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CAPÍTULO 05 - O PRIMEIRO DESTINO

Aurora demorou alguns segundos antes de abrir o segundo envelope, o papel parecia ainda mais antigo que o primeiro. Ela respirou fundo, olhou para Gustavo e, ao receber um discreto aceno de aprovação, rompeu cuidadosamente o lacre.

Dentro havia apenas um cartão dobrado. Nenhuma fotografia, nenhum documento, somente um pequeno pedaço de papel. Ela o desdobrou e a caligrafia de Augusto surgiu novamente diante de seus olhos.

"Aurora,

Se chegou até aqui, significa que escolheu conhecer sua história. Isso me deixa feliz. Toda família tem um lugar onde sua verdadeira história começou. A nossa não nasceu nos escritórios da Ferraresi, nem nas salas de reuniões, nem nos contratos milionários. Ela começou em um lugar muito mais simples.

Seu primeiro destino é a antiga Fazenda Santa Helena, foi lá que aprendi o valor do trabalho e que perdi pessoas importantes. Foi lá que tomei decisões que mudaram minha vida para sempre.

Procure o velho celeiro de madeira, há alguém esperando por vocês.

Com carinho, Augusto Ferraresi."

Aurora releu aquelas linhas duas vezes.

— Fazenda Santa Helena... — repetiu e olhou para o pai — Você conhece esse lugar?

Ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, seus olhos pareciam perdidos em lembranças distantes.

— Conheço.

— Você nunca voltou lá, não é? — Maytê o encarou.

— Não desde a morte dele. — respondeu, distante.

— Minha missão termina aqui. — Henrique fechou a pasta — A partir de agora, vocês dois seguirão sozinhos.

Ele se despediu da família e deixou a cobertura. Assim que a porta se fechou, o silêncio voltou.

— O que existe nessa fazenda? — perguntou, se aproximando do pai.

— Minha infância. — ele sorriu de leve.

Na manhã seguinte, o sol ainda nascia quando uma caminhonete preta deixou a garagem da cobertura, Maytê insistiu em acompanhá-los até o elevador e antes que as portas se fechassem, abraçou Aurora demoradamente.

— Aproveite cada momento. — acariciou o rosto da filha e em seguida, abraçou o marido — Cuida dela.

— Sempre. — ele sorriu.

— E cuide de você também. — selou os lábios dele.

As portas se fecharam lentamente, ela permaneceu olhando até que o elevador desaparecesse e no fundo do coração, sentia que aquela viagem mudaria pai e filha para sempre.

A estrada parecia interminável.

Conforme deixavam a cidade para trás, os prédios davam lugar aos campos verdes, às montanhas e às longas cercas de madeira.

— Eu nunca imaginei que nossa família tivesse uma fazenda. — disse, olhando pela janela.

— Não temos mais.

— O que aconteceu?

— Augusto vendeu a propriedade muitos anos atrás. — respondeu, mantendo os olhos na estrada.

— Por quê?

— Acho que essa resposta faz parte da jornada. — sorriu, discretamente.

— Então agora você também vai falar em enigmas? — cruzou os raos, indignada.

— Estou aprendendo com seu avô.

Ela riu, era estranho ver o pai tão leve.

Durante toda a vida, Gustavo fora um homem sério, reservado, sempre concentrado no trabalho.

Naquela viagem, porém, parecia um garoto revivendo lembranças e depois de quase quatro horas de estrada, a caminhonete entrou por uma estrada de terra.

Aurora abaixou o vidro, o cheiro da grama molhada invadiu o veículo.

Ao longe, cavalos pastavam tranquilamente. Havia um lago cercado por salgueiros e uma casa antiga surgia entre árvores enormes.

— É lindo... — murmurou.

— Continua exatamente como eu lembrava. — diminuiu a velocidade.

Poucos metros depois, eles passaram por um velho portal de madeira. Mesmo desgastada pelo tempo, a placa permanecia de pé.

FAZENDA SANTA HELENA

Aurora fotografou o portal com o celular.

— Acho que vou registrar toda essa viagem.

— Seu avô gostaria disso.

Enquanto avançavam pela propriedade, um senhor idoso apareceu caminhando em direção ao carro. Usava chapéu de palha, camisa xadrez e botas antigas. Seus cabelos completamente brancos contrastavam com o sorriso acolhedor, assim que Gustavo desceu da caminhonete, o homem abriu um largo sorriso.

— Eu sabia que um dia você voltaria.

Gustavo demorou alguns segundos para reconhecê-lo e então sorriu emocionado.

— Seu Anselmo...

Os dois se abraçaram com força. Aurora observava a cena sem entender.

Quando se afastaram, o senhor enxugou discretamente os olhos.

— Você está muito parecido com seu pai... mas tem o olhar da sua mãe.

— O senhor continua dizendo as mesmas coisas. — Gustavo sorriu.

Anselmo riu.

— E você continua demorando para aparecer.

Ele então voltou sua atenção para Aurora.

— Então esta é a neta do Augusto...

Aurora estendeu a mão.

— Prazer. Sou Aurora.

O senhor, porém, ignorou o gesto formal e abraçou-a com carinho.

— Seja bem-vinda à casa onde tudo começou.

Ela sorriu, surpresa com tanto afeto.

— O senhor conheceu meu avô?

Anselmo olhou para a antiga casa antes de responder.

— Conheci o menino Augusto, o homem Augusto e também o velho Augusto. — fez uma pequena pausa — Mas foi aqui que ele aprendeu as lições que passou a vida inteira tentando entender.

Aurora sentiu um arrepio, a viagem estava apenas começando.

Anselmo apontou para uma construção antiga, parcialmente escondida pelas árvores. Um grande celeiro de madeira, marcado pelo tempo, permanecia de pé.

— Ele pediu que vocês começassem por lá.

Gustavo e Aurora seguiram o olhar do velho.

O celeiro parecia guardar décadas de histórias, talvez de segredos, talvez de respostas.

Sem dizer uma palavra, pai e filha caminharam lado a lado em direção ao enorme portão de madeira.

Assim que Gustavo pousou a mão na maçaneta enferrujada, sentiu o coração acelerar.

Dezoito anos depois da morte de Augusto, ele finalmente estava de volta ao lugar onde tudo havia começado e, pela primeira vez, teve a certeza de que seu pai ainda tinha muito a lhe ensinar.

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