CAPÍTULO 02 - O ENVELOPE

O silêncio tomou conta da sala.

Aurora segurava o envelope com as duas mãos, como se temesse que ele pudesse se desfazer a qualquer instante. O papel estava amarelado pelo tempo, e o lacre de cera, embora desgastado, permanecia intacto.

Ninguém dizia uma palavra.

Gustavo não conseguia desviar os olhos da caligrafia, era de Augusto.

Depois de dezoito anos, bastou ver aquelas letras para que lembranças que julgava enterradas voltassem com força.

Maytê percebeu o quanto o marido havia ficado abalado, aproximou-se discretamente e entrelaçou seus dedos aos dele, como fizera tantas vezes ao longo da vida e faria para sempre.

— Henrique... — Gustavo finalmente falou, a voz baixa — Você guardou isso durante todo esse tempo?

— Foi o último pedido de Augusto. — assentiu, justificando — Ele me chamou ao hospital poucos dias antes de partir, disse que aquele envelope jamais poderia ser entregue antes do aniversário de dezoito anos de Aurora.

— Ele sabia que eu existiria? — perguntou' franzindo a testa.

— Sabia. — disse, sorrindo — E ficou muito feliz quando descobriu que você estava a caminho.

Maytê abaixou a cabeça por um instante, as lembranças daquele período voltaram imediatamente.

Ela ainda estava grávida quando Augusto se despediu da família. Apesar da saúde frágil, ele fazia questão de conversar sobre o futuro, como se soubesse que não teria tempo para conhecer a neta.

Naquela época, ela não imaginava que ele estivesse preparando algo assim.

— Tem mais alguma coisa aí dentro? — perguntou Aurora.

— Isto também foi deixado por Augusto.

Henrique retirou um pequeno chaveiro de prata da pasta, uma chave antiga pendia dele.

Era pesada, antiga, cuidadosamente polida.

Na parte superior havia um brasão gravado, o símbolo da família Ferraresi.

— O que ela abre? — perguntou, curiosa.

— Eu não sei. — Henrique balançou a cabeça.

— Você nunca perguntou? — Gustavo levantou os olhos.

— Perguntei.

— E o que ele respondeu?

— Ele disse apenas: "Quando Aurora descobrir, vai entender por que precisei esperar dezoito anos." — Henrique sorriu, ao pronunciar exatamente as palavras de Augusto.

A curiosidade tomou conta da sala, Aurora olhava alternadamente para o envelope e para a chave, pareciam duas peças de um quebra-cabeça.

— Talvez seja melhor abrir. — Maytê respirou fundo.

Antes que Aurora rompesse o lacre, Henrique levantou a mão.

— Há mais uma condição. — todos voltaram a olhá-lo e ele retirou um documento dobrado — Augusto deixou instruções muito específicas.

Gustavo pegou a folha e começou a ler em silêncio, depois fechou os olhos por alguns segundos. Aurora estranhou.

— Pai, o que foi?

Ele respirou profundamente antes de responder.

— Seu avô queria que a primeira carta fosse lida hoje, mas o restante da herança só poderá ser acessado se você aceitar cumprir um percurso que ele preparou.

— Um percurso? — perguntou, confusa.

— Uma jornada. — Henrique confirmou.

Aurora sorriu, sem esconder a curiosidade.

— Parece um caça ao tesouro.

— Talvez seja mais do que isso. — respondeu Henrique — Augusto dizia que algumas respostas não podem ser entregues prontas, precisam ser vividas.

Gustavo caminhou até a janela, a cidade seguia seu ritmo lá fora, mas dentro daquela cobertura, o tempo parecia ter voltado dezoito anos.

Ele lembrou do último abraço em Augusto, da promessa que fez ao pai e da caixa de madeira que jamais voltou a ver.

Na época, acreditou que ela tivesse sido destruída. Agora entendia que não.

Augusto havia planejado tudo, até aquele dia.

— Pai... — chamou Aurora, aproximando-se.

Gustavo voltou à realidade e sorriu com carinho para a filha.

— Acho que chegou a hora de conhecermos uma parte da história da nossa família que nem eu conheço completamente.

Aurora olhou novamente para o envelope, seu coração acelerava, ela não fazia ideia do que encontraria ali.

Mas tinha a sensação de que, quando rompesse aquele lacre, nada voltaria a ser como antes e com cuidado, passou o dedo sobre a cera endurecida.

Respirou fundo.

Então, diante dos olhos atentos de Gustavo, Maytê e Henrique, rompeu o selo que havia permanecido intacto por dezoito anos.

Dentro do envelope havia apenas uma folha cuidadosamente dobrada e no topo, escrito com a mesma caligrafia firme de Augusto Ferraresi, estava o início da mensagem:

"Se você está lendo esta carta, significa que chegou exatamente ao momento que esperei durante tantos anos..."

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