosse aberta depois que vocês lessem a carta.

Aurora aproximou-se, o cadeado permanecia fechado.

Ela retirou do bolso a antiga chave que recebera de Henrique e olhou para Gustavo, que fez um leve gesto afirmativo.

Com as mãos trêmulas, Aurora encaixou a chave na fechadura.

Um estalo seco ecoou pelo celeiro, o cadeado finalmente se abriu.

Dentro da pequena caixa havia um único objeto: um carrinho de madeira, simples, desgastado pelo tempo.

Aurora o pegou com cuidado e no fundo da caixa havia um pequeno bilhete, ela desdobrou o papel lendo-o em voz alta:

"Antes de conhecer o empresário que seu pai se tornou, conheça o menino que ele precisou deixar para trás."

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