CAPÍTULO 03 - A CARTA

Aurora permaneceu imóvel por alguns segundos, o papel parecia muito mais pesado do que realmente era.

Ao seu redor, ninguém dizia uma palavra. Gustavo mantinha os braços cruzados, tentando esconder a ansiedade. Maytê observava a filha com os olhos marejados. Henrique permanecia em silêncio, respeitando um momento que sabia não lhe pertencer.

Aurora respirou fundo e com cuidado, desdobrou a folha.

A tinta estava levemente desbotada pelo tempo, mas a letra de Augusto permanecia firme, elegante e perfeitamente legível.

Ela começou a ler em voz alta.

"Minha querida Aurora,

Se esta carta chegou às suas mãos, significa que a vida me concedeu um presente que eu jamais tive a oportunidade de conhecer pessoalmente: você chegou aos dezoito anos.

Provavelmente, enquanto lê estas palavras, seu pai estará tentando parecer forte, sua mãe estará emocionada e você estará cheia de perguntas.

Espero estar certo.

Antes de qualquer coisa, preciso pedir perdão. Não a você, porque nunca lhe fiz mal, mas porque o sobrenome que você carrega nasceu cercado por erros que eu mesmo cometi. Durante muitos anos, acreditei que poder, dinheiro e controle eram as únicas formas de proteger quem amava. Descobri tarde demais que o amor nunca pode ser imposto, ele só floresce quando existe liberdade.

Seu pai me ensinou isso, na verdade, ele me ensinou muito mais do que imagina."

A voz de Aurora vacilou, ela levantou os olhos e encontrou Gustavo olhando para o chão, seu pai raramente demonstrava emoção. Mas naquele instante seus olhos estavam brilhando.

Aurora voltou à carta.

"Se hoje Gustavo é um homem digno, não foi por minha causa. Foi apesar de mim.

Ele enfrentou dores que nenhum filho deveria enfrentar. Sofreu pelas minhas escolhas e carregou um peso que nunca lhe pertenceu. Mesmo assim, escolheu um caminho diferente do meu. Escolheu amar e então encontrou sua mãe, Maytê.

Se você soubesse o quanto agradeci a Deus por colocar essa mulher na vida do meu filho, ela devolveu humanidade ao homem que eu quase destruí.

Quando descobri que ela esperava você, tive a certeza de que a história da nossa família finalmente deixaria de ser escrita com sofrimento. Pela primeira vez, enxerguei esperança onde antes só existia culpa."

Maytê levou a mão ao rosto, as lágrimas começaram a cair silenciosamente, ela nunca imaginou que Augusto tivesse guardado sentimentos tão profundos.

Naquela época, ele era um homem reservado. Demonstrava carinho em pequenos gestos, mas raramente colocava emoções em palavras.

Aurora continuou.

"Gostaria de ter segurado você no colo, de ouvir sua primeira risada, de ensinar algumas coisas que aprendi tarde demais. Infelizmente, a vida não me concedeu esse privilégio e por isso escrevi estas cartas.

Talvez eu não possa caminhar ao seu lado, mas minhas palavras poderão. Não quero que esta seja apenas uma lembrança de um velho arrependido, quero que ela seja o início de uma jornada. Uma jornada que ajudará você a compreender quem realmente somos."

Aurora parou novamente, seu coração batia acelerado. Ela jamais conhecera Augusto.

Tudo o que sabia sobre ele vinha das histórias contadas por Gustavo e Maytê, histórias de um homem que havia errado muito, mas que também encontrou coragem para mudar antes de partir.

Ela respirou fundo e continuou.

"Existe uma caixa que esperei dezoito anos para entregar a você, dentro dela estão objetos sem valor para quem olha apenas com os olhos. Mas, para quem enxerga com o coração, cada um deles guarda uma parte da nossa história.

Não abra essa caixa por curiosidade. Abra apenas quando estiver pronta para compreender que toda família carrega cicatrizes, mas nenhuma delas precisa determinar o futuro de quem vem depois.

Você não herdou os meus erros, herdou a oportunidade de fazer diferente e sei que fará.

Porque você é filha de Gustavo e Maytê. Isso, por si só, já faz de você a melhor versão que os Ferraresi poderiam deixar para o mundo."

O silêncio que tomou conta da sala era diferente de qualquer outro, não era um silêncio de tristeza. Era de reflexão.

Gustavo enxugou discretamente uma lágrima antes que alguém percebesse, mas Aurora percebeu. Ela se levantou, caminhou até o pai e o abraçou com força.

— Ele tinha muito orgulho de você... — sussurrou.

Gustavo fechou os olhos, durante anos, esperou ouvir aquelas palavras.

Mesmo sabendo que Augusto já havia demonstrado seu arrependimento em vida, lê-las ali, escritas por suas próprias mãos, tinha um peso diferente.

Depois de alguns instantes, Aurora voltou para a carta.

Havia apenas mais um pequeno trecho.

"A partir de agora, cada resposta dependerá de uma escolha sua. Amanhã, às nove horas da manhã, procure o Henrique. Ele entregará a primeira pista da jornada que preparei.

Se decidir não seguir esse caminho, ninguém a julgará. Mas, se aceitar, prometo que ao final compreenderá por que esperei exatamente dezoito anos para chamá-la.

Com carinho, seu avô, Augusto Ferraresi."

Aurora dobrou cuidadosamente a carta, ninguém falou durante alguns segundos.

Wntão ela olhou para Gustavo, para Maytê e para Henrique. Seu semblante já não era o de uma jovem curiosa.

Havia determinação em seus olhos.

— Eu vou descobrir tudo o que ele quis me mostrar.

Gustavo sorriu, orgulhoso.

Sem saber, Aurora acabava de dar o primeiro passo para a jornada que mudaria não apenas a forma como enxergava sua família, mas também a maneira como escreveria o próprio destino.

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